Ontem aconteceu um ato de apoio à candidatura de Lula na Casa de Portugal em São Paulo. O apoio ao direito de Lula se candidatar transcende à eleição, ultrapassa a torcida do contra ou à favor de Lula eleito, é um apoio ao estado de direito. O jornalista Pedro Alexandre Sanches estava cobrindo o evento e entrevistou um dos apoiadores do ato, o cantor e compositor Odair José. O goiano está na estrada desde o final dos anos 60 compondo, cantando e tocando em todo canto do Brasil. Sua obra foi fortemente influenciada pela jovem guarda, pelo rock e por nosso cancioneiro romântico. As letras são crônicas de um Brasil popular, sem filtros e maneirismos. Odair é um cara do campo popular e estava confortável no lugar que conhece e de onde nunca saiu, é o paio natural.

Tenho duas histórias pessoais que envolvem a música e o artista Odair José.

A primeira, aconteceu nos anos 70 (provavelmente 1975, 1976). Eu morava numa rua com poucas casas em que aos poucos foram sendo construídas sobrados e pequenos prédios. Moleque que brincava na rua, circulava e fazia amizade com os trabalhadores da construção civil. Migrantes nordestinos, solitários, que viviam longe da família e que tinham na música a companheira e confidente que suavizava a distância e a ausência dos afetos. A música popular acompanhava esses trabalhadores nos rádios de pilha e nas vitrolas portáteis, a rua ficava muito musical. Entre eles tinha o Cícero, um paraibano simpático, que jogava bola com a molecada nas horas de folga e vivia cantando. Cicero vivia andando com discos embaixo do braço. Compactos e elepês. Eu era um moleque chato que balizava o mundo em dois universos: a música e o futebol. Nada me encantava mais do que uma coleção de discos, um universo que revelava as predileções e a história das pessoas.

Um dia, o Cícero me mostrou a sua valiosa coleção, bem cuidada e muito ouvida. Estavam lá, que me lembre, Fernando Mendes, Paulo Sergio, Evaldo Braga e em maior quantidade, Odair José. Cícero falou um pouco das musicas que mais gostava, mas se deteve em Odair como um parceiro de suas andanças por vários locais do Brasil. Trilha sonora dos prédios e sobrados que construiu. A velha saga do artista popular que ajudava a tornar a vida daquele trabalhador menos dura e solitária. Cícero e Odair conheciam o país como ninguém. Um era famoso e outro anônimo, mas de alguma forma dialogavam dentro da linguagem simples e real das ruas. Um frase ficou na memória:

– Ele conta a minha história…

O prédio em que Cícero trabalhava, ficou pronto e ele sumiu na vida. Foi construir outro pedacinho do Brasil. Deixou pra mim um aprendizado simples e vital: a música nos ajuda a entender o que somos e em alguns momentos é o diálogo possível dentro da nossa solidão.

A outra história é mais recente. Um amigo, músico experimentado, me contou que participou da gravação de um disco com o Odair José. Confessou que pouco o conhecia e que nutria algum preconceito pela música excessivamente simples que ele fazia. No dia que começaram as gravações ele foi ao estúdio um pouco entediado prevendo mais um trabalho sacal. Logo que iniciou a sessão vieram a surpresa e a constatação de sua ignorância. Nas palavras desse amigo músico, Odair é o que eles chamam de mestrão, o cara que sabe tudo o que quer e precisa para fazer sua música, que não vacila, conduz a gravação com firmeza e objetividade. Forjado em milhares de horas de shows e gravações, sabe muito bem qual será o próximo passo. Um trabalhador da música, que não precisa de guia e manuais para seguir seu caminho, o artista popular. Segundo esse amigo, a gravação fluiu com muita curtição, entre a simpatia e as composições simples de Odair José, que mudaram totalmente de sentido para ele depois dessa experiencia.

