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Arquivo mensal: abril 2010

A poeira cinzenta

Da dúvida me atormenta


Noel Rosa foi um artista que sobretudo representou sua época, um homem lapidado no século vinte. Noel produziu sua obra no contexto de explosão das tecnologias, em especial, das comunicações. Sua música é rádio, cinema, cartazes, telefone, almanaques, o aumento da velocidade das cidades. Seu olhar arguto sobre a vida e suas transformações materiais e emocionais deu caldo pra muita coisa boa: letras, músicas, retratos com melodias.

Uma letra em especial nos traz esta sensação de ser tirada ou de ser inspiradora de uma cena de cinema. A tristeza e a dúvida de “Cor de Cinza””expressam a ansiedade e a melancolia de Noel diante de um amor inexplicável, quiçá maldito, e de um mundo se abrindo ao novo. A letra tem uma beleza incômoda com imagens fortes e angulosas. O tema, o fundo e a interpretação intrigam os historiadores da música brasileira, nunca se soube ao certo sobre exatamente o quê, Noel estaria falando. Especula-se.

É um enigma a ser desvendado. Talvez , ele estivesse contando uma história, fazendo história ou mesmo deixando a suprema dúvida que é o conteúdo que torna a nossa cultura (universal) mais interessante e ímpar. Pois não há nada mais chato,  engessado e perigoso do que uma cultura cheia de certezas.

Noel sentiu a modernidade avançando, não importa se tardiamente, não importa, o gênio de Noel desenhou o Brasil que temos, Noel olhou a vida e se foi aos 27 anos, meteoro, deixando-nos retratos inequívocos de sensibilidade e argúcia.

Viva Noel do Brasil, disso não temos dúvida.

Cor de Cinza

Com seu aparecimento

Todo o céu ficou cinzento

E São Pedro zangado

Depois, um carro de praça

Partiu e fez fumaça

Com destino ignorado

Não durou muito a chuva

E eu achei uma luva

Depois que ela desceu

A luva é um documento

Com que provo o esquecimento

Daquela que me esqueceu

Ao ver um carro cinzento

Com a cruz do sofrimento

Bem vermelha na porta

Fugi impressionado

Sem ter perguntado

Se ela estava viva ou morta

A poeira cinzenta

Da dúvida me atormenta

Não sei se ela morreu

A luva é um documento

De pelica e bem cinzento

Que lembra quem me esqueceu


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