Custódio Mesquita – Um arrumadinho no bom samba.


Apenas parte dos artíficies do que se pode chamar “moderna música popular brasileira” são incansavelmente propagandeados por todas as mídias. Não acho que isso sobrevalorize ou desvalorize alguém, mas vulgariza discussões mais complexas. Omissoes sao a regra, descaso com fatos e descontextualizacao sao constantes.

A necessidade de hierarquizar nomes e importâncias, faz com que sutilezas passem despercebidas e alguns autores sejam esquecidos pela falta de rótulo para serem enquadrados e mesmo pela complexidade de suas obras.

Fala-se bastante da era de ouro da música brasileira (décadas de 30 e 40 do século passado), mas  é bem raro entrar-se em pormenores, as delicias da nossa música  ficam para os persistentes e podemos buscar nos historiadores e jornalistas, como Tinhorao, Sergio Cabral, Vasco Mariz e dentre outros, fica tudo na escala dos iniciados e as pérolas lindas são pouco ouvidas e divulgadas.

Um exemplo desses “esquecidos” é compositor, pianista carioca, Custódio de Mesquita Pinheiro.

De família rica e boa pinta, nascido e criado nas Laranjeiras, Mesquita se notabilizou por suas canções em parcerias com: Mario Lago, Evaldo Rui, Hervê Cordovil, Noel Rosa … e pelo esmero  e sofisticação com que tocava piano e bateria. Sua vida, devido a extrema discrição, é recheada de histórias obscuras e teses controversas. Boêmio e relaxado nos estudos, achou na música guarida e campo fertil para exercitar seu talento.

Formou-se regente pelo Instituto Nacional de Música, mas antes disso ja se notabilizara  por compor sambas, fox e marchinhas , nunca deixou de andar com sambistas e com o pessoal de teatro (foi vice-presidente e fundador da SBAT) que à época representavam o supra sumo das más companhias.

Esse transito entre o popular e o erudito, deu-lhe munição para misturar harmônias sofisticadas com letras populares e ritmos diversos. Sutilmente, era dado um grande passo na música brasileira, esta síntese fundamental. Sem maiores delongas, suas canções provam isso. É so ouví-las.

O primeiro sucesso de Custódio, letra e melodia do próprio, foi lançado no carnaval de 1934, “Se a lua contasse” :
Tudo que vê
De mim e de você
Muito teria o que contar
Contaria que nos viu brigando
E viu você chorando
Me pedindo pra voltar

Compôs musicas que ficaram  bem conhecidas como Nada Além, em parceria com Mario Lago (na voz de Orlando Silva):

Nada além
Nada além de uma ilusão
Chega bem
Que é demais para o meu coração
Acreditando
Em tudo que o amor mentindo sempre diz

“Mulher” com Sady Cabral, que seria gravada, nos anos 70 por Nara Leão:

O teu amor
Tem um gosto amargo
E eu fico sempre a chorar essa dor
Por teu amor
Por teu amor,
Mulher…
“Saia do Caminho” com Evaldo Rui, em 1956 Aracy de Almeida gravaria essa música a transformando em um clássico da dor de cotovelo:
Junte tudo que é seu, seu amor, seus trapinhos
Junte tudo o que é seu e saia do meu caminho
Nada tenho de meu
Mas prefiro viver sozinho
Nosso amor já morreu
E a saudade se existe é minha
Fiz até um projeto, no futuro, um dia
Custódio faleceu em 1945, aos 34 anos, a carreira foi abortada, bem provável que viriam mais e mais do que suas cento e trinta e três composições.
Para saberem mais sobre a vida de Custódio Mesquita, procurem o livro: Prazer em Conhecê-lo – A vida de Custódio Mesquita – Bruno Gomes Ferreira, Editora Funarte, 1986.
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11 comentários
  1. luzete disse:

    vc sempre nos lembrando que existe vida para além daquilo que a grande midia impõe.
    agora, se o zé da china ver este bigodito, acho que corta o dele, não achas?