Falei de Lula e contei essas duas histórias, porque no final da entrevista com Pedro Alexandre, Odair disse que confia em Lula, porque como ele, o Presidente veio das ruas. Uma frase emblemática e desafiadora para todos que apoiam o campo popular. A esperança de mudança vem das ruas, foi exatamente esse recado que o compositor goiano, com quase cinquenta anos de estrada, deixou pra nós. Simples e direto, o Odair. Foi assim que ele ajudou a construir um pouco da história de nosso país e felizmente não desistiu.

Nos anos 70, Odair vendeu milhões de discos e ganhou o Brasil, o tempo passou e gostar de Odair José ficou chique e cult em mais uma dessas ressignificações da indústria. O fato é que ele continuou onde sempre esteve, na estrada, nas ruas cantando a vida das pessoas, íntegro e popular.

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O artigo de William Waack na Folha é uma prova inexorável de sua canalhice militante, sempre a serviço de um projeto ideológico.

Para se defender sua ofensa racista flagrada, lança mão do auxílio luxuoso do pensador Pondé e das sua amizade interracial com Glória Maria.

É uma fraude que explicita suas verdadeiras razões e motivos.

O alvo do ilibado jornalista são “os grupos organizados das redes sociais” que querem atingir e destruir aquilo que ele denomina guardiões da verdade, leia-se os grandes conglomerados midiáticos que ele defende como militante pago há anos.

As poderosas redes são ameaçadas pela turba internética? Isso só pode vir de um raciocínio desonesto e servil. É a defesa da via de mão única dos capos midiáticos, sem contrapontos e questionamentos

Sua defesa é uma empulhação explícita e não perde viagem ao embutir uma mensagem direta de que é preciso conter o descalabro das redes sociais. Para se defender da pecha racista (comprovada por um fato verdadeiro) defende a censura. É o opressor defendendo o direito de oprimir ainda mais.

Há cerca de dois anos eu defendia a ideia de que Lula não deveria ser candidato à Presidência. No meu raciocínio, um tanto ingênuo e ainda ignorante dos desdobramentos que resultariam no golpe, Lula deveria abrir caminho para outro nome e a esquerda tomar outro rumo.

Veio o golpe lastreado no punitivismo, na seletividade e no ativismo do judiciário como braço de destruição da soberania e dos direitos sociais. Mais do que impedir Lula de ser candidato, o ataque do neoliberalismo tem como objetivo central obstruir e destruir simbolicamente qualquer reação do campo popular.

A maior força do campo popular com condições efetivas de reagir, ainda que muito limitada pelas próprias características e pela conjuntura adversa, chama-se Lula da Silva, a ruptura institucional e a sequência de medidas autoritárias empurraram a esquerda para um beco sem saída.

Lula deve ser candidato por dois motivos centrais: por ter esse direito, que não é meritório, mas constitucional e por ser no

contexto a alternativa mais viável do campo progressista. O impedimento ou não de Lula nos dará a medida do autoritarismo impetrado pelo golpe e da capacidade de reação da esquerda.

Por outro lado, Lula impedido ou não, há que se pensar no mundo pós Lula, na construção de um caminho que deveria ter sido priorizado há muito tempo e que implica na revisão das escolhas passadas, na análise mais atilada de conjuntura e na abertura de novas formas e frentes de luta e enfrentamento com o capital.

Mudei a convicção que tinha há dois anos, nesse momento eleição sem Lula deixou de ser opção, é fraude, Lula deve ser candidato, não há espaço para vacilos, enfrentamentos autofágico e revisionismos extemporâneos, até para que possamos vislumbrar melhor e com mais consistência o pós Lula.

O Wallyson e o Weslei veem nas férias na Biblioteca Pública. São sorridentes, piadistas e falantes.

A mãe Cristina:

– O Wallyson joga futebol muito bem, por isso recebeu bolsa escolar de uma empresa da região, o Wesley gosta de ler como eu.

– As vezes conto histórias pro Wallyson, é divertido ler em voz alta – disse o Wesley.

A mãe joga bola com os dois, joga no gol pra treinar os chutes dos meninos. Eles compõem um trio bonito, alegre, expansivo, ao mesmo tempo delicado e lírico.

Levaram livros, dvds e revistas, deixaram simpatia e alegria. As trocas que só podem acontecer em espaços públicos.

