O que era o par da igreja, virou imagem ausente, virou vidas espalhadas na praça e pelo mundo.

O que era o rude lugar da acolhida de pessoas, o teto, virou foto antiga.

O que era a referência pixada de histórias da polícia, da ocupação, do abandono e dos abandonados do Estado, hoje é mais um hiato no centro do centro dessa cidade São Paulo.

O Largo tá lá, o Ponto Chic ta lá, a feira do rolo tá lá, a vida de quem vem e de quem vai tá lá, tudo no entorno segue como sempre.

Mas há um vazio na foto…

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O rapaz fica diariamente perto do Extra da General Olímpio, Barra Funda. Ele não aborda ninguém, não pede grana. Sorri e fala sozinho às vezes, responde simpático às saudações de bom dia, boa noite, etc.

Um pouco mais cedo eu tava passando no Viaduto Pacaembu e vi um espectro lá embaixo, na beira da Avenida, alguém fazendo abdominal sobre uma caixa de papelão. Fiquei curioso e pude ver de longe que conhecia.

A noite já estava velha na Barra Funda, vi Fernando de novo no mesmo lugar e perguntei:

– Há quanto tempo você está na rua?

Ele sorriu e respondeu:

– Eu nasci na rua, moço, não sei o que é outra vida…

– Ontem eu te fotografei de longe fazendo abdominal pertinho da avenida, posso colocar a foto e um pedacinho da sua história?

– Faço exercício sempre que posso, o corpo dói menos. Durmo no chão, ando muito por aí…

Continua:

– Já tenho idade, estou com trinta e seis anos, tenho que me cuidar. Pode colocar sim, é bom pra esses jovens preguiçosos aprenderem que a gente não pode parar….

A vida de Fernando não para. Já entra outra noite na General Olímpio e as histórias do lugar também não param.

O assunto é a esquerda na eleição 2018. Eu tenho lido tanta insanidade, que confesso um certo receio de escrever esse post.

Vamos lá. Em primeiro lugar dois pressupostos:

1 – eu creio que haverá eleições 2018;

2 – desde que esteja na opções da cabine, meu voto é Lula sem nenhum vacilo.

Então, Ciros, Boulos e Manoela têm todo o

o direito de lançar candidatura e de adotar um comportamento de campanha eleitoral. São candidatos devem agir como tal.

O PT apostou na postura correta de insistir na candidatura Lula até o limite do possível. A tônica é: não há plano B no campo visível e na luz do dia. Ótimo. Porém, PDT, PC do B, PSOL não são obrigados e nem devem esperar o resultado da confirmação ou não da candidatura Lula para fazerem política e conversas, inclusive subirem em palanques.

União da esquerda, não implica em renuncia de nenhuma das partes.

A esquerda não pode conversar com o centro e o centro direita? Lembrem-se que um importante Ministro do Governo Lula foi Henrique Meirelles, um dos faróis do neoliberalismo em terra brasilis. O contexto era outro? Era. Meirelles de hoje é pior do que o Meirelles de ontem? Não, Meirelles é o Meirelles. E isso é da política.

Não conversamos e não pactuamos com golpistas? Ok. Se formos levar isso a ferro e fogo, romperemos com o MP, a PF, o STF, o setor financeiro (que aliás rompeu conosco há tempos), todos tão golpistas quanto os grupos políticos formais e seguiremos uma trilha de rupturas até chegarmos a insurgência popular. É esse caminho?

Eu acredito que a pureza da resposta das crianças da esquerda Gonzaguinha, serve pra muito pouco ou quase nada nesse momento. Serve sim, para disputa de ego, troca de socos e pontapés entre setores muito enfraquecidos na conjuntura e para produzir bravatas, muitas bravatas.

Nesse momento, as ponderações superam as máximas, esperar é preciso.

O arroz é soltinho, frango cozido e assado na forma. Simples. Jantar na mãe.

E as histórias que eles contam…

O pai do meu pai, Julio do Couto Pinheiro, alfaiate, músico amador, saxofonista da banda de Ibiaí. Meu pai hoje lembrou das leituras do seu pai:

– Gostava de Alexandre Dumas e Érico Veríssimo e não ligava pra deus, os parentes reclamavam, porque eram muito carolas…mas ele só queria saber dos seus escritores preferidos.

