Slade: Barulho e Diversão


A primeira vitrola que tivemos em casa era um Gründing, o que veio antes não sei, não estava presente. Depois veio um terrível som  da CCE (que vivia dando pau). Qualidade de som não era o forte. Mas eram os discos que importavam, alguns eram amados pela família toda, outros nem tanto … A casa era plural, samba, pop, trilhas de cinema e novela. Com o meu aparecimento, o barulho começou. Devagar fui compondo uma coleção dos primeiros barulhos.

Alguns desses barulhos, como disse eram menos populares na família do que outros. E se  fosse perguntado a minha mãe qual banda que ela mais odiava e o disco mais temido, sem dúvida viria: o Slade de capa vermelha.

E já vão longe as tardes pós-escola quando eu chegava e colocava pra tocar em volume insuportável:  Slade Alive! Eram exaustivas audições , aqueles momentos tinham como marca incontestável a estridente e ágil guitarra de Dave Hill, os vocais roucos e sempre no limite de Noddy Holder e a corrente adrenalina juvenil. O Slade carregava uma aura de se adiantar ao punk, em som rude e direto, o que o rock trazia de rudimentar e básico. E barulho, muito barulho.

O disco gastava agulhas…

Lado A  começa suave com a música do Alvin Lee “Hear me Calling” que já no final com as guitarras dobradas aponta a barulheira que virá pelas faixas com “In Like Shot From My Gun” (uma das preferidas). Uma parada para a balada de John Sebastian (do Lovin’ Sponfull) “Darling Be Home Soon”, onde o vocalista Noddy Holder surpreende a todos com um arroto extemporâneo, finalizando o lado uma música retirada de um compacto “Know Who You Are”.

Lado B explode a pauleira trê faixas:  “Keep on Rocking”, “Get Down and Get with It” e no final uma das mais bacanas versões da malhada “Born to Be Wild” do Steppenwolf. Esta é a sequência mais ruidosa e cheia de emoções que marcou o limite da paz caseira e me levava ao delírio ao tocar guitarras imaginárias. Na real o som vinha do que Chuck Berry, Little Richard e outros precursores, haviam feito vinte anos antes, acrescidosmuito mais decibeis e distorções.

O Slade saiu de Wolverhampton, Inglaterra, rapazes da classe operária, de início eles se chamavam Ambrose Slade e carregavam o peso e a responsabilidade de serem conterrâneos dos Beatles, influência inapelável, juntavam a isso os também presentes r&b e soul que encantavam a garotada inglesa. Após um confuso momento skinhead, movimento influente naquele momento (o famosa Spirit 69), mergulharam de cabeça no glam rock e emplacaram dezenas de hits nos anos 70. Para tal tiveram um grande auxílio do produtor Chas Chandler, baixista da formação original do The Animals, assinaram com a Polydor, e cairam na estrada.

Com roupas brilhante, botas extravagantes frequentaram com singles as paradas e tocaram bastante em rádios:  “Coz I Luv”, “Look Wot You Dun”, “Gudbuy T’ Jane”, “Take Back Home”, “Mamma We’re Crazy Now”, “C’mon Feel The Noyze”, “Far Far Away”, ” Merry Xmas Everybody”, “Everyday” …

O Slade foi uma das bandas mais populares dos anos 70, em especial no Reino Unido, teve e ainda tem milhões de fãs pelo mundo. Odiados pelos críticos e amados pela rapaziada. Eles não tinham o padrão estético de rock stars, pareciam mais operários desajeitados, ornados com botas plataforma, roupas extravagantes, lantejoulas e aquele sorriso irônico pairando sobre tudo. Fanfarrões e divertidos.

Me diverti demais correndo os sebos do centrão de sampa para procurar os albúns da banda: Sladest; Slayed; Old, New, Borrowed and Blue; In Flame; Nobbody’s Fool; Whatever Happened to Slade; Alive 2 ... ouvi o Slade pela primeira no final de 1979, a banda já não era tão popular aqui e os discos iam sumindo das prateleiras. No meio da busca tantas outras bandas e discos caíram na minha mão, muitos acidentalmente, todos ajudaram a formar uma discoteca completamente anárquica.

Noddy Holder esgoelando e clonando os cantores de blues e rock and roll com bastante volume, alguns enxergam semelhanças no seu jeito de cantar com Screaming Lord Sutch, cantor inglês dos anos 60.  Jim Lea emprestando algum brilho no baixo, teclados e arranjos.  Dave Hill usando todos os clichês possíveis e imagináveis na guitarra, ainda assim com riffs geniais. Don Powell na batera, um Ringo mais etílico.

Slade ilustrou o começo da minha vida musical.

A diversão incontidas dos caras gerou muitos fãs que logo seriam ilustres e gerariam barulho próprio: Gene Simmons (Kiss), Dee Dee e Joe Ramone, Kurt Cobain, Lemmy Killmister (Motorhead), Andy Taylor (Duran Duran), Noel Galagher (Oasis), o Slade, sem vaticínios, é uma das bandas que mais influenciaria a sonoridade crua do punk, muito por suas performances ao vivo, básicas e barulhentas.

Eles caprichavam no inglês proletário (cockney) linguagem das ruas, cantavam como os fãs falavam, fizeram várias giros pela Europa e outros lugares do mundo, ficaram ricos e populares. Quando vemos os clipes antigos e imagens de shows,  podemos observar a banda se divertindo, coisa rara no  business rock, onde,  sucesso, glória e tédio se confundem, se misturam, para gerar figuras mal humoradas, megalomaníacas e taciturnas.

No final dos anos 70 a avalanche punk ironicamente fez o Slade parar e se recolher, eles voltaram em 1980 numa apresentação do Reading Festival. Renascia mais pesada a banda glitter. Lançaram em 1982 o álbum Till Deaf do Us Apart ,neste recomeço aconteceu algum sucesso nos EUA com a balada “My Oh My” e “Run Runaway”. Seguiram até 1987, e logo após lançarem o álbum Rogues Galery se separaram e nunca mais a formação original se reencontrou.

Dave Hill e Don Powell prosseguem até o momento com o Slade 2 tocam pela Europa, e ainda curtem a velha sensação de gigs, fãs e a vida rock and roll.  Jim Lea  grava esporadicamente tendo lançado o álbum Therapy em 2007. Noddy Holder, a voz/alma do Slade tem um programa na Picadilly Radio Manchester, atua em peças de teatro e participa de alguns programas de TV.

Slade é a minha banda preferida até hoje. Ao escutá-los uma carga de lembranças e de episódios voltam a ter vida, bons e ruins. História.  Os vinis e cds estão jogados em algum lugar da casa, mas não sairão daqui. Se você nunca ouviu Slade, e pretende, não espere uma banda genial que mudou os rumos da música. Slade mudou a música, sim, mas a mudança foi tão barulhenta que quem estiver do seu lado vai reclamar ou … amar. Valeu, Slade!!

C’mon Feel The Noyze!!!

So cum on feel the noize

Girls grab the boys

We get wild, wild, wild,

At your door

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5 comentários
  1. Tadeu disse:

    Juro que estou baixando algumas músicas desse “tal” Slade.
    Abraço.

  2. Mario disse:

    Meu caro, vc é um saudosista como eu. Parece até que seu texto foi escrito por mim.

    Sou fã incondicional deles. Grato pelas informações.

    Abs.

  3. A melhor banda de rock de todos os tempos…..injustamente esquecida pela midia através dos tempos, principalmente nos EUA e aqui no Brasil.

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