O futebol não me deixa. Ainda que a força esteja mais nas lembranças do que na seduções atuais.

Não são apenas os ídolos que nos marcam no jogo da bola. Tem espaço pra tudo, os jogadores folclóricos, os turrões, os carismáticos, os que marcam pelas entrevistas e pelo visual. Futebol é estilo e atitude, vai muito além do jogo jogado.

Waldir Arruda Peres foi um desses jogadores marcantes. Menos pela técnica do que pela presença, pelo carisma e pelas artimanhas

O rapaz de Garça começou na Ponte Preta onde jogou ao lado de grandes como Manfrini e Dicá e ficou de 1969 a 1973.

Depois foi pro São Paulo, time onde protagonizou uma das primeiras tristezas da minha vida de torcedor. Waldir era o goleiro do tricolor na decisão do Paulista de 1975 diante da Lusa. Eneias fez um a zero pra rubro verde no tempo regulamentar e a decisão foi pros pênaltis. A Lusa perdeu de 3 x 0 e Waldir foi o destaque na catimba. Eu, aos 9 anos, ouvindo no radinho Evadin com tristeza no coração.

Em 1977, Waldir voltaria a brilhar na decisão por pênaltis, dessa feita diante do Atlético MG no Mineirão. Com a mesma catimba, sorte e destreza, ajudaria o São Paulo a conquistar o título do Brasileiro daquele na casa do Galo.

De 1975 a 1982 o goleiro careca com sotaque caipira jogou na Seleção Brasileira. Em 1981, num amistoso com a Alemanha, pegou dois pênaltis seguidos cobrados por Breitner que ficou puto com ele. Integrou a grande equipe de 1982 junto com Oscar, Júnior, Falcão, Zico, Sócrates, Eder.

Saiu do São Paulo em 1983, jogou no América RJ, Santa Cruz, Corinthians, Lusa, Guarani e encerrou a carreira em 1989 na mesma Ponte Preta que o revelou. Tentou a carreira de técnico, mas não virou, pois treinou clubes de pouca expressão.

Não consigo dissociar o futebol em que acreditei e que me emocionou de caras como Waldir, posso até imaginar o calvo goleiro, rei das artimanhas, boleiro gente fina, tomando uma num boteco da vida contando e dividindo as histórias do futebol que vi, ouvi e vivi.

O bom goleiro que jogava sorrindo nos deixou nessa tarde de domingo aos 66 anos, muitos deles compartilhados conosco. Adeus.

A biblioteca pública abre aos domingos, faz todo sentido abrir a biblioteca aos domingos.
– Gostou do Victor Hugo? – perguntei meio protocolar.
– Gostei muito, muito mais do que imaginava – a resposta veio carregada com a luz das descobertas.
Lucas tem quinze anos, é aluno da ETI (Escola Técnica Industrial) em São Bernardo do Campo, frequentador silencioso da biblioteca, chegou nesse domingo de sol com os três volumes de “Os Miseráveis” de Victor Hugo.
– Quero renovar o segundo e o terceiro volume, ler com calma, porque está muito legal.
Destravei a conversa com Lucas, ele mostrou interesse pelos destópicos, falou que “Admirável Mundo Novo” foi o livro que mais o impressionou. Indiquei Kort Vonegut Jr, Ray Bradbury, Dickens e a conversa germinou.
– Como você descobriu esses autores, Lucas?
Ele vacilou, pensou e abriu o semblante na resposta.
– Na verdade foi um amigo de escola que indicou autores e fui atrás, ele me influenciou – tinha satisfação na resposta.
O mediador, sempre o mediador, amigo, pai, irmão, mãe, professora, bibliotecário, a figura do mediador sempre fundamental para a leitura e o leitor.
Troquei mais algumas palavras com o Lucas e ele sentou entre livros e iniciou mais uma etapa no exercício de descobertas. É feliz o Lucas, fez feliz esse domingo de trabalho.
Faz todo sentido abrir a biblioteca aos domingos.

A cada manhã uma novidade, um tapa na testa para acordar. 
Enquanto um mundo que você demorou cinco décadas para ruminar e entender se dissolve sob seus olhos, a vida corre, as obrigações se acumulam, as perguntas querem respostas. 
A política distante e a mais próxima, aquela do dia a dia, se misturam. Não há tempo, pois tempo é luxo, para se perder.
Há uma receita, rock, tango, samba, jazz, soul, para dar um mínimo de respiro…


– Joguei na base da Lusa em 1980, 1981, eu era muito boêmio e não deu em nada – Santana sorriu acanhado pra disfarçar o dissabor.
Abordei o Santana na esquina da Major Sertório com Cesario Mota Jr, no coração da Vila Buarque. A camisa da Lusa foi o chamariz.
– Derrubaram a gente, mas vamos resistir – falei num tom otimista.
– Claro, a Lusa é muito grande – respondeu o amazonense de Manaus que veio pra São Paulo tentar a sorte no futebol no final dos anos setenta do século passado.
– Vi grandes times da Lusa, todos com o jeito de jogar que vinha da base, da escolinha, bola no chão, jogo leve, bonito de ver – os olhos do Santana foram longe.
O papo de futebol coloriu a minha tarde de folga, papo puxado nas trombadas da vida com gente que você nunca viu, que tem histórias e casos pra contar. Gente da rua, do corre da cidade.
– O Canindé era minha segunda casa, não tenho origem portuguesa, sou nortista, mas esse time me encantou, eu nunca vou torcer pra outro time, time escolhido é pra vida toda. – o velho e bom amante do jogo de bola.
Apesar do dia de folga eu não tinha muito tempo, nem Santana, meu novo e instantâneo amigo, que parecia aflito pra chegar em algum lugar.
– Agora eu tenho que correr mais porque a grama secou e o campo é de terra, tô desempregado e tal, vou nessa, um dia a gente se vê no Canindé.
– Valeu parceiro.
Lá foi o Santana centro da cidade a adentro levando suas histórias e paixões. É por causa desses personagens que a Lusa nunca vai acabar.

