

O grupo francês Nouvelle Vague lançou há alguns dias seu terceiro disco (nem sei mais como chamar isso). A formula é a mesma dos outros registros: pitadas de bossa + vocais femininos fofinhos + hits dos anos 80. E não há mal nenhum nisso.
A boa notícia é que tem participações vocais interessantes dessa feita: Barry Adamson (ex-baixista do Magazine), Martin Gore (Depeche Mode) e Ian McColough (ex-,nunca se sabe se acabaram, Echo and Bunnymen), duetaram em músicas de seus respectivos grupos. Terry Hall (o ex-cantor dos Specials) participa de uma bela cover de Our Lips Are Sealed das Go-Go’s.
Ainda tem covers do Sex Pistos, Violent Femmes, Plastic Bertrand, Talking Heads, Police, Soft Cell, Simples Minds, Psychedelic Furs (ficou bonito Heaven), ufa!
A faixa escolhida para o dueto da menina de voz suave com o vocal surrado e alcoólico do Ian McColough foi All My Collours (Heaven Up Here 1981) um clássico do povo de preto dos anos 80. O disco se chama simplesmente 3, por ser o terceiro. A venda nas boas casas do ramo, como o ramo tá indo para a cucuia, tem para download (enquanto o AI-5 do Azeredo não vem).
ao vivo sem o Ian
O garoto Gabor Szabo gostava de ouvir a Radio America em Budapeste em meados da década de 50. As descobertas de uma cena musical variada o fascinava e na sua cabeça a mistura de vários sons, a canção americana, o jazz, o blues, e claro, a música húngara o inspiraram a tocar guitarra.
No final da década sua família sai da fria Budapeste e ganha a Califórnia ensolarada. A viagem e a mistura de referências na cabeça do rapaz explode em bons sons. Na guitarra de Szabo percebe-se a marca da música folclórica húngara, o improviso do jazz e, principalmente, seu ouvido aberto e nada preconceituoso. Cada vez mais envolvido com a cena jazzistica do West Coast, ele foi registrando discos onde a melodia e o swing ocupavam espaço privilegiado. Gravou com gente barra pesada: Chico Hamilton (baterista maravilhoso, ainda falo mais dele), Lena Horne, Gary MacFarland, Ron Carter, Paul Desmond, Charles Lloyd.
Alguns trechos de canções dele são usados em samples e são referencias de grooveiros e misturadores em geral. Szabo não tinha problemas em gravar sucessos da música pop como San Francisco Nights, Walk a Way Renee, Dear Prudence, Sunshine Superman, Breezin’ e neles injetar sua personalidade. Foram mais de vinte e cinco discos até a sua morte aos quarenta e seis anos quando visitava a terra natal em 1982. Vale a pena ouvir esse peculiar guitarrista.

O anuncio do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista traz discussões bem interessantes à ordem do dia. A quem prejudica? A grande imprensa (jornalões, revistões, etc) atravessa um momento de trevas e nítida apelação pela sobrevivência. Jornal e revista (na maioria) não seduz pela informação e credibilidade e sim, por engodos e orquestrações diversas. Tudo por grana e defesa de interesses privados.
E não venham com o lenga lenga de que sendo instituições privadas, os veículos têm que visar primeiro o lucro. Informação é algo que incide diretamente na vida das pessoas, nas tomadas de decisão do coletivo, logo, o caráter público deve ser colocado prioritariamente.
E são Eles (maíusculo mesmo), justamente os grandes interessados em acabar com a obrigação do diploma para jornalistas. Dá para defender em coro acrítico o que esses caras defendem? Em tese sim, na prática, nunca.
O problema é que o único jeito de garantir a liberdade da informação é fugindo do controle dos grandes grupos dos mass media. As matérias dos jornais estão cada vez mais parecidas com os editoriais, e isso nunca cheirou bem. Pluralidade? Onde?
O que nos resta? Refundar o jornalismo ou os veículos? Já foi sobejamente escrito, pisado e repisado das possibilidades que a web, principalmente no que ela tem de colaborativo, no seu potencial de produzir conhecimento, interação e difusão de idéias, da potencialidade de blogs, twiters, etc. Será que os próprios jornalistas (alguns já sacaram) olharão isso com outros olhos, sem preconceito e corporativismos?
O caminho do jornalismo esta em aberto, sem diploma ou com diploma, quem se aprimorar para escrever e se colocar nessa função profissionalmente continuará escrevendo, ou não? Claro o emprego, a renumeração, a profissionalização é muito importante, mas os veículos tradicionais irão se sustentar com esse formato ultrapassado? Pesadelo? É só olhar a indústria fonográfica, realidade.
Penso que esse ato do STF pode trazer uma discussão verdadeira sobre a relevância e o papel do mundo da informação e da sua produção no país. Ou vamos ficar no contra ou a favor e a discussão e os caminhos não sairão do raso. Gilmar Mendes não teve motivos bonitinhos para defender efusivamente através do voto, o fim dos diplomas. Tomara tenha sido mais um tiro no pé. Veremos.

