“Porque voto em Dilma”


O blogueiro que vos escreve é um dinossauro de esquerda, sem regozijo ou arrependimento, relato isso apenas como produto de erros e acertos. Nos últimos anos se tornou algo vergonhoso ou demodé ser de esquerda, de repente todas as contradições se resolveram e citar o velho Marx virou motivo de vários de acusações: fanatismo, anacronismo, exotismo.

 Não importa o que digam, apesar do palavrório que varia da desqualificação aos sofismas de novos rótulos empapados de neologismos, os velhos impasses continuam os mesmos, as desigualdades, as perversões, a sanha capitalista, os descompassos e as falsas acomodações classistas não convencem e ainda existem as velhas questões para serem debatidas, questionadas, o mundo não parou no pensamento único desejado por uma minoria, seja ele qual for esse pensamento congelado.

Na década de 90, era da derrocada de alguns tipos utopias socialistas, o revisionismo tomava conta de tudo. Era um tal de reconhecer o valor de Eugenio Gudin e Roberto Campos, de desqualificar inexoravelmente uma série de pensadores de esquerda, de admitir que a retórica liberal foi a fiel depositária dos avanços da sociedade, de taxar Leonoel Brizola de gagá ultrapassado, afirmar que o PT morreria junto com a decadência do “derrotado” Lula, fim das classes, fim da história, mercado onipresente, Consenso de Washingon …  ufa!! Os caminhos eram poucos: ou se lançar na guerrilha trotskista esotérica, cair no pasmado e envergonhado discurso de uma certa centro-esquerda ou aderir à folia liberal.

As duas derrotas de Lula para FHC, em 1994 e 1998, serviram para reforçar, em termos nacionais, esta síndrome de viralata da esquerda. Os governos FHC pautados pela agenda internacional de privatização, domínio dos sistema bancário (fato que nao mudou até hoje), flexibilização das leis trabalhistas e com o nada de políticas sociais (apesar da tentativa de disfarces)serviram para adensar as trevas e o imobilismo. Foram oito anos de pancadaria.

Em 2002, Lula conseguiu furar o bloqueio e foi eleito presidente com um formidável apoio popular e expressiva votação. Muita esperança e uma alegria quase colegial tomou a esquerda, os avanços sociais foram inegáveis, um tanto tímidos e desprovidos da necessária politização, o capitalismo financista deitou e rolou,  a oposição (dentro de todos os interesses que sempre representou) pouco a pouco foi tornando um Governo eleito com respaldo popular refém das suas chantagens oriundas do pensamento e da lógica neoliberal.

Em 2005 para dar os moldes oposicionistas à eleição vindoura, veio o mensalão, a fábula dos ladrões petralhas. A já manjada estrada do caixa 2 de campanha virou novidade e peça acusatória na boca da direita empenhada em enquadrar e vetar o segundo mandato de Lula. Foi o canto unívoco da mídia e da classe média: PT, partido de ladrões que institucionalizou e sistematizou a corrupção no país e outros pérolas do neoudenismo. Tudo isso turbinado pelo bunker midiático e seu exército de especialistas e demiurgos da decência.

E Lula foi buscar na base popular, como nunca antes… e no apoio sindical,  seu refúgio e reforço. Era o que precisava para desatar o nó; os inimigos eram os mesmos, a narrativa que se fingia como alternativa era a mesma dos anos 90, ficou fácil acreditar de novo e optar pela continuidade dos avanços. O uso quase exclusivo escandalo do mensalão e seu escopo demagógico, como plataforma única, salvou a esquerda. Perdeu-se a simpatia de uma certa classe média, ganhou-se outros mundos. Lula reelegeu-se em 2006 com grande votação.

Não quero dizer que a esquerda tenha achado ali seu rumo e suas novas bandeiras de luta, mas a o campo estava aberto para novas dúvidas e novos caminhos. A sensação era de que a esquerda não havia morrido e se ressaltariam a diversidade e as diferenças dentro de si, e com certeza, ela não estava só no PT.

Hoje, o que um obscuro senador do sul do país facultou como possibiludade de “fim dessa raça” foi o canto de fenix da própria, para fazer renascê-la. A força e o carisma de Lula da Silva, claro, foi o ponto principal da virada, mas a energia concentrada para combater o reacionarismo e o ressentimento da direita fez con que forças há muito fragmentadas se reaglutinassem.

O momento histórico é formidável, há uma frente a favor de Dilma, e é na diversidade  dessa frente que reside o que é de mais interessante, não há espaço para acomodações e falsos consensos, é uma trégua para combater o inimigo comum. E o que mais me deixa otimista é que o momento posterior à possivel eleição da ex-ministra pode se transformar numa  grande oportunidade para que as diferenças dessa grande frente resultem  no aprofundamento da democracia.

O Voto em Dilma

Opto por Dilma por preferir a construção de políticas públicas, ainda que incompletas e longe do ideal, operadas pelo Governo Federal nos últimos oito anos à política pública da omissão, da falta de imaginação, da terceirização e desobrigação do Estado proposta pela oposição São Paulo é um laboratório das políticas tucanas, retrato de opções que não são novidade para nínguem, nós em SP vivemos e podemos avaliar os resultados.

