Há exatamente um ano, foi iniciado, através de um edital público, o processo eleitoral do Conselho do Plano Municipal do Livro, Leitura e Literatura. Posteriormente, o Conselho foi eleito de forma legítima, aberta e democrática.

Depois de convocar apenas uma reunião do Conselho esse ano, o atual Secretário, André Sturm, através de decreto, suicidou a composição eleita por dois anos, no processo do ano passado, e se investiu do poder de nomear monocraticamente um outro Conselho (que até agora não nomeou).

Não é um caso isolado, o Governo Doria e seus diletos secretários tem sido com os Conselhos de representação popular das diversas áreas.

Em suma, jogaram na lata do lixo todo um processo democrático. O principal argumento do rude Secretario, foi de que o Conselho eleito era “uma acão entre amigos”, não tinha legitimidade. Ele prefere a legitimidade de seus próprios amigos.

Democracia sem povo é assim.

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Bolsonaro é um fenômeno interessante de observar. Interessante, mas não por isso menos perigoso. É o fio da meada.

O tal capitão é o primeiro candidato de extrema direita com real chances de incomodar os favoritos numa corrida presidencial no pós ditadura.

Bolsonaro tem outros similares na história, em 1955, por exemplo, Plinio Salgado, o líder integralista, postulou a presidência da república, pelo PRP (Partido de Representação Popular) e obteu 8% dos votos. Mas o que difere os dois exemplos é o fato de que Plinio era um outsider controlado pelo estabilishment, Bolsonaro está saindo do controle e quer negociar, o preço não se sabe.

Bolsonaro surge em outro contexto, ele é o clássico bode na sala, um incêndio criminoso para gerar lucros com o seguro. Ele surge de uma mistura de neoconservadorismo e ultraliberalismo gestado e estimulado nas redes sociais já há algum tempo, um ambiente que passou anos sendo visto como folclórico e que não tinha nenhum nome expressivo que o representasse no campo politico. O velho discurso moralista, misógino, homofóbico e violento do capitão se adaptou aos memes politicamente incorretos das redes e o ungiu como a cabeça que faltava ao camarão.

Mas por que ele é o bode na sala? Nas prévias informais, Bolsonaro foi e é estimulado por um cálculo. Sua maior qualidade é representar o medo de que venha a dar certo e com isso impulsionar uma alternativa de centro direita. O problema é que uma alternativa de centro direita tá difícil de ser inventada. Dória, Alckmim, Meireles, Huck? Até agora nada de embalar, todos derrapam.

O niilismo e a descrença da população em relação à política, foi o investimento diário da direita nos anos Lula/Dilma. O massacre moralista engoliu os parlamentos e o executivo, a “mão invisível” e classista do judiciário só aprofundou a crise de despolitização. Tudo isso adicionado ao ódio pariu Bolsonaro e as violências afins. Agora, ele é o perfeito bode na sala, um tanto pesado pra ser retirado apenas com desejos e simples manipulação.

As contradições são o fardo mais pesado de carregar. Desconstruir Bolsonaro é tentar curar com bandaid a lepra da despolitização. O frankestein do parlamento saiu do controle, não é à toa que um dos agentes dessa destruição, a Folha de São Paulo, já tenta tornar palatável um suposto bolsonaro costumizado. A farsa tentando a construção de mais uma farsa.

Diferente dos 8% obtidos pelo Plinio integralista de 1955, o capitão Bolsonaro, hoje ostenta 20% de intenção de voto. Claro que por ora são apenas intenções. O que assusta é que estas intenções verbalizam toda uma construção simbólica erigida minuciosamente nos últimos anos: a desqualificação da política.

E 2018 se aproxima e o bode berra bem alto.

Nelson Rodrigues tinha um personagem em suas crônicas chamado Sobrenatural de Almeida. O dito era responsável por todas as zicas que aconteciam com seu time do coração, o Fluminense.

Ontem, o neto de Nelson Rodrigues, Mário Rodrigues, um obscuro colunista de um panfleto fascista chamado Isto É (um semanário de aluguel), escreveu uma coluna com o título “Lula deve morrer”.

A intenção do obscuro neto sem talento do velho Rodrigues, antes de mais nada foi de autopromoção. O ilustre desconhecido saiu do nada pra ovação e o linchamento, a sombra e a luz que o nome de Lula joga sobre as coisas. Os medíocres e os oportunistas se valem de tentar destruir uma história construída para ter alguma história.

Parafraseando o avô, o neto seria mais um dos “Mediocridade de Almeida” que ocupam a mídia e as redes sociais. Todos eles a procura de um banco, de um espaço no vagão do trem fascista que atravessa nosso país. A linguagem é baixa como os argumentos, desejam o mal, a morte, pois não conseguem criar, apenas destroem.

A consanguinidade e a hereditariedade, definitivamente, não garantem talento. Os tempos são outros e os reacionários de hoje envergonham os de ontem.

