O dia em que Macunaíma não encontrou Capitão Nascimento.


A cultura pop nas cabeças óbvias dilui a profundidade dos fenômenos. Heróis são inventados para descomplicar o mundo, tirar a complexidade, dar soluções rápidas e baratas. Super-Homem, Dirty Harry (o Clint Eastwood de Colt 45), Chaves, Escrava Isaura, Spirit, Odorico Paraguaçu…são tantos. No último final de semana a vida provou que a cultura pop não simplifica tanto assim. Aliás, isso já foi várias vezes provado. Um encontro foi marcado e não cumprido: Capitão Nascimento entraria no Complexo do Alemão para encontrar Macunaíma. O exterminador pragmatico x malandro. Não, não, me recuso a falar de “caráter”.  Acompanhei a transmissão mezzo Globo News, mezzo pelos comentários no twitter, principalmente dos enfant terrible da http://twitter.com/vozdacomunidade , que provaram mais do que nunca que o jornalismo cada vez menos depende das ferramentas tradicionais. Sim, houve uma transmissão, o que emula mais ainda a sensação de cultura pop rondando. Mas na vida real tem sangue, e tem gente. Ainda bem que o encontro não houve. Macunaíma, o desejo de síntese de Mário de Andrade, recorreu ao expediente de jogar as armas nas valas. Capitão Nascimento dava entrevistas para a TV e laureava seu exito, ficou sem dar um tiro (será?). O encontro, de fato, não houve, mas perdura a promessa, próximos capítulos. Uma das características da cultura pop, segundo os apocalípticos, é diluir os fenômenos e descomplicar a vida. O domingo foi marcado por um sensação de paz e parece que muitos encontraram o Muiraquitã, a paz da cultura pop. Macunaíma tava no Rio e não apanhou do Exú (Capitão Nascimento?). Fica a sensação do incompleto, a GNT não teve o sangue que muitos esperavam, os garotos da Voz da Comunidade relatavam tiros ao longe.

Por enquanto, tudo (!?!?) bem.

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8 comentários
  1. Tania Guimaraes disse:

    A espera de salvacao muitos aplaudem as acoes policiais nas favelas. A salvacao e o heroismo sao os sentimentos mais mediocres que procuramos. Isto porque na hora do pegapacapa o hipocrita do ser humano age como: Salve se quem puder. Quero crer que acoes de cunho social acompenhem este tormento aos moradores de favelas, na sua maioria trabalhadores, familias simplesmente vivendo a vida como ela se apresenta. Estas familias tem sido seus proprios herois. Entre elas existem aqueles que nao se encaixam na formula “normal” desta existencia. Eles tomaram pra si mesmo as existencias altarnativas se valendo de poderes tomados de atormentarem tanto as vidas dos pobres de favela quanto as vidas da classe merdia e alta do Brasil. Cada camada tomando seu proprio lucro e prejuizos.
    Os entorpecidos com grana sao odiados de um lado, por terem caido no vazio que so uma droga forte mesmo pode anestesiar. Os grandalhoes das armas e drogas sao odiados por levarem lucro em cima da miseria humana. Os pobres sao odiados porque os que os odeiam nao os destinguem um dos outros. Parece que so ser pobre e em maioria negros, ja e motivo que inspira odio. E odio sim, esta sede de sangue do bandido. E certeza de que ele jamais podera ser recuperado e poder voltar a vidinha de luta sem muitas recompensas ou salvacoes, siplesmente sobreviver como e de obrigacao historica na sua luta.
    Alguns dizem: Nada de pensar, e hora de agir. Outros celebram em antecipacao um RJ melhor, com menos crimes. A cegueira do sono desta vidinha cor de rosa, sem entorpecidos ou entorpecedores cega, leva a loucura e fecha o circlo. Vem uma plateia histerica gritando; Mata! mata Nascimento! Esfola. E pra melhor.
    Enquanto isto vi criancinhas desesperadas, traumatizadas, chorando de terror. nao tem quadra de esportes, nem medicos, nem pais impotentes que possam alterar este trauma

  2. Aline disse:

    Merece seguimento. Genial!

  3. Pedro Sefia disse:

    Como você diz no início do texto, a cultura POP simplifica e acho que simplificou sim, mais uma vez, aos olhos de quem vê, um problema que é muito maior. A grande mídia tratou o fato como um jogo de pique bandeira em que basta fincá-la no topo do morro para que esteja esteja tudo solucionado. Sabemos que isso é só o início, vamos dá um tempo para ver qual a real solução que será dada ao problema.
    Digno de um Macunaíma, nosso herói sem caráter nenhum e fugidio, marcou o encontro com ameaças e evadiu-se, como você bem disse, ainda bem. Como nosso herói, ora está aqui ora acolá “brincando” com todos nós, no fudendo? Vamos ver onde ele surgirá novamente.

  4. Infelizmente não acredito. É mais provável que o encontro tenha acontecido longe das câmeras. Macunaima agora deve estar voltando à terra, de onde saiu.

  5. Ótimo texto.
    Mas até agora não entendi o porquê dessa algazarra da polícia. Parece que alguém importante viu Tropa de Elite 2 e se empolgou.

  6. João Fontoura disse:

    Isso tudo parece hiperrealidade. Construída para dar a sensação de justiçamento. Assisti a uma matéria porca da Globo sobre a volta à “normalidade” no complexo do alemão. Moradores retomando sua rotina de abandono, marginalização, subvida. Claro, os esgotos correndo pelo meio-fio, subempregados sem-camisa bebendo nos bares, crianças pobres sendo levadas pelas avós para a escola pública sem recurso, creches improvisadas nos quintais também pobres. E a polícia alvissareira no topo do morro. Tudo parece ser tão real, mas você viu esse filme também.

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