Eu acordo cedo todo dia. Seis, seis e meia, levanto, vou ler ou navegar na internet. Um dos caminhos clássicos é o YouTube e o futebol antigo. Jogos, gols, entrevistas, imagens que vi e revejo e outras que nunca vi.

Os maldosos dizem que faço isso, porque é a única forma de ver a minha Lusa ganhar jogos.

O passado que redime e realimenta.

O randomico do YouTube me leva a jogos de diversos times e campeonatos. Partidas dos anos 60,70, 80, outras cadências, outro padrão, outras jogadas, outro tipo de jogador.

Há duas semanas, a viagem matutina me levou a um Botafogo 3 x 2 Santos de 1965, final da Copa Brasil de 1964, Maracanã.

No campo, Pelé, Gilmar, Coutinho, Pepe, Garrincha, Gerson, Jairzinho, Roberto, Manga. O Botafogo sapecou três no primeiro tempo, um de Jairzinho, dois de Roberto.

O narrador, Cid Moreira do Canal 100, reporta a resiliência do time santista, a imagem mostra isso e não é Pele, o ator principal.

Coutinho, o substituto de Pagão, o partner do Rei Edson, fez dois gols, um terceiro, o de empate, foi anulado pelo árbitro Armando Marques.

É um dos jogos históricos do futebol brasileiro.

Naquela manhã, o primeiro gol do Coutinho colou na minha retina. Eu até já tinha visto esse gol em algum programa esportivo anos atrás. A diferença se deu na possibilidade de ver e rever esse gol, indo e voltando na setinha do YouTube.

É o futebol que prende e apaixona.

Coutinho na grande área aproveita bola espirrada no cruzamento, domina com a direita e nesse domínio já finta o goleiro Manga, a bola desliza e cai limpa no pé esquerdo, ele então, empurra com elegância pro gol. A bola parece colada no pé, muito rápido, muito belo.

Eu nao sosseguei depois disso, tinha que escrever a sensação de alegria que ver esse gol me deu. Adiei, adiei, o texto não tava pronto, não vinha. Os dias passaram.

O piracicabano Antônio Wilson Vieira Honório, o Coutinho, que fez 368 gols jogando pelo Santos onde iniciou carreira ainda adolescente , faleceu hoje aos 75 anos.

Esse texto que nasceu de um momento de amor ao futebol, fica como uma homenagem póstuma a um dos maiores centroavantes da história.

“Eu quero um retratinho de você
Pois vou mandar fazer o seu clichê
E publicá-lo no meu jornal
Você é uma figura original”

– Pai, quem é esse cantor com voz esquisita?

Meu pai riu e respondeu:

– É o Mário Reis, ele canta estranho mesmo, tem voz pequenininha.

Era provavelmente final dos anos 70, a Rádio Record tinha um programa com música brasileira dos anos 30 e 40 na noite de domingo. Meu pai ouvia e ficava lendo na cozinha. Quando eu me interessava, chegava perto e perguntava.

Naquela noite, a voz pequena, o canto quase falado do cantor carioca, Mário Reis, entrou na minha vida pra não sair nunca mais. A música daquela noite era “Eu quero um retratinho de você” de Noel Rosa e Lamartine Babo.

Mario Reis era rico, branco, o pai foi presidente do América. Mas o violão, a batucada encantou o moço elegante e o compositor Sinhô, um dos artífices e introdutores do samba na indústria, foi quem o iniciou na vida de cantor.

Mario é tido como um dos grandes interpretes masculinos das composições de Noel Rosa, o outro é Francisco Alves. A sua voz pequena, sincopada, representa uma das versões do Brasil se modernizando.

– Eu gosto mais do Chico Alves, tem a voz mais forte – completou meu pai naquela noite.

Eu fiquei com Mário Reis.

Hoje, tava eu aqui cumprindo uma promessa que fiz pra Gabriela de arrumar os nossos livros. Precisei de música pra vencer as estantes e não foi a Radio Record que procurei, foi o Spotify. Foi mais de hora de Mário Reis no celular nesse domingo, quarenta anos depois daquela noite.

“O teu olhar tão profundo
É artigo de fundo
É grande furo em qualquer diário
Teu nome é cabeçalho extraordinário
São de dez milhões
As edições”

Não há nada mais sufocante do que andar com os olhos baixos. O medo de encontrar o outro cega a luz do dia.

Medo? Sim, medo, medo das palavras, dos gestos, dos punhos. Medo do desentendimento, do descontrole, da desavença.