    • Ricardo Queiroz Pinheiro disse:

      Oi Luzete,

      tudo bem? A Laura Macedo deixou uma pérola do Custódio la na minha pagina da comunidade: Doutor em Samba, com o não menos soberbo Mário Reis.

    • MARCELO HENRIQUE PINHEIRO DIAS disse:

      Boa noite,

      sou sobrinho-neto de Custódio de Mesquita Pinheiro e, por conseguinte, sou sobrinho de Albino Coelho Pinheiro – O Albino, verdadeiro fundador da Banda de Ipanema, que hoje é comandada pelo meu tio Cláudio.

      Curioso que sou, estou tentando reunir todas as peças: letras de música, discos, fotografias, notícias de jornais e revistas da época, objetos, etc… do meu tio Custódio.

      Estou também, tentando localizar o piano que pertenceu a ele. Segundo minha família, a irmã do tio Custódio – tia Mariazinha – doou ou vendeu o piano a um cantor famoso, se não me engano de nome Carlos José.

      por favor, quem tiver notícias do piano que pertenceu ao meu tio Custódio é favor comunicar nesse e-mail.

      Essa missão é um grande quebra-cabeças (LOCALIZAR O PIANO QUE PERTENCEU A CUSTÓDIO MESQUITA).

      Muito obrigado.

      • Que honra receber aqui um parente do gênio Custódio. No que eu puder ajudar conte comigo…

  2. Manuel Filho disse:

    Olá Ricardo, tudo bom?
    Nossa, que susto! Eu venho pesquisando a obra do Custódio há vários anos e, quando penso que ele está totalmente esquecido, aparece essa jóia de comentário. Ele sempre está presente nos meus shows e, agora no meu segundo CD, eu finalmente irei gravar uma música dele para minha alegria. A canção se chama OS RIOS CORREM PRO MAR (Custódio Mesquita/Oswaldo Ruy).
    É isso aí.
    Abraço
    Manuel

    • Ricardo Queiroz Pinheiro disse:

      Oh Manuel,

      que bacana você reverenciar Custódio, espero que você faça um medley dele, quando vier tocar na biblioteca, fechado??

      abraços

  3. Manuel Filho disse:

    Ah sim existe outro livro importante sobre ele:

    CUSTODIO MESQUITA UM COMPOSITOR ROMANTICO NO TEMPO DE VARGAS – VITRINE
    ORLANDO DE BARROS

    Abraço

    Manuel

  4. Márcio Gomes disse:

    Não sei se conhecem uma história engraçada sobre o Custódio Mesquita. Além de boa-pinta, ele era extremamente vaidoso. Por isso, quando estava com seu amigo e parceiro Mário Lago, diziam:”Lá estão, o lago e o cisne”.

  5. Márcio Gomes disse:

    Esqueci de comentar… Embora eu me prenda muito às características rítmicas das melodias, existem duas músicas que me emocionam pela beleza dos caminhos harmônicos: uma delas é Jangada, de Hervê Cordovil e Vicente Leporace, gravada por Sílvio Caldas; a outra é Noturno, de Custódio Mesquita, gravada, entre outros, pela Elizeth Cardoso. Pena que são pouco divulgadas, pois são verdadeiras pérolas.

    • Ricardo Queiroz Pinheiro disse:

      Marcio,

      você citou duas pérolas, vai destilando essas coisas aqui para a gente…

      abraços e obrigado pelos comentarios…

  6. MARCELO HENRIQUE PINHEIRO DIAS disse:

    Muito obrigado pela gentileza.

    Agradeço toda a ajuda que puder ser dada em busca do paradeiro do verdadeiro piano do Tio Custódio.

    O meu sobrinho, está estudando piano e gostaria que o único membro da nossa família que está se interessando pela música, soubesse da história e tivesse a honra de tocar o piano mágico.

    Vou continuar a minha busca. Caso tenham notícias, por favor avisem.

    abraços e fiquem com Deus.

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