A minha mãe lembrou das refeições coletivas com os irmãos numa gamela de madeira:

– Era uma gamela de madeira grande, cheia de feijão, arroz, farinha e carne, uma colher pra cada um…Antonio fazia uma risquinha e ninguém avançava no pedaço dele…

O ateísmo desafiador do meu avô que nasceu em Januária, mas foi criado em Coração de Jesus, terra onde deus não faltava e a refeição coletiva e afetiva da minha mãe e os irmãos na gamela, são parte da minha história.

Conheço o centro de SP. Carrego o orgulho meio jeca, provinciano de saber me movimentar pelo centrão desde a época de moleque. Garimpar os sebos de discos e livros, tomar mate com leite, conhecer as ruas, os tipos, o frugal e a barra pesada.

Com o tempo esse orgulho foi somando outro orgulho: a maioria das pessoas despreza, tem medo ou nutre aquele saudosismo improdutivo do centro de SP. Quem anda de carro sobe o vidro e ignora o entorno, quem é obrigado a passar eventualmente, o faz como se tivesse enfrentando um martírio. Daí, o orgulho de andar a pé por esses quadriláteros, no meio do povo esquecido, orgulho de classe.

Medo produz medo, medo promove abandono e o centro é um dos produtos da cultura do medo. É a fatia da cidade que todo mundo acha lindo pelos nichos de arquitetura europeizada, mas foge da gente cinza que nele anda e do cheiro de urina das suas ruas.

Ontem eu recebi a visita do meu sobrinho Ruben e da sua companheira, que moram em Belo Horizonte. Eles me pegaram na Barra Funda e fomos almoçar no Centro. Queriam “comida de verdade”. Pensei no Ita, o velho restaurante da Rua do Boticário, 31. O Ita estava fechado. A fome se resolveu no La Farina na Rua Aurora.

No caminho entre o Ita e o La Farina, passamos em frente ao velho prédio da PF na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Antonio Godoy. Sempre que passo ali em frente, me vem a imagem do Romeu Tuma e das sacanagens que devem ter rolado na sua estada naquele prédio.

Há uma ocupação nesse prédio há anos, ela é uma espécie de síntese das coisas que personagens como Romeu Tuma fizeram para o Brasil da ditadura para cá. Abandono, violência, cerceamento de direitos, destruição planejada.

Acordei cedo hoje, primeiro de maio, dia de comemorar o trabalho, dia de comemorar em protesto mais do que nunca. A primeira imagem que veio na tela quando abri a web, foi a do velho prédio da Rio Branco com a Godoy em chamas.

De pronto lembrei do Andraus e do Joelma, a metáfora da ditadura e do seu ato contínuo, o povo que ocupava o prédio até ontem, a pobreza das pessoas e o abandono do centro, gente sem nome que vive no meio de fios soltos, umidade, escadas cheias de lixo, elevadores quebrados, gente do Centro.

Tenho o costume de clicar o Centro, congelar digitalmente as minhas peregrinações centrais. De novo coisa de jeca, o jeito possível de tecer uma crônica imagética e continua dessas andanças e das histórias nelas entrelaçadas. No meio disso tudo existem alguns registros do prédio da Rio Branco com a Godoy, longe de estar pleno, mais ainda firme na decadência.

Hoje ele é apenas memórias e cinzas.

As fotos são de 2015 e 2016.

A rua é o meu chão preferido. Mesmo que ela não me traia, que me conte a verdade. A verdade das ruas é dura, ela aparece nos rostos anônimos, em quem anda fora dos carros, dos coletivos, a rua dos trecheiros, de quem faz da errância o caminho.

A rua é o chão que me acolhe quando sinto desamparo, não em busca de respostas, mas da real que esclarece.

Vou da Barra Funda ao Bom Retiro.