Voto em Dilma pela diversidade (de gênero, etnica, cultural) e rejeito o que Serra representa (o fundamentalismo, o preconceito, a exclusão), confesso ser um voto nada ingênuo ou de cores aberrantes, um voto de esperança em mais avanços. Espero sinceramente pelo aprofundamento das políticas e transformações sociais e radicalização dos embates democráticos e a quebra de alguns assuntos tabus, e ainda acredito no voto crítico e esperançoso.

O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido.

Antonio Gramsci

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8 comentários
  1. Luis disse:

    Acreditava em uma orientação menos engajada, menos retórica, menos ufanista e sim, mais realista, mais compremetida com o fato, mais repleta de juízo de valor, daqueles que detêm informação.

    O que aconteceu com a verve crítica?

    Bola pra frente.

    Vida hipócrita que segue.

    • Retórica? Talvez se você lesse de forma crítica a sua própria crítica, enxergaria alguma retórica (se é que vc esta criticando o fato de eu ser retórico). Engajado? Totalmente, nunca escondi isso, nao subo em muros, nem fico olhando deles. Vida hipócrita sem crítica? Não sei, faça da minha produto dos erros e acertos, não de observações relativistas e pouco objetivas…se existem alternativas e escolhas que sejam explicitadas, senao posso taxar de, aí sim, retórica relativista as lacunas que percebo nas suas palavras, que não deixam claras quais posições e fatos que defende e aponta.

      Vida que segue…claro que segue, só nao tenho como julgar se hipócrita ou não, a distância não permite…meus valores definitivamente sao outros.

  2. Luis disse:

    Interessante as voltas da história…

    O bloco hegemônico não serve mais a sociedade burguesa (sic), mas sim a um pseudo Estado proletário (sic). Vide o héroi chapolin colorado, escravo e refém do petróleo.

    Dominar ao invés de dirigir.

    Tão raso, que em tempos atuais, não deveria haver sequer espaço para uma discussão.

    É este o caminho a seguir?

    Os valores podem ser diferentes, mas deveriam – é tão óbvio – partir de uma premissa democrática.

    • Democraticamente, vote e defenda em quem represente seus interesses, chapolin e outros termos desqualificadores nao me interessam. Hegemônia, domínio e dirigismo ou mesmo governança são conceitos um tanto amplos e espinhosos para se discutir nesse nível.

      Boa sorte no dia 03.

      abraços

  3. luzete disse:

    oi ricardo,
    quanto temp!
    chego aqui e encontro uma declaração simples e defintiva.
    e ainda concluindo com gramsci! do mesmo gramsci que disse que temos que trabalhar com o pessimismo da razão e o otimismo da vontade. é isto!
    bom demais da conta,

  4. Aline disse:

    Olha, estou chocada com a qualidade do teu blog. O que interessa o que esta maioria informada em fontes viciadas pensa? A sociedade da informação chegou para mudar os parâmetros do espaço público e o teu blog faz parte disso. Todo mundo está mesmo atacando a política partidária via imprensa como se fosse a política em si, ou melhor, a representatividade em si e simplesmente ninguém representa quem pensa. A democracia deveria ser mais direta e a internet é o meio. Quem não pensa que pague um jornal para pensar por ele! Eu não quero mais pagar esse pessoal.

  5. João Francisco Oberdörfer disse:

    Sou professor há mais de 26 anos e tive oportunidade de comparar muitos governos e muitos planos econômicos. Posso dizer com certeza que não houve nenhum governo tão bom para todas as classes sociais como foi nestes últimos oito anos com o PT. Não tenho partido político, mas seria uma certeza de retrocesso se trocasse de projeto agora.

    Existem posições do governo que são importantes e em relação à corrupção é uma. O governo não tem como prever onde ocorrerá a mesma, mas tem obrigação de investigar e punir os culpados. Nos governos anteriores a corrupção não era investigada e era com certeza no mínimo dez vezes maior que hoje. Isso acontece porque o governo do PT fortaleceu a Polícia Federal.

    Imagine o que o Serra faria com a Polícia Federal. Certamente não investiria nela para voltar como foi nos governos anteriores, onde o dinheiro simplesmente sumia, pois muito pouco aparecia em investimentos e todos os anos pediam dinheiro emprestado ao FMI.

    Precisamos coroar este projeto com uma ampla vitória de Dilma. Sem dúvida é o melhor para o Brasil.

    Repito, não sou partidário, mas o PT faz bem. A gente escuta alguém dizer que não gosta do PT. É claro que não iriam gostar, pois essas são aquelas pessoas que se serviram do dinheiro público ou que são enganadas por quem tem interesse próprio.

    Repito, não sou partidário e, portanto não existe nenhuma possibilidade de eu vir a ter algum cargo com a política, mas como reconhecimento uma forma que achei de homenagear este governo foi destacar a sigla PT.

    Vamos dar as mãos e pedir votos para a Dilma nesta reta final de campanha.

    Voto DILMAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.

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