O guitarrista, tecladista e compositor Jay Bennet, morreu no último domingo, na cidade onde nasceu, Urbana, Illinois . Em 1996 ele entrou no Wilco, que tinha na base de formação ex-membros do Uncle Tupelo, com o cantor Jeff Tweedy a frente. A união deu certo e rendeu quatro excelentes discos: Being There (1996), Mermaid Avenue com Billy Bragg (1998), Summerteeth (1999), e a despedida de Bennet da banda, Yankee Hotel Foxtrot (2002).
Logo após a sua saída do Wilco, por divergências com Tweedy, Jay gravou cinco discos, sendo o mais recente: Whatever Happened I Apologized (2008). Abaixo uma das músicas que mais gosto do Wilco “My Darling.
Mais um discípulo que o mestre Brian Wilson vê morrer. Boa viagem rapaz!

Gregory Corso nasceu no Lower East Side, New York, no olho do furacão da Grande Depressão, 1930. Aos 16 anos, julgado por roubo, pegaria três anos de cana e foi na cadeia que conheceu uma biblioteca e caiu na sanha da leitura. Sem perder a pegada das ruas, Gregory comporia junto com Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs, o eixo central da movimento beat.
Nos anos 80 as editoras Brasiliense e L&PM despejaram aqui no Brasil várias traduções dos escritores beat. Foi Gasoline & Lady Vestal, reunião dos dois primeiros livros de Gregory Corso, que me pegaram a veia de primeira. Li e reli esse pequeno livro (se não me engano o único de Corso traduzido até hoje nessas plagas), poesia das ruas, do jazz, da barra pesada, da cidade que dissolve, que se reconstrói, sem autocomiseração. Vibrante.
Gregory faleceu em 2001, entre as lembranças e epitetos, os haxixes no Marrocos, as noites de jazz de Nova Iorque, as estradas longas da América, as conversas com os outros beats em bares parisienses, um monte de verdades e tantas criações.
O NOVAIORQUINO
Ele está em Cambridge
E agora bate em minha porta
Ele é o cara de Nova York;
tem olhos enormes de neon
seu olhar despeja
jazz pelo meu chão
Mas ele estava mesmo lá?
Podia ser um rádio,
ou um órgão de fundo
ali alucinado.
Podia ser eu mesmo
me visitando em pleno jazz,
com receio de bater.
DE VISITA AO LUGAR DE NASCIMENTO
De pé na luz fraca da rua escura
olho para minha janela no alto foi lá que nasci.
As luzes estão ecesas; outras pessoas se movimentam ali.
Vestido com capa de chuva, cigarro na boca,
chapéu caído nos olhos, a mão na arma.
Atravesso a rua e entro no prédio.
As latas de lixo não pararam de cheirar mal.
Subo o primeiro lance de escadas: Lóbulos-Sujos
me ameaça com sua faca…
Eu lhe despejo uma torrente de relógios esquecidos.
NAS MINHAS MÃOS ESTA MINHA CIDADE
Nas mãos está minha cidade, minha lira
E em minhas mãos está a pira
E minha mãe ouve Corelli
enquanto minhas mãos estão em chamas
Poemas tirados do livro Gasoline & Lady Vestal, 1985, L&PM, traduções de Eduardo Bueno. Comprado em alguma tarde de andanças pelo centro de sampa, na livraria Brasiliense da Barão de Itapetininga.