Perto do meu trampo e da minha casa em sbc tem um restaurante chinês. Ruim de doer, mas pratico e vizinho.

Em meados da década passada, eu ia muito lá à noitinha. Ficava aberto até tarde, era por quilo, tinha sempre verdura, legume, uma proteína e sobremesa de fruta. Salão grande, sempre vazio, ficava eu lá curtindo os ecos e os pensamentos.

Quem quebrava a minha solidão, vez em quando, era um garçom falador, vinha sempre fazendo perguntas tortas e muitas vezes incompreensíveis. No final falava de deus, me dizia o endereço da igreja. Eu sorria e agradecia. Durava um minuto e meio no máximo a performance do rapaz.

Uma noite resolvi quebrar o gelo e quis saber da história dele. Veio de Guarapari com a mãe, morava num quarto e sala no centro de SBC, a mãe doente, o resto da família ficou lá no litoral capixaba. Nesse dia ele não falou de deus, saiu meio cabisbaixo, quem sabe por lembranças não muito agradáveis. A história da gente muitas vezes dói.

Voltei algumas noites ali, a comida era de fato ruim, mas o sossego do lugar compensava. O garçom capixaba sempre no tom de deus e das palavras incompreensíveis. Tinha simpatia por ele.

Há alguns anos (7,8)deixei de comer nesse restaurante. A digestão não ajuda mais comer qualquer coisa à noite. Abandonei o lugar quieto e a comida ruim. Vi o amigo garçom algumas vezes andando na rua, camisa branca e calça preta, acenava pra não perder o vínculo com o passado recente.

Fiquei três anos fora de sbc, voltei no inicio desse ano. Desde então, não via mais o amigo garçom pregador, até hoje a tarde:

– Tudo bem rapaz, quanto tempo, continua no China?

– Opa, beleza, to bem e você? No China eu não tô mais, sai há quase um ano. Lá agora tá ruim, to vendendo esses salgados na rua – mostrou coxinhas, esfihas e outros assados e fritos numa caixa climatizada.

– Não da pra voltar pro China?

– Não, agora ele contrata por empreita, não tem mais registro e exige um horário doido, compensa mais vender Salgado na rua, horário meu, ganho o que faço – ouvi através dele a história de milhões.

– Beleza, boa sorte pra você – desejei mesmo.

– Valeu, não vai querer um salgado?

– Hoje não, obrigado.

Saí andando, pensando, que estamos na véspera do enterro da CLT, do fim dos direitos trabalhistas, amanhã é o começo desse fim. Um dia triste de nossa história. Quantas histórias de portas fechadas ou abertas pela metade, como essa, já são e quantas virão?

A história de uma pessoa nunca pode ser apagada. Silenciar uma voz, vai além da ausência, da morte, é inaceitável o apagamento de uma história. Essa é uma luta que nunca, que nunca devemos abandonar.

O Francisco tem uma história, ela deve ser ouvida, ela deve ser contada. É a história dos franciscos que movem as nossas vidas, as nossas ruas, os nossos trajetos e os motivos que nos permitem continuar.

Domingo, 29 de outubro, eu passei de ônibus na General Olímpio da Silveira, na altura da Praça Marechal Deodoro, um ponto, a parada me deixou ver um rapaz e seu violão, sentado na praça.

Achei lírico, naquela fria tarde de domingo, o rapaz e o violão, sentado sozinho. Perguntei: o que será que ele toca? Que vida o levou até aquele lugar.

Cliquei de longe. Abstrai umas frases, juntei palavras e publiquei nas redes. Como um poema de colagens subjetivas. Pouco a ver com a verdadeira história do rapaz solitário com o violão na praça. O tempo passou e ficou a lacuna da verdadeira história.

Oito dias.

Hoje, lá pelas 15:35, voltei à praça, a pé, devagar, no tempo que a vida deve ser. Olhei ao redor, gira girou, lá estava o rapaz, com seus pertences e o violão, embrulhado. Fui chegando de leve e engatei:

– Como tá?

– Tudo bem? – abriu um sorriso, a senha.

– Outro dia, passei ali e tirei uma foto sua de longe. Tava no ônibus, tava como a minha companheira indo encontrar amigos. O que você toca nesse violão?

– Música caipira, música popular, música da povão.

Senti que ele sacava bem o que era povão, não carecia de diatribes sociológicas. Seguiu o papo:

– Qual seu nome? De onde você é?

– Sou Francisco, venho do interior de São Paulo, Silveiras…sou capixaba, mas Silveiras é minha terra.

Silveiras era a terra dos afetos, onde ficou o coração, deu pra entender isso na pausa e no brilho do olhar. A história da gente é isso, as pausas e os brilhos, coisa que a gente vê, sente, apenas de perto.

– Eu tenho problema de esquecimento, já tentei tratar…é difícil, tô nas ruas desde dezembro de 2010, já passei por vários albergues, muitas cidades diferentes, agora tô aqui.

