Oswaldeando


Pois é, Oswald de Andrade é o homenageado dessas páginas onde me divirto e procuro compartilhar coisas. Ele sempre me auxilia com sua verve desmedida e meritória. O poeta cravou em suas idas e vindas ideológicas, em suas contradições de busca, permanente desespero e frutífera esperança pela compreensão e ação no mundo. Palavra e história combatentes, Oswald sempre necessário.

A história parecia seguir nos modorrentos anos 90 um caminho unívoco: liberal, de mercado e nesse tom, irrestrita. Todos os murmúrios “anti” soavam como ladainha de ultrapassados, choramingo de perdedor, coisas de “dinossauros esquerdistas”, anomalias ambulantes vivendo um passado já há muito concluso. Um lado venceu e o resto que aprendesse a perder. Tempos chatos.

Lembro de certa vez que eu estava fuçando cds em oferta numa loja (é, existiam lojas de discos nos anos 90) quando ouvi alguém afirmando ter lido na Folha de São Paulo (sim, a tal da “Ditabranda, argh!) que o economista Roberto Campos era um incompreendido, que aquele momento o mundo, livre dos ranços esquerdóides o recuperaria (retratinho 2×2 de uma época). Acabara de sair uma autobiografia de Bob Fields pela Topbooks, onde um dos membros do think thank ditadorial contava sua trajetória, entre piadas e proselitismo. Roberto Campos morreu, o livro é encontrado nos dias de hoje encalhado em sebos (é, nos anos 00 ainda existem sebos). Isso não quer dizer que o mundo melhorou, o Meirelles por exemplo, segue impávido defendendo os interesses do capital em pleno governo… Lula.

Os anos 90 acabaram, mas a história continuou. Continuou sim, com Gilmar Mendes, João Ubaldo, Jungmann (será que é isso), Arthur Virgílio (verdadeira lenda amazonense o “virgem dos votos de menos”), Demétrio Magnolli, Otávio Frias Filho (firme na tradição do papai), Azeredo,  Sarkozy, Netanyahu, Agneli, Hebe Camargo, Civita, os filhos do Marinho (essa lista é monocromática), FHC (o demiurgo estrategista)  e toda essa gente desbotada que mostra, e como, o seu valor. Há muito ainda o que combater.

Putz, como é chato falar dessas coisas, soamos sempre maniqueístas e arrogantes. Dane-se, creio que temos que tomar partido. O mundo passa e as idéias … passam, mas não vivemos  sem elas.

Ah, já ia esquecendo o Oswald, mestre. Sempre ele e com ele nós tocamos a bola , e é de bom tom recusarmos a pecha de “satisfeitos”, esta tudo por fazer e nada foi conquistado. Os fantasmas nem mesmo morreram.

“O sarcasmo, a cólera e até o distúrbio são necessidades
de ação e dignas operações de limpeza, principalmente
nas eras de caos, quando a vasa sobe, a subliteratura
trona e os poderes infernais se apossam do mundo em
clamor.”

Oswald de Andrade

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5 comentários
  1. OSWALD MARCOU NÃO SÓ PELA SUA POSTURA NACIONALISTA, É NAQUELE TEMPO SE LUTAVA POR ISSO, COMO TAMBÉM PELO TEOR EXTREMAMENTE ÁCIDO E GENIAL DE SUAS PALAVRAS. SÃO CARAS GENIAIS COMO ELE QUE DEIXAM A MEMÓRIA LITERÁRIA E INTELECTUAL DO PAÍS EM ETERNA EVIDÊNCIA…LÁ FORA, É CLARO.

    • Ricardo Queiroz Pinheiro disse:

      Toninho, valeu a participação!

  2. Hebe Camargo?
    O pior é que sarcasmo a cada dia se torna mais necessário necessário.
    E é uma pena que pessoas que o pratiquem o tempo todo não sejam compreendidas.
    Abraço.

  3. luzete disse:

    Gostei desta oswaldeação. vc tava inspirado, hein?
    muito, muito bom.
    dá até vontade de dizer: bons tempos aqueles, mas… será?

    aí eu lembrei das palavras do Pedro Nava que dizia que a experiência é como o farol de um carro, voltado para trás: ilumina o trajeto percorrido, mas não aclara o futuro…

    não, mas até acho que ajuda a pensar o futuro, mas não dá a receita…
    abração, ricardo

    ps. gostei também da entrevista aí embaixo. esta moça é uma gracinha e inteligente.

    • Ricardo Queiroz Pinheiro disse:

      Oi Luzete,

      obrigado pela visita e pelos comentários. Acho que os bons tempos são sempre aquele em que vivemos, só nos basta transformá-los em…bons.

      abraços

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