As vezes eu me pego escrevendo sobre artistas injustiçados, esquecidos, mal compreendidos no seu tempo. Fico com raiva do meu texto. A conversa é sempre a mesma, uma pitadinha de autocomiseração ali, de ressentimento acolá, etc, etc. Santa ingenuidade!
O esquema é o seguinte: a injustiça, as idéias massificadas, a pasmaceira, as brodagens e bobagens da mídia, são parte do jogo, se este processo fosse algo perto do justo, o mundo seria um paraíso. As armações e falsos consensos são a tônica da industria cultural, o que consegue escapar e se estabelecer são excessões.
Então temos que deixar de ficar chorando sobre as tais “injustiças” derramadas (só falta tocar o violino no background) e analisar as coisas de maneira lúcida. O que é um pouco mais ousado, só escapa dessa cloaca, pela tática de guerrilha. O resto é conversa fiada, maneirismo. Não existe outro método: ou entra na briga ou já começa perdendo.
Marconi Notaro provavelmente poderia ser enquadrado como injustiçado, mal compreendido em sua época, marginal e blá, blá, blá … Poeta, compositor e agitador da cena cultural recifense dos anos 70, editou junto com Silvio Hansen, a revista A Gaveta, que nos seus dez números, publicou todo tipo de experimentos poéticos que pululavam na época. Os poemas de Notaro eram confeccionados, datilografados, copiados (geração xerox!?) e distribuídos nos bares e bocadas da cena recifense.
Além disso, partilhou com o pessoal do Ave Sangria, Lula Cortêz, Zé Ramalho (paraibano), Phetus, Flaviola e o Bando do Sol, Lailson e outros que, provavelmente vou omitir, de um momento muito criativo e inusitado da música brasileira. Psicodelia misturada com ritmos nordestinos foi o plano de vôo da rapaziada e Marconi participou a fundo dessa história.
Em 1973(data presumida), Marconi gravou pela lendária gravadora Rozenblit (que merece um post a parte) o disco Marconi Notaro no Sub-Reino dos Metazoários. Esse disco virou uma lenda muito falada e pouco ouvida, era citado por colecionadores, especialistas e chatos em geral. A capa é uma peça de piração visual confeccionada por Lula Cortêz.
Graças a internet, ao MP3 e a boa vontade de uns poucos, cópias rolam por ai para que se ouça essa peculiar amostra de um momento muito criativo e particular do rock brasileiro. Em 2007 o selo norte-americano Time-Lag Records http://www.time-lagrecords.com/index.php lançou em cd, e posteriormente em vinil, uma segunda edição do registro.
Poesia bacana, desbunde setentista, psicodelismo e experimentos sonoros dão o tom do LP. Fidelidade é um exemplo disso, um frevo para lá de acidulado:
Permaneço fiel às minhas origens
Filho de Deus
Sobrinho de Satã
Permaneço fiel às minhas origens
O meu ontem é hoje
Meu futuro é amanhã
…
Permaneço fiel às minhas orgias
Filhos da terra, amante do ser
Permaneço fiel a minha euforia
Se dois e dois são cinco
Você deve saber
na parceria de Notaro com Zé Ramalho, que traz a guitarra hendrixiana de Robertinho do Recife, Made in PB:
Quando eu vim aqui
Senti uma vontade chorada
Danada de me chegar
Demonstrei o som
Numa sincopada chorada
Danada de executar
Todo mundo ouviu um rock pesado, chorado, danado
Made in PB
Parece um forró
Mas eu lhe afirmo, ciente, descrente do meu amor
Que ele é curtição de couro de bode
Quem pode sacode tudo no chão
Quem ainda não curtiu o rock sem bode
Quem pode se explode
Made in PB
ou no samba desconstruído , e isso não era embromação na época, Desmantelado:
Desmantelado
é o homem do bilhar
Desmantelado
quando pega no taco
faz a bola sambar
…
Aproveitar a vida
Nunca ficar parado
Se o taco fosse caneta
Desmantelado
era um homem formado
A bolacha é recheada pela participação de Zé Ramalho, Lula Cortêz, Robertinho do Recife, e apesar da gravação de qualidade irregular, é uma mostra da criatividade da rapaziada. Marconi faleceu nos anos 90, deixou dois livros editados e esse disco como legado, sempre fiel às suas origens, orgias e euforias.

