O Museu do Aljube é um orgulho lisboeta. Sim, Portugal não esconde sua história, nem encobre as chagas vivas do salazarismo. O povo é quem mais ordena…mesmo que haja quem não queira.

As vítimas do Estado Novo, as vozes que foram à morte ou ao calabouço ainda ecoam pela Baixa, Mouraria, Alfama e no mais longe pelo Minho, Alentejo, Ribantejo, Algarves e todo lugar dessa terra.

Não tem forra feita, nem justiça completa, a luta de quem disse não, vence permanentemente pela memória e por essa outra luta contínua de não silenciar.

Da Ditadura à Revolução dos Cravos, não esquecendo do crivo fundamental das lutas anticoloniais (Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Goa, Timor livres), perfila a honrosa trajetória de quem se alinhou ao lado dos trabalhadores e da liberdade.

Emoção grande de de ir Rua de Augusto Rosa na velha Mouraria, sede da polícia política do ditador Salazar outrora, hoje o Museu da Resistência e Liberdade.

Não existe triunfalismo que deva nos cegar. Maduro (Venezuela)e Ortega (Nicaragua)não conseguem governar, Rafael Correa (Equador) foi processado, perseguido e traído por Lenin Moreno, Cristina Kirchner (Argentina)processada, Lula (Brasil) preso e apartado dos seus direitos políticos.

O campo nacional popular está sob o estado de exceção na America Latina. A subversão das regras e o desrespeito aos preceitos constitucionais dos países citados são a força motriz do poder econômico.

Personagens obscuros como Barroso do STF, General Mourão são empoderados com um único intuito de abrir as portas e liberar as comportas do país para o ultraliberalismo.

A mistura de ultraliberalismo com fascismo, que tomou de assalto o debate político e cultural, não é fruto de ignorância e distorção de seus agentes (os intencionais e os involuntários), mas é parte importante da estratégia de dominação do capital.

Para além do debate eleitoral, os rumos do país devem ser vistos sobre esse prisma, como bem assinalou Walter Benjamin:

“A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um novo conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar o verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo.”

Não há tempo, nem gordura democrática para queimar. Desde 2008, o capital avança sobre a democracia e procura de todas as maneiras esvaziar qualquer possibilidade de soberania e escolha do campo popular. Não há como separar a eleição Brasil/2018 dessa lógica e se iludir com seu resultado imediato.

É preciso vislumbrar as possibilidades reais de resistência e organização e levar em consideração todos os recursos possíveis: cabe sim pensar na eleição de uma bancada à esquerda, mas sem esquecer o fomento e o respeito às organização locais e temáticas da luta contra hegemônica, o reforço dos laços ainda existentes com os liberais democratas, o retorno do conceito de solidariedade como balizador da luta contra o fascismo e a fundamental organização dos trabalhadores.

Não é uma luta para acabar em novembro de 2018 ou janeiro de 2019, na qual nomes, números e legendas se encerram. Estamos apenas começando.

Reinaldo Azevedo ocupa um espaço pra lá de vazio e não é de hoje.

A direita civilizada e com texto e preceitos legíveis é um deserto.

E é ai, que há tempos ele se instala.

Confesso que há muitos anos leio Reinaldo. Eu não quero dizer que antevi a distinção que ele representa agora, mas pra mim sempre foi nítido que o ex colunista da Veja, orquestrava habilmente o ódio e a ira militante que tanto fomentou, determinava linha e rumo.

Já faz um tempo que Reinaldo aponta o dedo vigorosamente para a judicialização da política e os estragos causados por aqueles que ele chama de jovens turcos de Banania.

Militante, ele sim anteviu, o renascimento de Lula nas urnas e fora delas embalado pelos algozes de toga, inclusive com a exumação do processo sumário que o colocou na cadeia, com a necessária argúcia e didática.

Ele nunca defendeu e jamais defenderá Lula e o PT, esperava a derrota moral e política dos adversários, e aponta o lawfare e a perseguição jurídica como o motivo da frustração desse desejo.

Ele mudou pra confirmar e ser coerente com o que sempre defendeu.

Reinaldo Azevedo soube ler os enredos e a passagem da história, mesmo que seja na negativa, é sempre bom ler o bom texto e colher alguma lucidez, nesses tempos tacanhos.

Eu não canso de contar as coisas do dia a dia da biblioteca em que trabalho. É claro que acontecem coisas ruins que geram aborrecimento e decepção.

O fato é que eu procuro me ater às coisas bacanas e mesmo àquelas que me fazem pensar e questionar as minhas convicções e verdades.

Muitas vezes as grandes sacadas e revelações veem nas coisas prosaicas e nos encontros que num primeiro momento parecem simples e sem expectativas.

Hoje por volta das 19h eu estava no setor de atendimento trocando uma ideia com o Maurício que é operador de som. Bem pra lá do balcão, um rapaz nos aborda:

– Boa noite, tem sala de música aqui na biblioteca?

