A volta do China com Altman


Abro espaço novamente para um colaborador estimado: o imperador do litoral sul, Liu Sai Yam. Ele já deixou registro por aqui falando de James Brown:

https://klaxonsbc.wordpress.com/2008/11/06/o-china-folgado-falando-do-seu-compadre-negao

Liu pertence ao paraíso dos diletantes (como eu), falamos de tudo e de nada, a responsa é maior: erramos pacas. Sua página na comuna do Nassif prova que o china é corajoso. Expôe-se:

http://blogln.ning.com/profile/LiuSaiYam

Vamos lá, Liu aqui discorre sobre o que mais gosta, o cinema, suas derivações e diálogos . Robert Altman, o homenageado. China escreveu isso no clima do pós-morte de Altman em 2006. O que ele escreveu não tem data, assim como a produção de Robert Altman.

Obrigado Liu!!

Cenas de um grande cinema


A pop-star desfiando lânguida canção country arregala os olhos ao levar um tiro em pleno palco, em Nashville; três garotas ouvem Keith Carradine cantar “I’m easy”, cada qual julgando dedicada a si a canção, no mesmo Nashville; a mãe WASP caipirona da noiva despenca escada abaixo na mansão do pai carcamano do noivo, em Cenas de um Casamento; a soldadesca safada arma uma réplica da Santa Ceia, em MASH; a dona de casa na pior atende com voz sexy o cliente de tele-sexo, ao mesmo tempo em que dá mamadeira ao bebê, enxota o filho que está detonando a casa e cuida de panelas no fogo, em Short Cuts; Neve Campbell fratura o tornozelo em cena aberta, justamente na sua noite de estréia como bailarina-solo, em De Corpo e Alma.

Cenas que não saem da memória, telas vivas com graus tão complexos de significado (em sua aparente simplicidade) que nos marcam feito ferro em brasa, balançando e modificando nossas visões, bagunçando nossas idéias, informando-nos de que há saída para o cinema e, por tabela, para a humanidade. Se cada um desses seres tão frágeis saberá reagir dando a volta por cima, armados de um sorriso ou uma lágrima; por que nós não?

Robert Altman foi herói (por motivos equivocados) de uma geração acuada por guerras-frias, mornas e quentes cuja única saída foi incorporar modalidades várias de desbunde, niilismo, e radicalismo. O debate ideológico intenso produziu vítimas de diferentes estaturas. CCC e TFP contra UNE e CPC, Black Panthers e KKK, MacGovern e Nixon, Khmer Rouge e Unita, esquerda e direita, reacionários e revolucionários todos contra reformistas, revisionistas e conformistas, a maioria silenciosa, a mass media, o ingênuo pacifismo de Hair, a virulência estilizada de Bonnie & Clyde, a desilusão existencial de “Cabaret”, a explosão psicótica de Taxi Driver, o acachapante auto-reconhecimento de Midnight Cowboy e Deliverance, crime como empreendimento familiar em Godfather, até o prenunciar da euforia consumista-yuppie de Saturday Night Fever. Foram tempos de Robert Altman.

Barra, hein? “Paz e amor” pontilhavam o discurso da resistência jovem a um mundo incapaz de oferecer respostas (ou oferecia demasiadas respostas), mas ódios, rachas e quebradeiras faziam parte do cotidiano. A afirmação de uma idéia parecia somente efetivar-se na negação absoluta de todas as outras idéias, e isso explicava a altíssima voltagem com que se confrontavam as ideologias. Pois em meio ao caos se fez arte, grande arte. No caso específico do cinema, pontificaram figuras controversas, profundamente geniais, como Godard, Bertolucci, Buñel, Kubrick, Scorsese, Monicelli, Fellini, Antonioni, Malle, Truffaut, Bergman, Oshima, Kurosawa, Ozu, Pasolini, Glauber, a lista é infindável que bem ilustra a efervescência cultural da época e a proliferação de modos originais de olhar, mostrar e tentar transformar a vida.

Agora, se no conjunto de notáveis acima sempre se pôde detectar um estilo pessoal, uma visão crítica e intenções precisas ao encaminhar soluções político-existenciais aos personagens, tivemos esse grande Altman que, sem prejuízo das qualidades citadas, deixava (parecia deixar) os personagens fluírem por si, e talvez por isso, enquanto os personagens da constelação acima nos incutiam admiração, repulsa, apoio ou inquietação, os de Altman conduziam à cumplicidade e (que seja) afeto.

Com seu estilão meio hippie, de Buffalo Bill misturado a Walt Whitman, figura mais de personagem que diretor, tinha um estilo de alinhar vidas e acontecimentos sem maneirismo nem firulas, liberando rédeas e deixando o ator viver uma vida, como o vôzinho enfileirando “causos” com a naturalidade de um papo à mesa de jantar, recordando e rindo com imensa camaradagem e ternura.

Isto era Altman, lidando com multidões de dezenas de personagens, cada qual com suas fraquezas, seus medos, suas banalidades, cada qual se encorpando aos poucos, adquirindo estatura humana, enfim, existindo. E tudo flui tão fácil que fica tentador tomar o partido dos que o dizem cineasta mediano. Esse raciocínio peca exatamente porque vovô Altman tinha empatia com os seres medianos – nós todos, não é? – e filmar existências medianas conferindo-lhes auras de grandeza não é para qualquer um. Tanto que enquetes entre os próprios diretores sempre apontaram Robert Altman como o preferido da maioria deles.

Porque era visível no trabalho de Altman, a despeito do sarcasmo iconoclasta com que enxergava as relações sociais e o poder (o que lhe deu injusta fama de cético), uma profunda fé no ser humano. Apenas quem crê tem subsídios para zombar e amar, ao mesmo tempo. A arte de Altman de profunda aversão às várias formas de controle, autoridade e hipocrisia está toda centrada na abertura de possibilidades, no princípio de que o homem é animal dotado de humor, capaz de atos mesquinhos, ditados por egoísmo e medo, tanto quanto de impulsivos gestos de audácia e nobreza.

Quando tudo parece perdido nas trevas do horror, acima da desesperança e da perplexidade, de algum lugar haverá de surgir o cantar de uma pequena voz, a princípio trêmula e esganiçada, mas que irá crescer de modo gradual, firme, belo e limpo, a declarar por todos nós: “You may say that I ain’t free, but it don’t worry me”.

Don’t worry, vovô Altman, o sonho (ainda) não acabou.

robertaltmanrip

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3 comentários
  1. luzete disse:

    me juntando à turma dos diletantes, mas reponsáveis, né?
    a gente toma cuidado com as palavras.a gente sabe que elas machucam…
    mas Liu, você não me admira mais. já estou admirada faz tempo.
    eu falei prô ricardo (onde, hein?) que seu texto era premonitório. aliás, todo bom artista antecipa acontecimentos. e o liu faz isto.

    parabéns. o texto traz uma reflexão muito boa, mesmo para quem não gosta de cinema. ou de Altman.

    • Ricardo Queiroz Pinheiro disse:

      Opa Guilherme,

      como tá meu camarada?

      abraços

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