É um medo que limita mais, pois não é o medo do desconhecido, é medo de quem se conhece. Supostamente conhece. É medo presente de um passado que se dissolveu.

A pessoa que você conheceu não é a mesma pessoa. Fomos enganados?

O encontro fortuito que geraria cerveja, café ou papo saudoso, pode virar mais uma ferida, uma chaga, na descrença pelo outro. Tudo isso com poucos gestos, poucas palavras e no limite punhos.

É nesse instante que o olhar abaixa, o rosto se contrai e a vida se transforma num constante sinal vermelho. É o pior medo, é o medo do outro, não aquele desconhecido, mas sim daquele que você passou a desconhecer.

Eu gostaria que tudo isso que eu escrevi acima, fosse teoria, fosse uma grande ficção ou uma distopia projetada. Infelizmente, eu sinto esse medo e vejo esse outro diariamente.

É fim de verao de 2019 e eu gostaria de estar sentindo coisas diferentes.

Nasci e cresci em São Bernardo do Campo. Na virada dos anos 70 para o 80, o movimento punk tinha sua versão proletária e suburbana nas cidades industriais do ABC paulista.

Os meninos e meninas punks do ABC eram em sua maioria filhos de migrantes e dos operários, na totalidade de famílias pobres. Se identificaram plenamente com a mensagem transgressiva dos filhos do proletariado europeu.

Daí, a identidade com os metalúrgicos, greves e a resistência à ditadura. Os punks e a política andaram juntos nesses mais de quarenta anos.

A resistência dos punks e anarcopunks
ao fascismo, acontece há décadas nas estações de trem suburbanas e nos shows das quebradas. O embate com as hordas de extrema direita é real e tem gosto de sangue.

O punk e o compromisso político são consanguíneos. A imagem de alienação e niilismo, são uma construção da indústria cultural, alimentada pelos oportunistas de sempre.

Lembrando que as disrupções estéticas são irmãs sutis das revoluções. Como historicamente foi o samba, o Carnaval, o punk e as coisas todas dessa gente que não se conforma.

Há cinco anos, o Bloco 77 anima um segmento do carnaval paulistano. O Bloco é 77, porque 1977 foi ano emblemático do punk rock. Pistols, Clash, Damned, Buzzcocks, Ramones, Dead Boys lançaram discos históricos nesse ano.

O Bloco faz versões carnavalescas de Garotos Podres, Cólera, Inocentes e outros nomes de nosso cancioneiro punk. Uma homenagem bonita nesse cruzamento de estilos.

Os garotos e garotas que montaram o Bloco 77, têm muito pouco a ver com os punks que conheci na garoenta são bernardo da virada dos 70 para os 80, o tempo mudou a cara do punk. Mas lá no fundo, na essência, o caminho é o mesmo.

Doutor, eu não me engano/o Bolsonaro é miliciano” – cantava o Bloco 77 no sábado desse Carnaval.

Esse post é uma homenagem ao meu amigo Carlinhos, um punk de verdade que nunca ouviu samba, que amava Stiff Little Fingers, mas que pelo espírito anárquico que sempre defendeu, na certa aprovaria o Bloco 77. Pena ele não estar mais aqui pra pogar o samba punk.

– Vamos comer um pão de queijo?

Isadora ignora o pedido e aponta o dedinho para a Avenida Faria Lima. O pai, de primeira, nao entende.

Isadora insiste em ir para o outro lado, ela nao controla os próprios passos no colo do pai, mas tem o indicador e o carisma pra persuadir.

O pai da Isadora desiste do pão de queijo e depois de alguns passos, sob a direção resoluta da pequena, entende o destino.

O timão da vida está nas mãos de Isadora…

Minutos depois ao chegar no setor infantil da Biblioteca, o pai me conta a história que acabou de vivenciar. Todo mundo ri, a Isadora mais ainda por ter chegado ali.

Ela não é estreante na Biblioteca, sempre está la em atividades culturais com mãe, a Nadia. Ela conhece há tempos o caminho das estantes. Gosta muito, o sorriso lindo nao deixa esconder.

Hoje, ela trouxe o pai, preterindo até o pão de queijo que tanto gosta. O pai é só orgulho ao compartilhar essa história conosco.

As isadoras são as esperanças reais que nós temos e são bem vindas sempre.

Vi duas cenas nas ruas que não me saem da cabeça:

1- a abordagem sofrida e desorganizada de um garoto que pedia esmola em frente a uma padaria no centro da cidade. Ele não era agressivo, nem inconveniente, apenas fazia aquilo com ansiedade, afoito, desajeitado. Assustava um pouco as pessoas, não tinha êxito nos pedidos. Prá lá e prá cá, como parte de um ballet inglório. Um desespero triste.

