No período de março de 1969 a maio de 1970, Richard Nixon promoveu a Operation Menu na divisa do Cambodja com o Vietnã.

A ideia era destruir um contingente do exército norte vietnamita que supostamente se escondia em terras cambojanas.

O Cambodja até então se mantinha neutro na Guerra do Vietnã. A neutralidade virou massacre que matou milhões de civis, através de toneladas de bombas e napalm.

Daí, surgiu a força do Khmer Vermelho e a era de tirania de seu líder, Pol Pot.

Cinicamente, a causa é desconectada de sua consequência, Nixon e a doutrina estadunidense nunca são vinculados a Pol Pot.

Em 2013, estive no Cambdoja. Senti nas ruas e no povo que o tempo não apagou as marcas dos massacres.

É um país triste, povo desconfiado em contraste com a beleza do sudoeste asiático.

Não sei porque me veio essa lembrança, talvez por esse momento em que vivemos onde parece que todas as histórias são contadas pela metade.

Minha solidariedade à toda classe trabalhadora cambojana.

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No final da noite de terça, vindo de um compromisso, fiquei aguardando o ônibus próximo à esquina da Paulista com a Consolação.

A espera me presenteou com um filme muito real, ilustrativo, do abismo e das diferenças que retomaram o galope histórico no último ano.

Em frente ao ponto de ônibus está a nova sede do Instituto Moreira Salles. Prédio suntuoso em área nobríssima, com toda a pompa dos centros culturais ligados às poderosas instituições financeiras. Naquele momento rolava o convescote da inauguração.

A fauna e flora da “cultura” circulava com seus óculos pretos de aros grossos (hit atemporal) e as roupas descolex.

Mas era um outro grupo de pessoas que circulava em meio “aos novos vizinhos” que dava o tom de diversidade (tão caro ao circuito culturete) à noite: os usuários da Cracolandia do buraco da Rebouças.

O complexo viário Paulo Roberto Fanganiello Melhem, um túnel localizado no final da avenida Paulista, que faz a ligação entre as avenidas Rebouças e Dr. Arnaldo, já há algum tempo sedia uma das diversas cracolandias de São Paulo.

O fluxo, no local e arredores, existe há quatro anos. A novidade dos últimos meses é que o povo do crack tem saído do gueto e circula nos pontos de concentração da Paulista (Conjunto Nacional, Center 3, etc) para pedir grana e sacar o movimento. A crise abre as comportas bloqueadoras do higienismo. A miséria se expande apesar das porradas.

O encontro entre um espaço cultural lindo, limpo e higiênico, grife de algum arquiteto caro, com o maior sintoma de exclusão da cidade, o crack e seus consumos, não é inédito, é uma reedição do combo Sala São Paulo/Cracolandia da Luz. É o momento clichê em que os prédios iluministas encontram as sombras da cidade.

Vamos aguardar as consequências de mais essa convivência forçada da Paulicéia. Na antesala do badalo cultural, os vícios da cidade vivem a sua vida sem verbas, sem exposição e sem vidro temperado pra proteger.

“Querida não, doutora, senhora procuradora.”

Tenho certeza que não é a primeira vez que Lula sofre os efeitos de uma carteirada e a frase acima ele ouviu várias vezes em formas e nuances diversas.

Na condição de (ex) presidente eleito por milhões a arbitrariedade exposta cresce e vira manchete com o escárnio característico da mídia.

Não importa se a procuradora tenha ou não o doutorado, isso é apenas um capricho acadêmico, a titulação está muito longe de ser o cerne da questão. O que choca é a arrogância que prova que o “país dos doutores e das autoridades” nunca morreu.

Com as devidas proporções guardadas, Lula sofreu o que sofrem diariamente os jovens abordados por policiais. A diferença é que o presidente saiu da sala de depoimento andando. Sorte diferente de jovens negros e pobres dos subúrbios que tombam e somem diariamente nas mãos do braço armado desse autoritarismo, o que não relativiza a repressão em ambos os casos.

Portanto, não dá pra falar mais em entulho autoritário, pois entulho é sobra do que foi destruído. O autoritarismo nunca foi destruído. A prova cabal disso é a vigência dos “autos de resistência” (legado da ditadura civil militar) que é utilizado para justificar a violência policial nas ruas.

O artigo 284 do Código do Processo Penal descreve que não é permitido o emprego da força policial, a mesma só se torna indispensável (sic) quando ocorre uma resistência ou tentativa de fuga do preso, nesses casos (que são muitos), a morte e a agressão ficam legitimados.

A carteirada da procuradora e as armas das várias polícias têm causas e efeitos complementares, o dolo pode ser moral ou letal. São legitimadores da discriminação e do tratamento que distingue raça, cor, classe, gênero. Tudo isso não é mero entulho é o alicerce da casa e deve ser devidamente nomeado.