Todo mundo pensa que a biblioteca pública fica vazia nas férias, mas vem gente, vem gente muito viva contar suas histórias, seus arranjos de família, seu jeito de driblar e ler as coisas da vida.

Nota: antes que alguém venha questionar, eu pedi autorização para a mãe para divulgar as fotos e os nomes dos meninos e da própria mãe que são verdadeiros e reais.

Não gosto dos termos herói e gênio. Eles servem para dissociar o sujeito de sua luta, inventar poderes e soluções mágicas para as batalhas da vida. As dificuldades, as condições precárias, as marcas da desigualdade ficam submersas numa fumaça mística embromadora e meritocrática, o registro da trajetória se resume aos brilhos, as sombras são ocultadas.

Ismael Silva não foi herói, nem gênio, mas construiu umas das obras mais singulares e criativas da música brasileira.

Filho de cozinheiro e lavadeira, foi de Niterói para o Morro do Estácio ainda menino. Em 1928 ajudou a criar primeira escola de samba da história (Deixa Falar). Compôs sambas maravilhosos desde os 15 anos, vendeu sambas e parcerias para sobreviver como todo compositor negro, proletário dos anos 20/30/40.

Na luta da vida, trabalhou em vários subempregos, bicos e foi funcionário público, nunca sobreviveu com os sambas que fez. Foi preso numa briga na noite que terminou em tiro e tentativa de assassinato, cumpriu pena, se isolou, viveu recluso, desempregado, esquecido, um hiato amargo de sua vida, que lhe custou muito ressentimento e dor. Ismael era homossexual, preservou isso num triste e doloroso segredo. Foi um valente na vida e sua obra foi composta nesse contexto de conturbação e precariedade.

Ismael foi um negro, pobre, homossexual, das classes subalternas, passou a vida em subempregos e compôs sambas lindos que carregam toda essa bagagem com muita sensibilidade e percepção, um dos grandes da música brasileira.

Nunca vou esquecer o meu canal preferido de ligação com o futebol.

Com ele pude imaginar os jogos, jogadas, vitórias, derrotas, dramas e alegrias. Construir as jornadas com as cores que inventava e preferia.

Meados dos anos 70, o presente mais certeiro da minha Tia Mirtes, compacto, prático e querido.

Com ele ouvi gols do Eneas,Tatá, Roberto Dinamite, Reinaldo, Geraldão, Pedro Rocha, Cesar Maluco, Ailton Lira. Imaginei estádios cheios, vazios, Canindé, Pacaembu, Morumbi, Maracanã, Fonte Nova, Mineirão, Beira Rio, Javari, Brinco de Ouro da Princesa.

Os enredos dos narradores, a retórica dos comentaristas, as prosódias dos repórteres de campo.

Ouvir o jogo no radinho de pilha. Um ritual solitário povoado. Um jeito de ser único na multidão.

Nunca vou esquecer os sons, os chiados e os silêncios do meu Evadin.

Todos os dias eu fotografo capas dos livros e publico aqui no facebook, para divulgar o acervo da Biblioteca em que trabalho.

É uma espécie de manifesto silencioso em defesa da biblioteca publica, que muitos dizem não ter acervo, mas sequer visitam suas estantes pra conferir as ausências e presenças. As fotos provam que os acervos existem e devem ser explorados.

É simples militância bibliográfica.

Hoje, como sempre, seguindo a intuição, mergulhei na estante e pesquei um livro de uma fundamental professora, pesquisadora, critica e escritora, que introduziu os estudos de literatura infanto juvenil em nossas universidades, além de ter feito um pioneiro trabalho sobre a literatura feminina no Brasil.

Trata-se de Nelly Novaes Coelho.

Há pouco fiquei sabendo que Nelly faleceu na tarde de hoje. Gostaria de ter postado essa imagem bem antes, no momento eu nem sabia que ela havia falecido, mas fica a justa homenagem, o agradecimento e o adeus a alguém tão importante para a leitura, os livros e todas as razões e emoções envolvidas.

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