Cada momento, cada época da vida temos discos que fazem nossa cabeça. Não tem muito a ver com as listas de críticos, com os discos antológicos que operam revoluções na história da música. São as tais revoluções intimas, que podem se universalizar.As vezes do nada acordamos e lá esta nosso disco preferido em alguma lista de outrem. Mas nessa área não há unanimidade.
Poderia falar de vários discos, um em especial fez minha cabeça e me ocorreu agora. Na verdade eu demorei para tê-lo em vinil, tinha apenas uma fita cassete e mal gravada. Era época dos discos que saiam e sumiam, não tinha onde baixar, viravam raridade e dá-lhe especulação.
Mico de Circo do Luiz Melodia.
O disco começa com “A Voz Morro” de Zé Keti com arranjo da Orquestra Tabajara de Severino Araújo , Luiz que não queria ficar estereotipado como cantor de samba, exerce seu direito de gravar samba no melhor clima gafieira:
Eu sou o samba
A voz do Morro sou eu mesmo
Sim Senhor,
Quero mostrar ao mundo
Que tenho valor
Eu sou o rei dos Terreiros
Seguem músicas com arranjos e regências de Perinho Santana, João Donato, Armandinho, Marcio Montarroyos , Oberdan Magalhães (Banda Black Rio) time de bambas que deu bom caldo . Baladas, choros, samba-blues, não importa por onde anda o ritmo, a voz de Melodia esta lá, peculiar, soberana.
Gosto muito de Presente Cotidiano de versos:
Quem quer morrer de amor se engana
Momentos são momentos, drama
O corpo é natural da cama
Vou caminhar um pouco mais atrás da lua
Vou caminhar um pouco mais atrás da rua
O flagrante romântico e urbano de “Onde o Sol Bate e se Firma”:
Estou em torno da cidade
Trajes elegantes sobre mim
Vejo vitrines, vejo boutiques
Só não vejo quem eu quis
Os transeuntes me agitam
Me perco sobre a multidão
Mas vejo através das lentes negras
Lindo, teu corpo lindo
Serás amor minha canção

O samba-funk cheio de malandragem de” O Morro Não Engana “, alias o disco é uma homenagem aos marginais do morro (Cara de Cavalo, Mineirinho, Mico Sul e outros) que de alguma forma estava próximos ao menino criado no morro do Estácio:
Subi o morro, subi cansado
Pobre de mim, pobre de nada
Morro do medo
Morro do sono
Morro do sonho
Morro do asfalto
Morro do clima lá em cima
O morro é de morar
Ah, depois de um tempo consegui o vinil por uma grana em um sebo, daí veio o cd e acabou com esse elitismo de “coisa rara”.
Abaixo vou colocar trecho de uma entrevista que saiu no site www.gafieiras.com.br onde Melodia fala sobre o lançamento do disco:
Max Eluard – Fugiu mesmo?
Melodia – Saí batido. Fugi, em termos. Fui para um lugar onde eu estava bem acomodado com a Jane. Eu a conheci novinha, linda, maravilhosa, morenão, um cabelão. É ruim de não ficar lá! [risos] Foi quando escrevi todo o Mico de circo, um LP meu. Cheguei ao Rio e o concluí. Foi quando homenageei toda a bandidagem do Morro do São Carlos, de Mineirinho a Mico Sul, e acabou entrando Angela Maria, Jamelão. Eu queria somente homenagear a bandidagem, mas acabaram indo todos os bandidos. Foi toda a marginalidade. Inclusive, coloquei “Tributo a…”, aí comecei a escrever “Fulano de tal”, “Fulano de tal”, Cara de Cavalo. Tinha umas senhoras que me viram miudinho no Morro do São Carlos, e aí também pus o nome, Dona Moca, Dona Eurídice. Sabe, saí botando o nome de várias senhoras que moravam no morro. E com esse Mico de circo, “fugi” e voltei à liberdade. Estava liberto quando me encontrei com a Banda Black Rio. Chamei o Oberdan [n.e. Flautista e saxofonista, o maestro Oberdan Magalhães comandou a Banda Black Rio em três discos, Maria Fumaça, Gafieiras universal e Saci Pererê. A banda se desfez logo após sua morte, em 1984]. “É o seguinte: o disco já está em cima, é isso que eu quero.” Entramos no estúdio. Chamei o João Donato, que fez os arranjos também. Quem mais escreveu na época para mim? Perinho Santana.
Baixar: http://rapidshare.com/files/46498696/Lume-Mico.rar
