Marconi Notaro – Se dois e dois são cinco, você deve saber


As vezes eu me pego escrevendo sobre artistas injustiçados, esquecidos, mal compreendidos no seu tempo. Fico com raiva do meu texto. A conversa é sempre a mesma, uma pitadinha de autocomiseração ali, de ressentimento acolá, etc, etc. Santa ingenuidade!

O esquema é o seguinte: a injustiça, as idéias massificadas, a pasmaceira, as brodagens e bobagens da mídia, são parte do jogo, se este processo fosse algo perto do justo, o mundo seria um paraíso.  As armações e falsos consensos são a tônica da industria cultural, o que consegue escapar e se estabelecer são exceções.

Então temos que deixar de ficar chorando sobre as tais  “injustiças” derramadas (só falta tocar o violino no background) e analisar as coisas de maneira lúcida. O que é um pouco mais ousado, só escapa dessa cloaca, pela tática de guerrilha. O resto é conversa fiada, maneirismo. Não existe outro método: ou entra na briga ou já começa perdendo.

Marconi Notaro provavelmente poderia ser enquadrado como injustiçado, mal compreendido em sua época, marginal e blá, blá, blá …  Poeta, compositor e agitador da cena cultural recifense dos anos 70, editou junto com Silvio Hansen, a revista A Gaveta, que nos seus dez números, publicou todo tipo de experimentos poéticos que pululavam na época. Os poemas de Notaro eram confeccionados, datilografados, copiados (geração xerox!?) e distribuídos nos bares e bocadas da cena recifense.

Além disso,  partilhou com o pessoal do Ave Sangria, Lula Cortêz, Zé Ramalho (paraibano), Phetus, Flaviola e o Bando do Sol, Lailson e outros que, provavelmente vou omitir, de um momento muito criativo e inusitado da música brasileira. Psicodelia misturada com ritmos nordestinos foi o plano de vôo da rapaziada e Marconi participou a fundo dessa história.

Em 1973(data presumida), Marconi gravou pela lendária gravadora Rozenblit (que merece um post a parte) o disco Marconi Notaro no Sub-Reino dos Metazoários. Esse disco virou uma lenda muito falada e pouco ouvida,  era citado por colecionadores, especialistas e chatos em geral. A capa é uma peça de piração visual confeccionada por Lula Cortêz.

Graças a internet, ao MP3 e a boa vontade de uns poucos, cópias rolam por ai para que se ouça essa peculiar amostra de um momento muito criativo e particular do rock brasileiro. Em 2007 o selo norte-americano Time-Lag Records http://www.time-lagrecords.com/index.php lançou em cd, e posteriormente em vinil, uma segunda edição do registro.

Poesia bacana, desbunde setentista, psicodelismo e experimentos sonoros dão o tom do LP. Fidelidade é um exemplo disso, um frevo para lá de acidulado:

Permaneço fiel às minhas origens

Filho de Deus

Sobrinho de Satã

Permaneço fiel às minhas origens

O meu ontem é hoje

Meu futuro é amanhã

Permaneço fiel às minhas orgias

Filhos da terra, amante do ser

Permaneço fiel a minha euforia

Se dois e dois são cinco

Você deve saber

na parceria de Notaro com Zé Ramalho, que traz a guitarra hendrixiana de Robertinho do Recife, Made in PB:

Quando eu vim aqui
Senti uma vontade chorada
Danada de me chegar
Demonstrei o som
Numa sincopada chorada
Danada de executar
Todo mundo ouviu um rock pesado, chorado, danado
Made in PB
Parece um forró
Mas eu lhe afirmo, ciente, descrente do meu amor
Que ele é curtição de couro de bode
Quem pode sacode tudo no chão
Quem ainda não curtiu o rock sem bode
Quem pode se explode
Made in PB

ou no samba desconstruído , e isso não era embromação na época, Desmantelado:

Desmantelado

é o homem do bilhar

Desmantelado

quando pega no taco

faz a bola sambar

Aproveitar a vida

Nunca ficar parado

Se o taco fosse caneta

Desmantelado

era um homem formado

A bolacha é recheada pela participação de Zé Ramalho, Lula Cortêz, Robertinho do Recife, e apesar da gravação de qualidade irregular, é uma mostra da criatividade da rapaziada. Marconi faleceu nos anos 90, deixou dois livros editados e esse disco como legado, sempre fiel às suas origens, orgias e euforias.


marconi_notaro_-_no_sub_reino_dos_metazo_rios_web

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6 comentários
  1. pricila disse:

    nossa não acredito, casa do polana julho de 2005, n preciso dizer mais nada!!!!!!!!!!!!
    abraços

  2. Tadeu disse:

    Volta pro Raul…

    • Ricardo Queiroz Pinheiro disse:

      Volta para o berço…zzzzzzzz

  3. Luís disse:

    Um interessante baião de dois psicodélico.

    Não conhecia. Muito BG. Não compro!! rsrsrs

    Abração, Ricardon!

  4. Sabrina Menedotti disse:

    Boa !
    ótima Matéria sobre o Notaro,
    é mesmo uma pena , blá blá blá
    e é inegável o peso disso.
    sou pernambucana, moro em
    SP agora,
    mas acompanho algumas pessoas e
    Mostro esse disco e construo um agora não tão diferente de …
    mui bom o post!

  5. Luiz Savério disse:

    Tenho um exemplar original desse disco. Não vendo por nada.
    Há muita coisa boa antiga,perdida por aí, e muita coisa nova que também está oculta. Garimpar é preciso!!

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