Azul 29 – Entrevista com Thomas Bielefeld


Em abril de 1982 dois amigos: Thomas Bielefeld (voz/teclados) e Eduardo Amarante (guitarra) se juntaram em sampa para montar a  banda Azul 29. Logo em seguida seguida chegaram Thomas Susemhil (baixo) e Malcolm Oakley (bateria), esses já haviam tocado em outra banda da época, os Agentss. O som dos caras retratava a força da chegada dos sintetizadores e teclados na música pop, podemos citar Ultravox, Visage e o pai de todos: Kraftwerk como influência. Mas o background da banda  era de prog rock e coisas dos anos 70, essa mescla deu personalidade ao som do A29.

O Azul era certamente uma banda diferenciada da cena de bandas xerox de rock inglês da época, cheguei a vê-los tocar ao vivo. Peso e música para dançar, o vocal peculiar de Thomas (que depois foi imitado por outras figuras do rock brazuca) as guitarras bem feitas de Amarante, bons arranjos e letras com uma mescla de situações urbanas e impacto técnologico, afinal ali se iniciava a era digital. Gravaram dois compactos: Olhar em 1983 e Video Game em 1984, músicas geniais como Futuro Já e Ciências Sensuais, infelizmente, ficaram sem registro.

Em 2006 eu tava navegando no orkut e não achei comuna da banda, resolvi montar uma e tive dificuldade até para achar fotos deles na web, coloquei uma foto meia boca do segundo compacto. Foi através dessa parada que eu pude travar contato com o Thomas Bielefeld.

Hoje a comunidade cresceu e tem 229 participantes, e através dela o A29 começou a ser falado de novo, ainda bem. Confiram:

http://www.orkut.com.brMain#Community.aspx?cmm=949831

Abaixo uma entrevista que fiz com o Thomas por email na última quinta feira (25/09), ele vive hoje na tranquilidade do Vale do Paraíba onde pode aplacar o sofrimento indômito que o  Santos Futebol Clube lhe faz passar. Espero que vocês gostem:

KL – Em que contexto surgiu o Azul 29, fale um pouco da época, como era a cena do rock paulista?

TB – A banda Azul 29 foi formada em 1982, época da decadencia do Punk,quando, especialmente na Europa se iniciava o movimento New Wave e começavam a se popularizar os teclados eletrônicos (até o início dos anos 80,os sintetizadores eram enormes e caríssimos). Com a redução drástica de preços e com a portabilidade dos novos teclados aparecer bandas de todos os lados, sendo os ingleses e alemães os ícones deste novo som. No Brasil, a cidade de São Paulo foi a precursora deste novo som, sendo depois copiada pelas bandas pastiches do Rio de Janeiro,que diluiam tudo para caber no formato das então iniciantes rádios operando em Frequencia Modulada (FM). Fato é que havia um tremendo vazio no leque de ofertas de bandas/artistas sintonizados com a modernidade, propiciando então uma grande abertura para novas bandas. As gravadoras estavam desesperadas para não perder espaço e estavam à procura de novas bandas que oferecessem o que a juventude de então,a ntenada na Europa,queria. Foi neste contexto queAzul 29 foi convidado para gravar pela WEA (Warner Bros). Isto aconteceu em 1983,sem que nós jamais tivéssemos feito um Show ! Foi um momento mágico que trouxe bandas como: Agentss; RPM; Fellini ; Voluntários da Pátria; Ira !; Metrô. Toda esta efervescência acabou atraindo outras bandas que acabaram se firmando no cenário nacional como : Ultraje à Rigor;Titãs (então chamado Titãs do Ié,Ié,Ié); Capital Inicial ; Plebe Rude e Legião Urbana. O resto é história…

Ensaio – 1983

KL – Fale sobre os primeiros shows da banda?

TB –  Nosso primeiro Show, inaugurando a casa Napalm, foi um desastre de público (não havia mais de 100 pessoas), mas valeu pois foi onde conhecemos o então desconhecido João Gordo, da banda Ratos de Porão e que acabou nos ajudando muito, especialmente no “cross-over” com o público Punk. Diferentemente das demais bandas da época, o Azul 29 era respeitado pelos punks (eles até fizeram nossa segurança em diversas ocasiões). Daí entramos no Circuito dos Jardins (Pub Victoria;Rose Bom Bom;Clube Paulistano etc…).As apresentações no Rose Bom Bom ficaram famosas e éramos a banda que mais lotava a casa, reduto de jornalistas; modelos;mauricinhos e patricinhas. Daí começaram os convites para Shows maiores e também problemas de agenda, pois não se pode esquecer que éramos uma banda de amigos que tocava por hobby e não por interesses comerciais. Tínhamos nossas profissões e compromissos, o que impossibilitava  de sairmos em turnê, distante da cidade de S.Paulo.

Flyer Madame Satã – 1984
KL – Como foi gravar os compactos numa época em que se pouco gravava rock no Brasil, tampouco o rock com elementos eletrônicos que vocês faziam?

TB – No início dos anos 80, o rock tupiniquim estava morto e, como disse anteriormente, as gravadoras estavam sedentas por novos artistas ou, pelo menos para não deixar outras gravadoras tomarem seu mercado. Isto acabou criando “Contratos de Gaveta” ou seja : contratavam uma banda só para que ela não fosse contratada pela concorrência e acabavam não divulgando seus contratados, dizendo que seriam bandas para o futuro…Para se ter uma idéia, ficamos sabendo do lançamento de nosso primeiro CS (compacto simples) por terceiros e, pasme, com uma capa que nada tinha a ver com a que foi criada por Ingrid Trost especialmente para o disco. Pior do que isto é que o pessoal contratado pela gravadora para fazer a capa, não tinha a mínima idéia do que seria a tal da New Wave…ou seja : é uma capa medonha que não traduzia o movimento, o pensamento nem tampouco a estética da época. Diante disto resolvemos não divulgar o compacto, à ponto de não tocarmos nunca mais suas duas músicas (“Metrópole” e “Olhar”). No segundo disco já fomos tratados com mais respeito e a música “Vídeo-Game” acabou sendo incluída na trilha sonora do filme “Bete Balanço”, em 1984.

No estúdio gravando Video-Game

KL – O que vocês ouviam à epoca e o que você ouve hoje?

TB –  Curiosamente,os quatro membros da banda,sempre ouviram Rock Progressivo,mas com a decadência do gênero no final dos anos 70 ouvíamos muito : The Cure”; “Chameleons UK”; “Original Mirrors”;” Ultravox”;” Wire”; Echo & The Bunnymen” entre muitos outros. Continuo ouvindo todo o tipo de Rock,do mais elaborado progressivo ao Neo-Folk até algumas bandas de Black Metal. Confesso que nos últimos anos os países nórdicos são os que mais novidades de timbres e composições tem trazido.
Para não ficar listando minhas preferências, se alguém tiver interesse em saber os sons que eu mais gosto,basta visitar o site : www.gnosis2000.net onde participo como um dos avaliadores de música perene, inovativa, criativa e que rompe fronteiras da mesmice do Pop. No Gnosis somos uma verdadeira Legião Estrangeira, que avalia música,num interessante sistema estatístico. É tudo grátis.

KL- Fale um pouco sobre a cena musical atual.

TB No Brasil ???  O que dizer num país onde em pleno 2008 os maiores premios (Tim;Shell;Sharp – ainda existe ? e outras baboseiras) vão para Caetano;Gil; Maria Bethânia e as “revelações” são NX Zero e Fresno ??? Um país onde acham,r epito em 2008, quem é o máximo é o Patinho Quém-Quém (João Gilberto) atrasar para um show, e todo mundo achar bárbaro?  É bárbaro (sic) mesmo. Ou então colocar o show do Roberto Carlos com Caetano Veloso como o Top da temporada??? Tem dó…Marcelo Camelo (ex-Los Hermanos—dita independente…quá,quá,quá—só querem dinheiro e baixar o nível). Cantoras brasileiras então , só se forem lésbicas ou Lesbo-Chic…Mas no mundo ,acho que vai bem (vide minha resposta 4).

KL – O que ficou com a experiência do A29?

TB – Ficou uma experiência deliciosa de fazer o que gostávamos para um público que adorávamos.Esta interação foi gratificante, mesmo a banda não sendo profissional.Aliás isto é que foi muito prazeroso : dividimos o que gostávamos com quem queria ouvir,sem quaisquer interesses profissionais.

Agradeço o interesse sobre o Azul 29 e, estou à disposição,especialmente p/ aqueles que utilizam o Orkut, que podem utilizar nossa comunidade (Azul 29 – O Teu Nome Em Neon) para ter acesso à todo nosso material,grátis.Outro caminho para conhecer algum trabalho do A29 é o YouTube.É só entrar lá e pesquisar “Azul 29”.Será um prazer.

À você, Ricardo, agradeço por ter criado a comuna,que resgatou nossa banda.

Azul 29 – Futuro Já (Gravado ao vivo no Festival de Aguas Claras/1984)



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2 comentários
  1. Muito bom ler a entrevista com o Thomas e saber mais do Azul29. Realmente, quando o klaxon me mostrou a banda nem acreditei que era brasileira. Foi numa época meio doida em que o Guilherme Isnard estava hospedado lá em casa e o klaxon também apareceu de última horal. O Zero estava de volta e ia fazer um show conosco no Matriz, casa de shows aqui de BH. Foi a maior zueira, muitas histórias do início da década de 80 e das bandas que alí surgiam.

    Logo depois disso o Ricardo me passou algumas músicas do Azul29, das quais virei fã de Ciências Sensuais. Depois que a comunidade no orkut engrenou tive acesso a todas as músicas, vídeos e histórias. Inclusive as capas e flyers são muito legais pra quem se liga em arte e design. Todo um conceito que está de volta com tudo agora estão explícitos ali naqueles registros.

    Eu acho que disso tudo fica mais um alerta sobre a música aqui no nosso país. Nós do EnjoyLive estamos tentando aumentar os nossos downloads na net e até isso está difícil.

    Concordo com o Thomas sobre as bandas nórdicas, com certeza o mais criativo e não é só das bandas pesadas que eu digo isso.

    Vida longa ao Azul29! Aquela versão não foi esquecida!

    abs!!!

    stemamo.

  2. André Girardi disse:

    bem legal Ricardão…gostei!

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