A dúvida que Noel deixou …


A poeira cinzenta

Da dúvida me atormenta


Noel Rosa foi um artista que sobretudo representou sua época, um homem lapidado no século vinte. Noel produziu sua obra no contexto de explosão das tecnologias, em especial, das comunicações. Sua música é rádio, cinema, cartazes, telefone, almanaques, o aumento da velocidade das cidades. Seu olhar arguto sobre a vida e suas transformações materiais e emocionais deu caldo pra muita coisa boa: letras, músicas, retratos com melodias.

Uma letra em especial nos traz esta sensação de ser tirada ou de ser inspiradora de uma cena de cinema. A tristeza e a dúvida de “Cor de Cinza””expressam a ansiedade e a melancolia de Noel diante de um amor inexplicável, quiçá maldito, e de um mundo se abrindo ao novo. A letra tem uma beleza incômoda com imagens fortes e angulosas. O tema, o fundo e a interpretação intrigam os historiadores da música brasileira, nunca se soube ao certo sobre exatamente o quê, Noel estaria falando. Especula-se.

É um enigma a ser desvendado. Talvez , ele estivesse contando uma história, fazendo história ou mesmo deixando a suprema dúvida que é o conteúdo que torna a nossa cultura (universal) mais interessante e ímpar. Pois não há nada mais chato,  engessado e perigoso do que uma cultura cheia de certezas.

Noel sentiu a modernidade avançando, não importa se tardiamente, não importa, o gênio de Noel desenhou o Brasil que temos, Noel olhou a vida e se foi aos 27 anos, meteoro, deixando-nos retratos inequívocos de sensibilidade e argúcia.

Viva Noel do Brasil, disso não temos dúvida.

Cor de Cinza

Com seu aparecimento

Todo o céu ficou cinzento

E São Pedro zangado

Depois, um carro de praça

Partiu e fez fumaça

Com destino ignorado

Não durou muito a chuva

E eu achei uma luva

Depois que ela desceu

A luva é um documento

Com que provo o esquecimento

Daquela que me esqueceu

Ao ver um carro cinzento

Com a cruz do sofrimento

Bem vermelha na porta

Fugi impressionado

Sem ter perguntado

Se ela estava viva ou morta

A poeira cinzenta

Da dúvida me atormenta

Não sei se ela morreu

A luva é um documento

De pelica e bem cinzento

Que lembra quem me esqueceu


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10 comentários
  1. Carmem disse:

    Lido, apreciado e divulgado no Twitter e Facebook…
    Beijo!

  2. Finalmente atualizou.
    Que belo texto, atualize mais vezes o blog, textos como esse são sempre bem vindos e necessários.

  3. stemamo disse:

    Muito bonito Klaxon! Esta letra se encaixa perfeitamente em vários dias em que passo por aqui. Digo, com referência à cidade…

    • Pois é,

      Noel fala da cidade, das coisas que passam e assim fala da vida…e claro, isso não termina e nem começa no século XX.

  4. luzete disse:

    ricardo,
    bom ler teu texto. sempre. sempre.
    mas eu acho que o noel tava apaixonado… fácil, né?
    estar em estado de paixão acho que é a condição fundamental para ser poeta, não é não?
    uma generalidade importante!
    beijão e não demore tanto prá nos dar estes presentes, viu!

    • Paixão? Creio que ele nao quis dizer só isso…Noel conseguia ir além do aparente…tem muita poeira cinzenta nessa letra…

  5. luzete disse:

    ok, captei a explicação do teu klaxon. e para eles significava o quê, hein?
    nome estranho, ainda que… modernoso, tal como requereria um modernista, né?

  6. Flavia disse:

    Eu sempre suspiro quando ouço Noel Rosa. Sempre.

  7. ladyrasta disse:

    Eu sempre suspiro quando leio algo sobre o Noel. Sempre. E devo ser uma das maiores colecionadoras de memorabilia dele que você conhece.

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