Tio Manuel é o irmão caçula da minha mãe. O último que casou, o ponta direita habilidoso do Estrela FC da Vila Euclides.

O metalúrgico que estava em 1978, no Estadio Primeiro de Maio, no histórico discurso do Lula.

No início dos anos 70, Mané casou com a Nena e foi morar no fundos da nossa lá na Avenida Kennedy.

Casal jovem e bonito. Nena era filha da dona Josefa e do seo Pedro, moradores da Avenida Nações Unidas, perto do Largo Santa Adelaide, onde minha avó morava. A Nena era trabalhadora da indústria de lanificio, no famoso cobertores Tognato.

Eu era um molecote de 5 anos e a Nena, que ainda não tinha filhos, me adotou como segunda mãe.

Eu gostava de ir nos finais de tarde na casa do jovem casal, lá eu fazia a primeira janta, me refestelava com os belos dotes de cozinheira da tia carinhosa, ia pra casa e jantava de novo. Um gordinho renitente.

Foi muito bom esse ambiente de amor em dobro na infância.

Durou o que durou. Logo, a tia teve a Fernanda, a Flávia e o Vladimir, os filhos que criou com aquele carinho que conheci.

A nossa ligação transpassou os anos e algumas vezes eu ri junto com a tia lembrando da história dos jantares duplos.

Minha tia Nena faleceu essa madrugada, é triste como essas partidas são. A memória, o afeto e o gosto daqueles jantares, ninguém me rouba.

Pete Shelley e Howard Devoto, foram a Londres em junho de 1976 ver um show do Sex Pistols que mudou suas vidas.

Dois meses depois organizaram um show dos Pistols, no Lesser Free Trade Hall, na sua cidade natal, Manchester. Na platéia, além dos dois que futuramente formariam os Buzzcocks, estavam Peter Hook e Bernard Summer que formariam o Joy Division e New Order, Mark Smith, o cantor e compositor do The Fall e Patrick Morrisey alma e voz do The Smiths.

A noite que influenciou gerações.

Howard Devoto saiu dos Buzzcocks para formar o Magazine, e Shelley seguiu com a banda que deu forma e lirismo para o punk inglês.

Buzzcocks encarnou a paixão adolescente e a iconoclastia punk, com suas melodias fáceis e letras acridoces. Shelley foi uma referência de gerações diferentes do punk rock, sendo uma influência de outras bandas dos anos 70 e 80, e na sequência, no chamado revival punk melódico dos anos 90.

Em 1995, tive a felicidade de vê-los ao vivo no finado Aeroanta, no Largo da Batata. Aos 29 anos pulei feito adolescente, dançando e cantando Fast Cars, Autonomy, What Do I Get?, ‘Ever Fallen in Love, Noise Annoys, Everybody’s Happy Nowadays” e outras. Emoção inesquecível.

Pete Shelley, 63 anos, faleceu esta tarde, vítima de ataque cardíaco. Morava na Estonia com sua esposa. Foi um dos ídolos da minha adolescência e até hoje suas músicas me emocionam e me fazem lembrar da esperança e dos desejos de transformação que os hormônios e a juventude nos empresta.

Old Punks Never Dies.

Valeu Mestrão!!

Quando participei da elaboração do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca, os segmentos que mais apresentaram resistência de participar do processo foi o das editoras e entidades representativas do livro.

A Liga Brasileira de Editores (Libre), através do então presidente, Haroldo Ceravolo, foi a única entidade do livro como negócio que participou ativamente da confecção do documento e dos movimentos que o viabilizaram.

O PMLLLB de São Paulo foi aprovado, sancionado pelo prefeito Haddad e transformado na lei 16.333 no ano de 2015. Depois disso foi esquecido e logo depois empastelado pelo combo Doria/Sturm.

As entidades representativas e editoras do negócio livro, sobretudo as mais poderosas, que desde sempre exerceram forte pressão no seio do Estado, se ausentaram tanto na elaboração do PMLLLB como no seu sepultamento.

Não há livro, nem mercado, nem formação de leitores (não necessariamente nessa ordem) sem uma política do livro e leitura. Essa máxima foi dita, reafirmada e repisada em vários segmentos da produção (de conteúdo e fabril) e da militância e foi sonoramente ignorada por um mercado que só enxergava o Estado como a estrada de escoamento de sua produção.