Confesso para vocês que escrever esse post foi dificil para mim. Desde moleque eu fui daqueles caras que procuravam na música, algo mais que o prazer de só ouvir. Gostava (gosto) de conhecer músicas e histórias diferentes, de descobrir coisas, bandas, artistas obscuros. Quando você é mais novo isso se torna até uma maneira de afirmação, de destaque, de tentar fugir do óbvio, de se destacar na multidão de incógnitos. É ilusão, mas diverte.
Tudo isso para falar que hoje, apesar de uma vida de resistência, eu confesso que admiro um músico, que nem de longe, precisa de qualquer concessão da minha admiração para ser o que é pra tantas pessoas: Raul Seixas. Eu pouco ouço Raul, mas durante a vida, direta ou indiretamente, já ouvi todos os discos do baiano. Não há como ignorá-lo.
Em algum momento explodiu na cabeça do jovem Raul Seixas o impacto do rock and roll, e ele transformou isso na sua vida, como músico, como produtor, como artista. O fato é que ele jamais esqueceu que morava no Brasil, e nunca deixou de ser um músico e artista extremamente urbano e antenado. Em sua música tem ecos do brega, do forró, baião e da música, de fato, popular. Raul Seixas nunca fez força ou marketing para penetrar no imaginário do povo. Ele realmente tava lá, rs. Essa falta de limites, fez com ele adiantasse várias misturas, que de forma equivocada, foram anunciadas e incensadas como pioneiras, muito depois do cara tê-las feito.
O misticismo, a comicidade, o lado até gaiato por vezes, a rebeldia (de fato), colocam Raul Seixas em um lugar muito específico da historia do rock brasileiro. O fanatismo de seus seguidores, chega a irritar, muitos levam ao extremo algumas coisas que o raulzito dizia apenas para confundir. Mas é diferente com outros ídolos da música?
Eu trabalho em biblioteca pública. Nas idas e vindas de projetos de leitura, tenho oportunidade de conhecer muita gente de perfis completamente diferentes, dificilmente alguém ignora a obra do baiano. Sempre há uma citação de uma canção que seja, e de gente muito diferente entre si. Você entra em boteco e lá está um fulano curtindo uma fossa com A Maçã, se um guri ouve Plunct, Plact Zum, já se identifica de pronto, os místicos com Gita … e por aí vai. Gostemos ou não!
Que bacana poder falar isso, aos quarenta e dois anos, e me redimir de tanta bobagem que disse por aí a respeito desse artista realmente popular. Viveu e morreu de excessos, e deixou uma obra respeitável. Valeu, Raul dos Santos Seixas, eu também sempre fui muito reclamão.
Toca, Raul!
Alguns artíficies do que se pode chamar moderna música popular brasileira são incansavelmente propagandeados por todas as mídias. Não acho que isso sobrevalorize ou mesmo desvalorize alguém, mas vulgariza discussões mais complexas.
A necessidade de hierarquizar nomes e importâncias, faz com que sutilezas passem despercebidas e alguns autores sejam constantemente esquecidos pela falta de rótulo para serem enquadrados.
Fala- se bastante da era de ouro da música brasileira (décadas de 30 e 40 do século passado), mas é bem raro entrar-se em pormenores. Um exemplo desses “esquecidos” é o carioca Custódio de Mesquita Pinheiro.
De família rica e boa pinta, nascido e criado nas Laranjeiras, Mesquita se notabilizou por suas canções em parcerias com: Mario Lago, Evaldo Rui, Hervê Cordovil, Noel Rosa… e pelo esmero e sofisticação com que tocava piano e bateria. Sua vida, pelo fato de sua extrema discrição, é recheada de histórias obscuras e teses controversas. Boêmio e relaxado nos estudos, achou na música guarida e campo fertil para exercitar seu talento.
Formou-se regente pelo Instituto Nacional de Música, mas antes disso ja se notabilizara por compor sambas, fox e marchinhas , e nunca deixou de andar com sambistas e com o pessoal de teatro (foi vice-presidente e fundador da SBAT) que à época representavam o supra sumo das más companhias.
Esse transito entre o popular e o erudito, deu-lhe munição para misturar harmônias sofisticadas com letras populares e ritmos diversos. Sutilmente, era dado um grande passo na música brasileira. Sem maiores delongas, suas canções provam isso. É so ouví-las.
Compôs musicas que ficaram bem conhecidas como Nada Além, em parceria com Mario Lago (na voz de Orlando Silva):
Nada além
Nada além de uma ilusão
Chega bem
Que é demais para o meu coração
Acreditando
Em tudo que o amor mentindo sempre diz
Mulher com Sady Cabral, que seria gravada, nos anos 70, por Nara Leão:

Lendo a coluna do Pedro Alexandre Sanches, essa semana na Carta Capital, fiquei sabendo do disco War Child Heroes, onde graúdos como Dylan, Brian Wilson, Kinks, Blondie, Paul McCartney escolhem pares mais novos para gravar versões de suas canções. A intenção é arrecadar grana para a ONG War Child, que cuida de vítimas em guerras pelo mundo afora. Os fabricantes de armas, talvez, tenham ações dos grandes conglomerados do show bizz internacional. A velha lei do morde e assopra, do cobertor curto e molhado …
Sem dúvida essa versão de Heroes do Bowie pelo TV On The Radio, entra na conta das boas coisas. No final das contas, além de todas as intenções, o que sobra é a música: