O china folgado falando do seu compadre negão


Abro espaço no blog para o meu camarada Liu Say Iam, residente numa maison no litoral paulista, tradutor de legendas de filmes de Kung Fú, sociólogo, ceramista e principalmente um cara bacana.

Fã de música convincente, o china folgado escreveu essa homenagem à James Brown logo depois do passamento do rei do soul.

Ah, já ia esquecendo, o Liu acabou de lançar um livro: Segredo da China, confira nesse endereço:

http://macunaimanews.blogspot.com/2008/10/segredo-da-china.html

Dedico este post ao meu brother Nino Brown, presidente do fã clube James Brown Brasil, representante da Zulu Nation Brasil e admirador de soul music.

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Tardiamente publico as palavras do china escriba, antes tarde…


Um negão folgado


Por Liu Say Iam


Sempre dentro do princípio de celebrar os descerebrados seresteiros do apocalipse, lá vai um exemplar perfeito de maluco-beleza-doidão-irresponsável, cheio de aptidão pra se meter em rolos com polícia, mulherada, colegas, imprensa e consigo mesmo.

Em tempos de Pelé e Condoleeza, dá gosto termos visto um negão folgado que nunca quis ser exemplo pra criancinhas, nem pra própria raça. Ao contrário, viveu e morreu feito o desvairado que era, saco de pancada de burocratas analistas do comportamento.

Gauche involuntário, às feições de Muhamad Ali, Charlie Parker, Mike Tyson ou Diego Armando Maradona, a figura chamada James Brown foi persona non grata nos salões da vida pública, atirando pelo ralo milhões, mulherões e mansões, que auferia com facilidade igual com que detonava.

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Nasceu em Barnwell, aos 3 de maio de 1933, o mano, no estado de Carolina do Sul (primeiro estado norte-americano a se rebelar contra Lincoln e iniciar os Estados Confederados que levariam à Guerra da Secessão), no auge da recessão econômica e em meio rural com fazendas de algodão e tabaco, onde negro valia um pouco menos que piolho de cachorro.

Daí que se imagina: o cara ou pira, ou vira marginal barra-pesada, ou preacher da comunidade negra. Pois o nosso “herói” incorporou as 3 coisas, com o agravante de trazer nas veias o vírus do swing, misterioso dom de integrar-se aos fluidos rítmicos da natureza, como se os sugasse do chão, da terra agreste onde se intercomunicam África, Américas, Europa, Ásia e Oceania.

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É fácil deduzir que cedo começou a freqüentar reformatórios e canas pelos arredores da costa sudeste por não ter saco pra colher algodão, passar graxa em sapato de bacana, nem figurino pra balconista ou coroinha. O que neguinho enjeitado e ferrado faz em situações tais (além de roubar)? Tenta as carreiras de boxeador, jogador de beisebol, futebol, ou qualquer outra atividade que lhe abra frestas de esperança para um futuro cheio de grana, birita e gatas; porque caras assim não têm paciência de esperar, bater cartão, carregar madeira em obra ou dormentes em ferrovia. São caras iluminados por alguma coisa que só eles entendem, e ou descobrem a que vieram ou se acabam nas beiras de estrada ou nas sarjetas de cidade.

James Brown sobreviveu, apesar de perna-de-pau nos esportes, ex-trombadão e pinguço em tempo integral. O que o salvou é o que vem salvando transgressores, bandidos, anti-sociais e psicopatas, no decorrer da história: the sound of music. O cara tinha música por herança genética, dança por atavismo e ritmo por privilégio orgânico. Um animal musical, monstro dançante.

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Tipo desse cai de pára-quedas numa das incontáveis igrejinhas protestante de negões no interiozão sulista, em meio a farms, barns e bars, daqueles pregadores com voz de trovão e coral mandando ver gospel como se estivesse num palco de vaudeville, ou seja, cultos a Deus cheios de molho, ritmo e balanço. Aquilo, mais do que o sagrado verbo, deve ter escancarado a porta secreta da alma do moleque transgressor, explodindo por soltar todos os santos e demônios.

Dali partiu pro gospel e, estando sempre cheio de olheiros, ou ouvidores, as igrejas e clubes do pedaço, deve ter sido fisgado por um caça-talentos de sorte e encaminhado aos botecos à beira do rio, onde sem dúvida a voz poderosa e a originalidade logo fizeram dele atração, chamando a atenção dos empresários e produtores, naqueles tempos áureos de massificação fonográfica.

Note-se que no mesmo entorno geográfica, e quase à mesma época, explodiram fenômenos musicais com a força de, por exemplo, Elvis, Little Richard, Chucky Nerry, Lerry Lee Lewis, Johnny Cash (Bob Dylan viria logo depois) e tantos outros, todos de ascensão meteórica, infância problemática, desajuste social e ligados, de uma forma ou outra, às batidas de raiz negra e “caipira”: gospel, spiritual, soul, blue, jazz e folk.

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Em 1950, já com banda montada e carreira profissional, passou a bagunçar os palcos com apresentações encharcadas de swing, virtuosismo e alta voltagem erótica. Grava um primeiro compacto em 1956, emplacando seu primeiro hit “Please, Please Please”; mas veio a explodir definitivamente na década de 60, ao definir sua persona artística, dançando feito um deus pagão dentro de roupas espalhafatosas e soltando um vozeirão tão irresistível quanto versátil, pontuado por graves, agudos, berros, gritos e sussurros.

Virou a fera incontrolável com o qual o público estranhava, mas delirava. Foi a década em que gerou as definitivas “I Feel Good”, “Papa is Gotta New Bag” e “Say it Loud: I’m Black and I’m Proud”, dos maiores clássicos soul, estilo negão, carregado, malandro, balançado e erótico. Impossível ouvir parado, quieto, indiferente.

O homem foi precursor. Suas desmunhecadas e safadezas fizeram a cabeça de futuros ícones. Seguidores confessos são Michael Jackson, David Bowie, Mick Jagger, Tina Turner, Madonna, entre outros, além de mobilizar a black music nossa, através de gente como Benjor, Tim Maia, Simonal, Gil, Tony Tornado, até a galera atual do funk, hip hop, rap, dance e outras modalidades afro. Tudo isso fez James Brown, enquanto aprontava rolos contra empresários e contra a própria banda, afora internamentos em clínicas de desintoxicação, sumiços misteriosos e retornos em alto estilo. Enquanto pôde subir rebocado num palco, nunca deixou de brilhar, honrando o apelido, que ganhou devido a uma canção sua: “Sex Machine”.

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Foi encardido a ponto de bater as botas logo na noite de Natal de 2006, só pra encher o saco de médicos, enfermeiros, papa-defuntos, amigos e parentes. Morreu por conta de seqüelas de uma pneumonia, mas muito mais pelos excessos que cometeu a vida toda. Vai saber como durou tanto!

De qualquer modo: arruaceiro pra alguns, safado pra outros, obsceno pra muitos, neurótico pra maioria, foi, para todos, gênio. Alguém que deixou uma larga avenida a ser seguida, e cuja influência vai durar ainda muito tempo.

Só resta socar os punhos dos manos, botar “I Feel Good” a todo volume e tentar uma rebolada secreta, agradecendo: “Valeu, negão folgado”!

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Valeu, Liu!!

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4 comentários
  1. Tadeu disse:

    Isso mesmo, artistas populares.
    Li em algum lugar que o pai da Marvin Gaye matou ele, achei isso extremamente cool, o fim mais orginal de um star.

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