Nesse momento, no qual as trevas chegam acompanhadas do ultraliberalismo, o mercado do livro reclama união sem ter feito a lição de casa. A política é também a arte de negociar desequilíbrios, o que fazer quando a política foi reduzida historicamente a um jogo de interesses imediatista e mercantil?

É nesse sentido que vejo os lamento de schwarcz e herz da vida (coloco genericamente por serem referencias ruidosas), com muitas ressalvas. Digo isso não por desprezo às editoras e livrarias e suas histórias, a critica se dirige ao pensamento imediatista e despolitizante que emitiu em diversos momentos da historia recente sinais de inviabilidade, insustentabilidade e de tragédia anunciada.

A conta veio.

Seria preciso antes de declarar amor aos livros, dar atenção e carinho à política do livro e leitura, tão tripudiada e desprezada em um momento histórico recente. Foi perdida uma grande oportunidade de somar os esforços e poder de pressão dos vários segmentos, o que representaria maior capacidade de luta nesse momento de grande adversidade política e econômica.

Para repensar o passado recente e o possível futuro.

Na última sexta feira, uma chuva forte provocou inundação na biblioteca em que trabalho. A água tomou a maior parte do salão principal, mas não chegou a comprometer o acervo, porém um rio de águas turvas circundava as estantes e seus afluentes corriam entre as cadeiras e as mesas

Eram 20:30 e estávamos puxando água com os rodos disponíveis e o resto de disposição que restara de um dia cansativo.

Cerca de dez pessoas aguardavam dentro da biblioteca a chuva parar e a agua abaixar nas ruas do centro totalmente inundadas.

Tínhamos poucos rodos e alguns desses remanescentes ofereceram ajuda para puxar a água e expulsar o rio intruso do salão.

Dois deles se juntaram a nós.

O Adriano é um velho conhecido da biblioteca, leitor de quadrinhos e jogador de rpg, frequenta o espaço desde a adolescência, final da década de 1990. Nesse interim formou-se em direito, e hoje em dia usa o espaço para estudar para concursos e preparar seus trabalhos advocatícios .

Fabio, é um rapaz que começou a frequentar a biblioteca esse ano, morador de rua, usa o espaço como a casa que lhe é possível, navega na internet, eventualmente lê algum livro, carismático e simpático, ganhou a simpatia dos funcionários. Tem uma história de vida dramática, mas sorri e brinca o tempo, como quem dribla os maus pensamentos.

A agua foi baixando fora e dentro da biblioteca, a intempérie criou uma cumplicidade característica dos momentos de solidariedade e ação conjunta. A Elaine, companheira de trabalho, pediu umas pizzas, todos nós comemos e comemoramos.

Naquele momento nenhum de nós era funcionário ou usuário, éramos tão somente pessoas que partilhavam uma alegria, um momento compartilhado que só é possível num espaço público, num ambiente aberto e democrático.

Fim da noite, todo mundo cansado e um pouco feliz. Ir para casa, tomar banho, tomar algo quente, descansar na cama e refazer nos pensamentos, antes do sono vir, o resumo do dia.

E o Fábio? As ruas barrentas e ainda úmidas ainda refletiam o castigo das águas, e são essas ruas que acolhem o Fábio e seu cansaço todo dia. As ruas são duras e implacáveis quando secas, que dirá após uma enchente que subtrai o seu mínimo de organização.

Coincidentemente, na quinta feira, eu perguntei para o Fabio se ele ficava sozinho nas ruas ou compartilhava algum espaço com outras pessoas. Ele respondeu que preferia ficar sozinho para não se meter em confusão alheia. Está há nove anos nas ruas, conhece os perfis e usa a solidão como proteção.

O meu pensamento piedoso não muda um milimetro da precariedade em que o Fábio vive, talvez sirva, no máximo, para que eu elabore o que devo desejar para que isso mude.

Fico então, para o conforto dos meus pensamentos, com a lembrança do sorriso e das piadas do Fabio comendo pizza conosco. Naquele breve momento, a solidão deixou de ser uma opção de sobrevivência.

Sou persistente com o Centro. Nos retalhos da minha vida, a Rua 24 de Maio no sábado à tarde é uma constante. Muitas vezes crua e triste, outras vezes uma alegria recheada de expectativas.

– É uma mensagem para o senhor falar com Deus.