– Como assim sala de música? – devolvi a pergunta querendo entender melhor.

– É que eu vi aquele piano ali e achei…

Eu já falei desse piano aqui em outro post, ele fica lá disponível pra quem quiser tocar.

– Ah sim, o piano tá ali, mas não temos uma sala de música, a prefeitura promove oficinas de música, mas é em outro endereço – respondi burocraticamente.

O rapaz perseverou:

– Posso tocar um poquinho?

– Claro, você sabe tocar? – perguntei de um jeito que poderia ter sido mais simpático.

Ele fez que sim com a cabeça e disse contente:

– Poxa, me parece um Fritz Dobbert!!

Ele não só acertou a marca do piano, como sentou e tocou…uma canção com toque bluesy, uma melodia bonita, singular, que encheu a biblioteca de beleza.

Me aproximei e perguntei:

– Que música é essa?

– É minha, não tem nome, eu compus há algum tempo, eu gosto de tocar, mas não tenho piano em casa, toco onde posso, tocava na casa de um amigo. Aprendi há três anos, de ouvido, sozinho.

Era um rapaz jovem e muito simples e só se explica a sua facilidade e desenvoltura diante do piano pelo talento. Eu não tenho capacidade técnica de aferir qualidade musical, mas ouço canções há cinquenta anos, era muito bonito aquilo que ouvi.

O rapaz foi embora e prometeu voltar pra praticar, sorriu contente como sorriem os geniais ingênuos. Eu fiquei ali entre embasbacado e envergonhado pelo ceticismo inicial. E foi mais um dia bom na biblioteca.

Nos últimos dias tenho lido muitos amigos e conhecidos das redes descrevendo seus sonhos. Coincidência ou não, a pauta onírica alheia tem cruzado meu caminho.

Engraçados, trágicos, enigmáticos, essa descrições dos sonhos dos outros, me fazem lembrar o quanto de tempo que eu não lembro dos meus próprios sonhos.

No campo de revelação do sonho alheio, guardo comigo uma história marcante.

Há uns quatorze anos atrás, eu trabalhava na Gibiteca Municipal aqui em São Bernardo. Atendia, atinava umas ações culturais e interagia com um público diversificado que curtia quadrinhos e diversos nichos da cultura pop.

Foi um tempo rico de conhecer personas, seus gostos e manias. Muitos adolescentes de idade e espirito, entusiastas com o lado fantástico do universo. Uns expansivos, outros tímidos, todos com histórias e experiências que aos poucos eu fui conhecido e vivenciando.

Entre eles havia um rapaz tímido que pouco falava. Ficava horas nas mesas da Gibiteca lendo revistas, pouco interagia, um meneio de cabeça era o bom dia, outro era o até logo. Demorei um bom tempo pra ouvir sua voz. Muitas vezes ele se mimetizava entre os heróis Marvel e DC que lhe tomavam a atenção.

Numa das manhãs quaisquer de trabalho, ele entrou bem perto da hora que abrimos, meneou a cabeça de sempre, pegou um gibi e escolheu uma mesa. Até ali o normal. Cinco minutos depois ele se aproximou do balcão e lançou as primeiras palavras completas que ouvi da sua boca:

– É possível parar de sonhar?

Fiquei surpreso com pergunta, pela forma inusitada em que ela veio e por minha incapacidade de dar uma resposta. Respondi com outra pergunta:

– Por que você quer saber isso?

Usei um tom amistoso, não queria espantar o raro diálogo, mas me senti impotente e despreparado diante de tão potente pergunta. Eu mesmo já havia me perguntado sobre o destino dos meus sonhos, visto que eles aparentemente sumiam, era um assunto que me interessava.

Um tempo de silêncio mútuo, mas ele continuou:

– Quando eu era menino eu sonhava bastante. Os sonhos vinham misturados com as coisas que eu lia, eram sobre os heróis, mas também sobre as coisas da escola e da minha casa. Todo dia eu sonhava e lembrava do que sonhava. Um dia isso mudou. Foi depois que meu pai sumiu.

Naquele momento eu dobrei a atenção na conversa, mas permaneci calado, embasbacado. Ele prosseguiu:

– Eu não parei de sonhar depois que meu pai sumiu, mas os sonhos diminuíram muito e eu não lembrava mais como eles tinham sido. Por um tempo, no meio de algo que parecia sonho, eu acordava de madrugada assustado e ouvia meu pai tocando violão. Na real, meu pai não possuía e nunca havia tocado um violão. Logo depois da música parar eu adormecia, o aparente sonho tinha a duração de uma canção.

Fiquei meio atordoado com a súbita eloquência do rapaz tímido e com a beleza triste da história. Pensei em perguntar coisas e tentar entender melhor a história. Estranhamente me calei, decerto, para deixar o rapaz livre pra falar o que quisesse ou calar.