Texto de 07 de março de 2017
Encontros e desencontros, todo dia, toda hora.
Paulinho é amigo da adolescência. Parceiro de rock and roll, andanças pelas lojas de disco, descobertas…
Cada vida vai para um lado, ficam essas memórias, algumas histórias reais, outras inventadas.
Trinta anos e reencontro o fã de Led Zeppelin e Grand Funk num terminal de ônibus. Apressado, calvo, nada de madeixas.
Abordo o velho amigo, cinco segundos para reconhecimento e a surpresa de rever aquele momento de vida.
A busca de novidades , as perguntas protocolares sobre família, emprego, etc…nem falamos de música, não coube melodia alguma.
Na despedida o abraço fraterno, o silêncio e o jeitão de ponto final.

Texto de 11 de maio de 2017

“No passado! Mas… o passado é um veneno. Fujo dele, de pensar nele e o bonde entra com toda a força na embocadura do Mangue. A usina do Gás fica ali e olho aquelas chaminés, aqueles guindastes, aquele amontoado de carvão de pedra. Mais adiante, meus olhos topam com medas de manganês… E o bonde corre, mas “Titio Arrelia” não diz mais pilhérias, nem assovia.”
Lima Barreto
Se fossemos resumir num ato a democracia, não vacilaria um segundo em dizer que esse ato seria mover-se na cidade. Mover-se é amplo, abrange todos os direitos, amplia os limites da vida.
Estar nos lugares onde as coisas acontecem ou fazer coisas acontecerem em diversos lugares tem como “a priori” a movimentação. As ideias correm contra a inação, daí a cidade se transforma, ausentar-se é perder direitos.
A forma mais eficiente de excluir alguém é sequestrando seu tempo. Ônibus desconfortáveis, trens atrasados, metrôs curtos, retos e com conexões obtusas. O preço do pão e da passagem se equivalem em fomes e carências.
O ir e vir não será compreendido na sua amplitude quando restrito a partidas e chegadas, o percurso sempre será a prova dos nove. Obstruir percursos é um instrumento poderoso de exclusão.
Nos últimos meses tenho atravessado a área metropolitana de oeste a sudeste. Vejo tanta coisa nas conexões da vida. As pessoas sobrevivem à precariedade do transporte com táticas diversas. Ler, ouvir música, pensar na vida e tantas outras formas ocultas ao olhar. Nesses caminhos estar atento é uma forma de aprender.
Mover-se é direito, não privilégio. As ruas na sua superfície podem até parecer iguais, mas seus detalhes, sua história, seu patrimônio imaterial dependem de quem nelas podem se mover e escrever capítulos, como bem sabia e registrava Lima Barreto dentro dos bondes.

Ninguém atravessa meio século mais trezentos e cinquenta e cinco dias incólume. 
Parece brincadeira, lugar comum, mas não é. Foram décadas intensas.
Quando nasci, 1966, os Beatles ordenavam a música pop mundial. Não é à toa que anos depois a primeira fita cassete comprada em loja por um menino de 11 anos foi Help. 
Em 1966 Castelo Branco passava o bastão pro Costa e Silva, a ditadura ganhava corpo e mãos de ferro. 
Não vou ficar batendo no ferro frio da década de 1960, todos sabem da força desses dez anos pra determinar os rumos da história. Tudo isso marcou a minha vida.
A música e a política deram sentido a esses 51. Felizes, doloridos, gozosos, pálidos, hilários, melancólicos. Anos da passagem.

 
Poderia pontuar nas músicas, nas emoções da luta, das vitórias e derrotas políticas, nas páginas lidas, lembradas, esquecidas, nos amores, nas viagens, nas caminhadas ao redor de casa.
São as bússolas, os pontos de apoio, as inflexões, as fugas, as decisões. Procurar o nexo, o rumo e o próximo passo me consome e me seduz há cinco décadas e, hoje, um ano.
Hoje eu amanheci ouvindo Gabor Szabo, um guitarrista húngaro que se radicou na Califórnia, misturava jazz, soul, pop, psicodelia na sua música. Virou a trilha.
A Gabriela Junqueira Calazans perguntou por que eu tinha escolhido essa trilha pra esse dia de 51, eu não soube responder. Muitas escolhas são assim inexplicáveis, não me sinto especial por isso, apenas vivo e atento. 

Um dia conta fecha e nada mais precisa ser explicado , por ora é celebrar a vida.

https://youtu.be/CgeGwTpuld8

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