O jovem evangélico, rosto castigado de vida curta e intensa, me entrega um papel cinzento com letras e foto daquele Jesus europeu que se vende por ai. É coisa da gente que fica por ali tentando mudar a vida.

Camelôs brasileiros e africanos disputam os nacos de chão pra vender chineses, a própria arte, o que está ao alcance e nem sempre é permitido. De repente, tudo fica vazio porque chove, somem todos em sombra.

A 24 de Maio é essa companheira que afirmo pra logo renegar em todos os sábados dos retalhos dessa vida. Ela não me dá conversa, quando muito fornece sussurros, confidencia caminhos e engana quando o engano não é opção, mas caminho único.

A 24 de Maio no sábado à tarde é o centro encerrando a semana, se despedindo. Quem fica, vive a rua na hora que ela é escura, não se importa com expedientes, não encerra a semana, a semana é uma longa continuidade pra quem fica.

O meu sábado à tarde na 24 de maio é também uma interrupção é um fim para que seja fim de semana, é o ápice do rolê no centro, é a solidão da procura por si mesmo. Depois recomeça tudo de novo.

A chuva molhou a rua 24 de maio nesse sábado à tarde. A despedida foi com olhar de esgueiro. As pessoas eram sombra, o chão úmido espantou o comércio. O tom triste do fim de tarde não desola porque já foi muitas vezes assim.

Eu sempre volto.

O Museu do Aljube é um orgulho lisboeta. Sim, Portugal não esconde sua história, nem encobre as chagas vivas do salazarismo. O povo é quem mais ordena…mesmo que haja quem não queira.

As vítimas do Estado Novo, as vozes que foram à morte ou ao calabouço ainda ecoam pela Baixa, Mouraria, Alfama e no mais longe pelo Minho, Alentejo, Ribantejo, Algarves e todo lugar dessa terra.

Não tem forra feita, nem justiça completa, a luta de quem disse não, vence permanentemente pela memória e por essa outra luta contínua de não silenciar.

Da Ditadura à Revolução dos Cravos, não esquecendo do crivo fundamental das lutas anticoloniais (Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Goa, Timor livres), perfila a honrosa trajetória de quem se alinhou ao lado dos trabalhadores e da liberdade.

Emoção grande de de ir Rua de Augusto Rosa na velha Mouraria, sede da polícia política do ditador Salazar outrora, hoje o Museu da Resistência e Liberdade.

Não existe triunfalismo que deva nos cegar. Maduro (Venezuela)e Ortega (Nicaragua)não conseguem governar, Rafael Correa (Equador) foi processado, perseguido e traído por Lenin Moreno, Cristina Kirchner (Argentina)processada, Lula (Brasil) preso e apartado dos seus direitos políticos.

O campo nacional popular está sob o estado de exceção na America Latina. A subversão das regras e o desrespeito aos preceitos constitucionais dos países citados são a força motriz do poder econômico.

Personagens obscuros como Barroso do STF, General Mourão são empoderados com um único intuito de abrir as portas e liberar as comportas do país para o ultraliberalismo.

A mistura de ultraliberalismo com fascismo, que tomou de assalto o debate político e cultural, não é fruto de ignorância e distorção de seus agentes (os intencionais e os involuntários), mas é parte importante da estratégia de dominação do capital.

Para além do debate eleitoral, os rumos do país devem ser vistos sobre esse prisma, como bem assinalou Walter Benjamin:

“A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um novo conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar o verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo.”

Não há tempo, nem gordura democrática para queimar. Desde 2008, o capital avança sobre a democracia e procura de todas as maneiras esvaziar qualquer possibilidade de soberania e escolha do campo popular. Não há como separar a eleição Brasil/2018 dessa lógica e se iludir com seu resultado imediato.

É preciso vislumbrar as possibilidades reais de resistência e organização e levar em consideração todos os recursos possíveis: cabe sim pensar na eleição de uma bancada à esquerda, mas sem esquecer o fomento e o respeito às organização locais e temáticas da luta contra hegemônica, o reforço dos laços ainda existentes com os liberais democratas, o retorno do conceito de solidariedade como balizador da luta contra o fascismo e a fundamental organização dos trabalhadores.

Não é uma luta para acabar em novembro de 2018 ou janeiro de 2019, na qual nomes, números e legendas se encerram. Estamos apenas começando.

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