Contra o imobilismo, Tim by Roberto chegando no Itamar.


A trajetória de uma canção revela sua vida, por vezes ela se torna própria. Tim Maia corria atrás de Roberto em 1969 para que este gravasse uma música sua, se aproveitou da instantânea simpatia que despertou na então esposa de RC, Nice,  e depois de muito tentar, Roberto gravou “Não Vou Ficar” (esta história é contada pelo Nelson Motta). Sucesso e momento marcante na carreira do Rei, e claro que Tim disse logo após que teria feito melhor. Tim sempre Tim.

A música seguiu contemplada (nem sempre gloriosa), pois:  Kid Abelha, Ivete Sangalo, Fabio Jr, Pitty, até os portugueses dos Delfins a gravaram. Mas o interesse fica na junção de uma tríade representativa: o criador Tim Maia, Roberto Carlos que a  tornou popular e, finalmente, o que a demonstrou em síntese: Itamar Assunção.

Chegou a hora, tem que ser agora
E com você não posso mais ficar
Não vou ficar, não (não, não)
Não posso mais ficar, não, não, não
Não posso mais ficar, não

Um amarração perfeita calcada na óbvia co-irmandade entre Tim e Itamar (na velha conversinha de malditos), o que esta longe de explicar a grandeza de ambos, casada com a popularidade e aura de “midas touch” de Roberto. A canção criou vida e se sustentou pelos seus méritos. Roberto a gravou num período que reinava solene com baladinhas adoçadas e rockinhos limpinhos, surpreendeu e contrastou com o arranjo soul e a letra desafiadora, ele podia e tinha fôlego. De sobreaviso Tim insistia e o endosso do camarada rico abriu caminho (de certa forma) para que ele criasse seu próprio reino conturbado e cheio de idas e vindas.

Itamar apresentou a canção nos seus shows em meados da década de 80, até a pouco ela estava inédita em disco, surgiu em meio a caixa recém-lançada agora em 2010, leia excelente matéria do Pedro Alexandre Sanches aqui: http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-interprete-do-nao-2. Talvez  (ah, a memória) a ouvi em alguma apresentação no CCSP ou Sesc Pompéia nessa época, não lembro ao certo. Itamar surgiu em meio a onda da chamada vanguarda paulista (Arrigo Barnabé, Rumo, Premeditando o Breque, Hermelino Neder) e era de longe o mais talentoso da cena, e não coincidentemente, o que reinava e era sucesso naquele momento era o RockBr, totalmente branco.

Tim Maia já era um “mainstream” nessa época, a despeito de todas as marés cheias e baixas que enfrentou na carreira. O vanguardista gravou o mainstream que antes havia sido gravado pelo ídolo popular, até onde esta distinção funciona? A menção de Itamar não tornou Tim mais popular, mas referendou uma irmandade talvez não reconhecida até pelos dois. A força,  a letra e o punch de Não Vou Ficar os uniu.

Tim foi embora, pouco depois Itamar, Roberto taí, ainda nobre e com um patrimônio de importância e influência que o permite se esconder atrás das roupas azuis e dos dramas pessoais. Itamar declarou um dia que adorava o Roberto da Jovem Guarda, Tim bateu na porta de Roberto no auge da Jovem Guarda, os três se encontraram em “Não Vou Ficar”.

Um canção que atravessou décadas e uniu pontas soltas.

Nota: o camarada Fred Maia do MINC me lembra que o show do Itamar (o do vídeo) rolou na Sala Guiomar Novaes/Funarte SP.

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11 comentários
    • Enio disse:

      Com o Itamar é a Fernanda?
      Interpretação é tudo.Todas muito boas cada uma na sua praia.

  1. delaorden disse:

    Belo post, bela historia. Parabens

  2. Eu sou uma apaixonada por Tim Maia.
    Três grande expoentes da arte by Música, muito bons mesmo, tocantes.
    Pero, Tim Maia tem alguma coisa que atravessa o céu do meu espírito
    e me en leva.

    Amei ser convidada para vir até aqui ler essa matéria linda, ouvir as
    três versões magníficas da composição de Tim.

  3. Eder Milani disse:

    Muito bacana. História que vai além do que se diz por aí!

  4. Salve grande Tim Maia, que tanto cantei e dancei. Com Roberto Carlos aprendi a ler e escrever copiando canções como “Não vou ficar” pelo rádio. E com Itamar vivi intensamente os sombrios anos 80. Belo artigo que junta as pontas de duas gerações pela música.
    Axé!
    Moisés Basilio

  5. Carla disse:

    Bacana essas interpretações, até então eu nunca tive ouvido o Itamar cantando essa musica.
    salve a musica brasileira em grande estilo.

    Desde Bahia

  6. maravilha ricardo !!! parabens pelo blog e pelo bom gosto artistico !!!! abracao flavio

  7. Selma Boiron disse:

    Gostei mto da sua escrita e vim pelo nome KLAXON q me encantou. Sou MEGA fã da banda!E adorei a história da música. Morria sem saber q era do Itamar Assunção. A versão do RC foi genial pq, ao mesmo tempo q ele era doce baladeiro, sempre tinha umas coisas mais ‘raivosinhas’ no repertório. Era pra fazer a tal ‘fama de mau’. Abço e até o próximo post!

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