No meio do toada um pedacinho dos Campos Elísios. Ando na rua das repartições estaduais quase abandonadas. Defronte à Diretoria de Ação Social, penosa coincidência. Um prédio bonito, que teve os seus dias, hoje encardido, sem função. O bairro que foi do baronato do café, hoje é o Estado ausente. Prédios prontos pra dizer não a quem os procura. É um abandono planejado.

Um dos retratos de uma São Paulo que acolhe e repele.

Na Alameda Nothmann, coração dos Campos Elísios, um rapaz negro, cabelo a Peter Tosh, se aproxima sorridente e me mostra feliz um pequeno painel com um tecido colado e nele desenhos egípicios:

– Achei ali na frente daquela casa (um sobradão do século passado), vale um bom dinheiro lá na República, mas eu tenho medo de ir lá porque a rapaziada é muito violenta.

Pensei na geopolítica das ruas, um andarilho dos Campos Elísios receoso de ir fazer escambo nas ruas da República. A rua e suas abrangências.

Avanço na Alameda com a Rio Branco, no meio do quarteirão um policial recomenda:

– Moço não vai por aí, é perigoso.

Olho em frente e vejo uma concentração de corpos esquálidos, pra lá e pra cá sem rumo. Meneio a cabeça pro policial e sigo seu conselho sem crítica. Em outros tempos seguiria sem medo. Sigo pela avenida Rio Branco, tarde bonita desse outono, contraste para essa cidade que nunca foi tão triste.

Faço o contorno pra chegar no Bom Retiro. Vou pra Casa do Povo, compro um livro na biblioteca coletiva e saio.

Volto pra rua e sigo contornando o Parque da Luz, vejo dois trios separados na calçada jogando um carteado em cima de um papelão. Homens do povo, com roupas rotas, concentrados nas cartas, um ritual silencioso. Curioso este movimento lúdico nas beiras do parque. O jogo da vida.

Em frente à Pinacoteca atravesso e sigo pra Estação da Luz, o sol segue morrendo, esfria a tarde e as cores vão ficando densas, fortes. Um senhor com uma mochila pede um dinheiro, dou um e vinte, puxo uma conversa e seguimos ladeados:

– Meu nome é Nelson, já tive comércio e família. Caí na rua há muito tempo, bebidas e tal. Cheguei a voltar pra casa. Aí, minha filha foi presa, tá presa, artigo 157. Ela é inocente, foi o namorado, ela pagou junto. Eu não tenho mais casa, nem pra onde voltar

O rosto anônimo da rua que tem sua história que nunca é linear, segue:

– Hoje em dia a gente tem medo de GCM, os PM estão de boa, nem mexem com a gente. GCM vem com a rapa e toma cobertor e as coisas da gente. É ruindade, muita ruindade…

Me despeço de Nelson e uma fala familiar, dura de ouvir, se repete:

– Moço, obrigado por falar comigo, as pessoas têm medo da gente, fogem, é bom ser ouvido…

O frio chega no fim da tarde, o sol já é pálido, uma nuvem no cimo do horizonte da Estação Carlos Prestes chama a atenção, parece um sinal…é São Paulo mudando seu turno.

A biblioteca em que trabalho fez 60 anos. Esse final de semana aconteceu uma maratona de 24 horas de atividades de culturais para comemorar.

Desses sessenta anos, foram vinte e cinco de participação direta e indireta na vida da Biblioteca Monteiro Lobato SBC.

Rostos conhecidos e incógnitos, historias bonitas, tristes, dramáticas, engraçadas, alguns poucos conflitos.

Companheiros de viagem que ainda estão aqui, outros que estão distantes, outros que se ausentaram para sempre.

Participar de uma instituição pública que deu relevo à formação e às descobertas de milhares de pessoas tem um gosto especial.

Em algum momento desse final de semana, eu me detive no todo dessa história, história que não é pacífica, que carrega conflitos e diversos pontos de vista.

A sexagenária biblioteca do centro de São Bernardo do Campo percorreu vários caminhos. E continua aberta, pública e com d luta, irrestrita.

Deixo aqui a minha homenagem às diversas pessoas que construíram a história da Biblioteca Monteiro Lobato SBC e um salve às outras tantas que construirão o seu futuro.

dd e x

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