2 – por volta das 21 horas, um catador puxava seu carrinho na General Olímpio da Silveira, à beira do Minhocão, com sua filha, uns três ou quatro anos, sentadinha no meio dos papelões e outros recicláveis. Linda, de vestidinho e olhar no caminho. O pai com o rosto cansado, olhar distante, muito jovem. Tinha uma beleza a dupla. Beleza sofrida. Eles não deveriam estar ali.

Eu sei que escrever aqui não vai melhorar em nada a vida de ninguém. É um jeito de eu organizar, de dividir essas coisas que incomodam, que são doloridas, que ficam tatuadas no pensamento.

O mais triste e revoltante, é que sabemos que essas histórias de desalento, de abandono, de miséria, de sequestro do mínimo de dignidade, são totalmente construídas pelo projeto perverso de concentração de renda, de exploração do trabalho, de destruição dos direitos do ultraliberalismo.

Compartilhar o que vejo, contar o que sinto é um dos jeitos frágeis que eu disponho pra lutar.

O perigo da barbárie é a sua força de atração. Ela pode vir sutil, mas rápido se generaliza.

Como alguns sabem, eu sou bibliotecário de biblioteca pública. E sou daqueles que optam pelo atendimento, pela mediação, pelo front da biblioteca, pelo contato direto com o público.

Atender é algo rico, diverso, imprevisível. Dificilmente rotineiro, ao mesmo tempo que satisfaz e nos submete aos caprichos da mediação, nos expõe, não raro nos fragiliza, nos faz deparar com nossos limites, nossas ausências.

Nesse final de semana eu estava de plantão na biblioteca. Sim, a biblioteca que eu trabalho abre de sábado e domingo. E melhor ainda: recebe um razoável e diverso público. Sábado tem um perfil de público, domingo outro. No domingo veem as famílias e no extremo, os solitários.

Hoje, o dia correu leve. Enquanto os moradores de rua usavam a Internet, uma das poucas possibilidades de lazer democráticas, as famílias e os leitores contumazes, escolhiam livros enredados na geral, na infantil e na juvenil. No atendimento, os horários de picos se alternavam.

Num dos horários de pico, chegaram três pessoas, depois de uma sequência de atendimentos.

Nesses momentos, nós costumamos agir mecanicamente para nao perder o timing e não anotar dados errados. Você dá bom dia, confere os livros, checa o cartão, transfere os dados para o sistema e devolve o livro para a pessoa, com rapidez e sem erros, se possível.

As três pessoas se aproximaram, o garoto esguio, alto, mas aparentemente bem jovem, entregou primeiro o livro. O cartão tava em condições lamentaveis, sujo de barro, eu não tava conseguindo anotar a data de devolução e quantidade de livros. Escrevi como pude, entreguei e dei aquela bronca de homi pra homi, light, mas firme, para que ele tomasse cuidado com o cartão e blá-blá-blá.

Feito isso, ergui os olhos para atender os outros dois terços do trio, eram mae, filho e filha. Sorriam todos, com a diferença do sorriso do garoto meio envergonhado. Foi então que eu entendi o todo e sucumbi. Vacilo, imperícia de um profissional de quase trinta anos de janela.

A família era bem simples, o cartão naquele estado foi consequência das condições do local de moradia, da falta de estrutura da cidade, sobretudo nesses dias de dilúvio.

O cartão, inclusive, sobreviveu às precariedades de uma cidade cruel para os seus mais pobres, e tava lá, ainda inteiro, com ressalvas, para que aquele menino pudesse levar seus dois livros.

E o problema não era apenas aquela família, mas sim o contexto, o desmanche dos direitos, da coisa pública. Eles estão ali, são os resilientes.

Fiz o máximo para apagar as duas frases bestas e professorais, conclui o empréstimo e contei velhas e breves piadas sobre usuários e seus cartões, uma delas verdadeira, outra inventada. Todos sorriram. Finalizei:

– O nosso intuito aqui é acabar com os cartões de empréstimos, será usado apenas o RG – isso é verdade, nao foi inventado.

A mãe simpática e compreensiva, me desejou boa semana, os meninos sorriram, agora, sem tensão.

O cansaço, a rotina, alguns procedimentos mecânicos, me distrairam. Baixou o autoritarismo e o senso de observação falhou.

Não é pouco, é preciso estar atento para ser forte e delicado, na hora que for.

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