– Depois de um tempo todos os sonhos sumiram. Nem meu pai, nem o violão apareciam na madrugada. Quando eu acordava de madrugada era apenas um silêncio.

– Você nunca mais viu seu pai?

– Não, não o vi mais…

Foi a única pergunta que consegui fazer. A resposta pedia uma sequencia, a história deixava muitas lacunas importantes.

Nunca soube ao certo, se o pai daquele rapaz havia morrido ou sumido de casa. O fato é que aquela foi a nossa única conversa para além dos meneios. Desde então, nem eu,nem ele, tivemos qualquer ímpeto de continuar aquele dialogo. Bastou.

Passou o tempo e as visitas daquele rapaz à Gibiteca, foram rareando, até que ele sumiu de vez. A história e a pergunta do sonho ficaram sem fim e sem resposta.

A única coisa que ficou da lembrança dessa historia no trabalho, foi a impressão de que o pai daquele rapaz tímido tocava e cantava Blackbird dos Beatles naquelas madrugadas de adeus.

Sinceramente, eu não sei se eu inventei ou se eu sonhei essa trilha, mas ela persiste até hoje como se fosse uma verdade sonhada.

Fico pensando se aquele rapaz viu seu pai novamente, ou se ao menos voltou a sonhar

Blackbird singing in the dead of night

Take these broken wings and learn to fly

All your life

You were only waiting for this moment to arise

You were only waiting for this moment to arise

Nós carregamos orgulhos bestas. Eu tenho os meus, confessáveis ou inconfessáveis.

O acaso, o labor, as afinidades eletivas, as nossas agendas, as escolhas promovem nossos orgulhos bestas.

Um dos meus, por demais confessável, foi ter nascido um mês e cinco dias antes do lançamento do álbum Revolver, o sétimo dos Beatles.

No dia 05 de agosto de 1966, as rádios do mundo puderam tocar aquelas canções, Taxman, Eleanor Rigby, Yellow Submarine, For no One, Doctor Robert, I Want Tell You…Tomorrow Never Knows.

A Beatlemania gerou uma série de lendas, opiniões, máximas e mínimas sobre os componentes, as canções, as inovações estéticas e políticas, os suportes técnicos, etc. Todas elas eivadas de gostos e birras pessoais.

Revolver foi a virada dos Beatles, o perfeito registro que expressa a segunda metade da década de 1960. Couberam ali o soul music, o psicodelismo, as drogas, as mazelas e os benefícios do pós guerra.

George Harrison e Ringo Star – so we sailed on to the sun – irromperam ao mundo no Revolver. O Fab foi de fato Four naquelas gravações. O engenheiro de som, Geoff Emerick foi feliz ao entender a necessidade tecnológica de cada canção. O verdadeiro sentido do titulo do álbum, mover, fazia muito sentido naquele 1966.

Vem daí, o orgulho besta do nascimento à sombra dessa passagem da industria cultural, que da maneira possível determinou o que seria feito dali em diante na música popular no mundo.

Eu cresci ouvindo aquelas canções todas, aprendi a gostar de Paul mais do que gostava de John, para depois descobrir George, então entender melhor John, valorizar Ringo, para por fim, admiti-los como um conjunto indissociável.

Me orgulho desse confessável orgulho besta.

E faz 52 anos nesse domingo…

O Centro de São Paulo me é muito familiar. As ruas, as pessoas, o comércio, os lugares clássicos. Há anos eu venho palmilhando seus quadriláteros.

Desde a adolescência gosto de andar na 24 de maio, 7 de abril, Barão de Itapetininga, de preferência no cair da tarde de sábado.

O fim do expediente, dos encontros, hora que a cidade relaxa, esquece um tiquinho o jogo da vida.

O Centro tem seu cadinho de gentes, negros, brancos, índios, mestiços de todos os timbres.

Hoje, 2018, ainda mais panamérica de áfricas diversas, com os nigerianos, os bolivianos, e os vários sotaques.

As lojas fecham, os trabalhadores, as trabalhadoras, vão ao encontro dos seus pares, dos amigos, da solidão, os bares ganham a luz dos diversos sotaques.

Até o SESC 24 de maio, que nas unidades dos bairros da classe média tem frequentadores diferentes, por ser no Centro, tem um público popular, diverso, atípico.

Hoje, por volta das 18:30, parei ali pra tomar um café, e na mesa do lado, um grupo trocava ideias comendo bolo e tomando café.

O assunto era a noite de sábado, cada um com seu plano: família, o forro pra dançar, a igreja, o namoro. Cada cor, cada sotaque, cada vida diferente. As micro histórias da gente dessa terra.

Eu fiquei ali ouvindo a vida alheia. O meu café nunca acabava. Tarde de voyeur dessa gente do centro, que divide comigo, as ruas que eu gosto de andar, e dá sentido pra essa tarde qualquer.

Lá em frente a Galeria Presidente assistia tudo…

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