– Pô, Francisco, tô te alugando, fazendo tanta pergunta, sou repórter não, sou um curioso das ruas…

– Que isso rapaz, a gente que tá nas ruas gosta de ser ouvido. Aquece o frio e faz o tempo passar. Ainda bem que você num é repórter, outro dia tava vendo o Luciano Huck e ele fala um monte de palavra que não tem a ver com a gente de rua…

Aproveitei a deixa do Francisco e fiz o meu proselitismo de esquerda detonando o Huck e quejandos. Parei logo pra não cansar o novo camarada.

– Qual música que você gosta mais de tocar?

– Varias, toco umas quarenta musicas, não canto bem, minha voz é fraquinha, mas cantar me deixa feliz, o violão é parceiro. Gosto de cantar uma música que chama no “Colo da Fome” de autoria desconhecida – brilharam os olhos.

A fria tarde paulistana ganhou um gosto diverso pra mim, um misto de tristeza e alegria, um sentimento pontiagudo, fiquei uns segundos calado e resolvi encerrar o capítulo. Tava atrasado e me sentindo meio explorador.

– Francisco, muito obrigado por ter falado comigo, contar sua história.

– Obrigado você, Ricardo, sempre que quiser conversar pode passar aqui.

No fim, cliquei de novo e o Francisco sorriu.

Saí pra tocar a vida, engolindo lágrimas, pensando, entendendo e ainda mais convencido que todo mundo tem uma história e que essa história tem que ser contada e ouvida.

Obrigado, Francisco.

Tô ouvindo aqui o disco “Gal canta Caymmi”. Escolhi aleatoriamente, depois de ouvir umas duas horas de Monochome Set, velha banda não punk da cena punk. Coisas das manhãs da manhã de sábado e das facilidades do streaming.

Pois então…

Gal cantando Caymmi é de 1976, então, eu tinha dez anos. O mundo era outro muito outro. Por que parecia tudo melhor? Minha juventude? A inocência do não saber? Óbvio que meus sábados eram diferentes, eu nem ouvia Gal pelas manhãs. Não tocava Gal no rádio que eu ouvia. “Só louco” e “Nem eu” tocava em novela, de noite, na Globo. Dessas lembro bem.

Voltando: era melhor? Sim, o mundo parecia melhor porque era pra muito poucos. Existia uma maioria silenciada, apagada. Fica cada vez mais nítido o silêncio e o apagamento daquele tempo. Falava isso com o Irajá Menezes na última sexta. Era um mundo de silêncios e ausências.

Eu não fazia parte dos que eram silenciados e dos apagados. Pobre sim, mas com outras proteções. Por isso essa saudade. O mundo é melhor hoje. Afirmo isso sem ter medo de parecer um lunático. Não precisava ir muito longe: minha mãe e irmã eram silenciosas, meus amigos negros, nem soube que eram os amigos gays da minha infância, tão massacrados que eram. O mundo de silêncios, das ausências.

Não quero dizer que tudo melhorou. Os massacrados continuam os mesmos. Há muita luta nas classes e identidades pra se enfrentar. Eu, tão confortável na minha saudade romântica, talvez seja o mesmo.

Mas, o mundo de hoje tem menos silêncios e todas as lutas se expandiram, muitas vezes obstruídas pela fragmentação, não por isso menos legítimas. As matizes são mais enxergadas e enxergáveis. Os silêncios e os apagamentos diminuíram.

É tão somente um punhado de canções que me leva a esse mundo do passado que não quero que volte.

Ando na rua com o ouvido cumprido. O povo fala tudo, só não ouve quem tá com o ouvido interditado com a cera lacradora da zona oeste e do centro expandido. Só não adianta querer ouvir apenas o que a gente quer.

Corta pra rua.

Brigadeiro Galvão: três rapazes de bermuda falando que o Dória não aparece pra trabalhar, que devia poder ser demitido.

– O povo põe, o povo tira, vai eu faltar no restaurante, no outro dia é roça direto.

A vítima da meritocracia cobra atitude meritocrática do falso meritocrata.

Corta pra Avenida São João esquina com Rua Vitoria, dois amigos e o camarada do churrasquinho sentam o dedo na discussão política:

– Como pode rapaz, o cara ser o vice e o PT não saber de nada o que ele faz, c acredita nisso?

– Seja sincero, seja sincero, na época do Lula você ficava desempregado?

– Ah, mas então pode tudo?

– Não, não pode, mas tem que ver direito o que aconteceu.

A discussão quente, mas educada, entre um naco de carne, uma linguicinha com muita cerveja, muito mais serena que a gritaria emburrecedora em vários cantos dessa rede social.

O povo da rua vai filtrando, vai tentando entender do seu jeito, no meio dos prazeres, do trampo, da batalha da vida cotidiana, o que é melhor pra si. As ruas não dormem, mas antes de tudo têm que sobreviver pra saber melhor.

Andar na rua é o jeito de voltar a falar com a minha essência, sair do gueto das ideias protegidas.

Seguindo o fluxo.

Nota: as ciclovias estão desaparecendo.

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