Quem policia, reprime, acusa e julga sob os auspícios do autoritarismo, são peças da mesma máquina. O resultado desse sistema nós sabemos e não é nada cordial.

Cala a boca não morreu.

O affair Santander/MBL/MuseuQueer traz ao menos duas questões importantes à luz do debate:

1 – o avanço do pensamento e de uma ação de direita, de uma direita composta em sua maioria por jovens reacionários;

2 – a ilusão de que instituições do capital cumpram a função de motor principal das políticas e da ação cultural no país.

Não adianta atacar o MBL e passar um pano no Santander. A opressão e a exclusão estão diretamente ligadas às imposições do capital. Juros, concentração de renda e especulação são o alicerce do pensamento conservador.

O que significa uma ação cultural para o Santander? Nada. Aliás, as 800 mil pilas gastas no MuseuQueer foram bancadas por renúncia da Lei Rouanet. Dinheiro público, gozo privado. Não tem mecenato, não tem nada representativo diante dos lucros estratosféricos do banco espanhol.

Muito mais espantoso do que qualquer censura à ação cultural, foi o processo de privatização que em 2000 o Governo FHC em conjunto com seu congênere estadual, Mario Covas (que um dia ainda vai ser canonizado) entregou o Banespa e todo seu patrimônio para o banco Ibérico.

Saco cheio de perceber esses filhotes mal criados de foucault (com o perdão da citação), fazendo discurso destruidor contra o lulismo, muitos deles do alto da proteção e do privilégio das Universidades públicas (agora não tão protegidas assim).

Qual governo traria a possibilidade de construir propostas como a Universidade do Cariri ou a Universidade do Sul da Bahia?

Nesse momento, o projeto da direita é destruir TUDO que foi construído ou iniciado na era Lula. Não precisa ser petista pra perceber isso, basta desviar do umbigo.

O que me causa espanto é ver alguns personagens que cresceram e se criaram à luz dessas possibilidades construídas no período 2003-2013, sendo braço e voz dessa destruição.

A mais grave forma de destruição é a falta de percepção do próprio papel histórico.

Milton Friedman costumava falar que o liberalismo deve sempre estar preparado com uma bolsa de ideias aplicáveis para qualquer oportunidade que apareça.

Isso inclui desastres e fenômenos naturais.

Foi assim que em 2005 ele apareceu na cidade de New Orleans, um dia após a histórica tragédia, e enquanto todos contavam os mortos, feridos e os danos gerais, ele apresentava um plano para privatizar as escolas públicas.

E conseguiu. Antes até que outras obras básicas de salvação da infraestrutura sequer fossem começadas, um modelo de privatização foi aplicado em parte das escolas públicas da cidade, apenas dois meses após a tragédia.

Quem conta essa história é a Naomi Klein no livro “Doutrina do Choque”.

Não tenham dúvida que o “estoque de ideias” está pronto para ser aplicado no pós furacão Irma. Que os paladinos da “competição, mérito e empreeendorismo” estarão a postos para vender suas soluções draconianas. A destruição sempre precede os unguentos da sanha neoliberal. Cidades, serviços e pessoas arrasadas são um laboratório frágil e perfeito para o lucro e a ganância.

Não importa se invasão do Iraque, inundação de New Orleans, furacões e maremotos de diversos nomes, golpes de estado, operações LavaJato , etc, o natural e o superficial são apenas geradores de oportunidade. É preciso atenção e celeridade para preencher os espaços e lucrar.

O neoliberalismo nunca dorme.

“Me contradigo, pois tenho milhões em mim” – a frase bombril de Walt Whitmann.

É preciso olhar detidamente no espelho e perguntar: na masmorra da cidade fria, seria eu Dirceu ou Palocci?

De longe, no conforto, é fácil escolher. Escolhemos o herói, nunca o traidor. No íntimo, no escuro das confissões, somos o mais que perfeito.

Li por aí que a caguetagem de Palocci é o grand finale da “Carta aos Brasileiros. Arrisco dizer que a tenacidade de Dirceu é também. Os efeitos colaterais de um projeto concreto e real de governo.

Envergonhar o traidor e o herói é o contra ataque perfeito. Transformá-los em peças de um julgamento sumário é o maior triunfo de quem quer destruir.

Não vou ser eu quem julgará Palocci, é melhor calar e observar os próximos passos. É inútil mais um tapa em quem está sendo usado.

Pergunto: quem você seria nas sombras do torquemada concurseiro, o herói ou o traidor?

Nesse dilema eu só espero não ser o inquisidor, nem involuntariamente.

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