A canção do Napster


No século do progresso
O revólver teve ingresso
Pra acabar com a valentia

(trecho de Século do Progresso – Noel Rosa – 1934)

Tamanho do disco: 285 GB (307.071.889.408 bytes), 64.327 arquivos em 6117 pastas. Criado na segunda-feira, ‎10‎ de ‎agosto‎ de ‎2009, ‏‎11:39:55h. Não estranhem, eu não acionei algum comando que transferiu esses dados acidentalmente para o post, esses dados se referem ao tamanho da pasta de música do meu pc. Vocês acham que eu estou querendo me arvorar da quantidade ou querendo  colocar à disposição da RIAA (Recording Industry Association America) dados para um processo? Nada disso. Em pouco mais de um ano acumulei todos esses arquivos. Adquiri esse pc ano passado. Só que a história vem de muito antes, final de 1999.

Em 1983 o The The, banda inglesa de um componente só, protagonizada por Matt Johnson, lançava o álbum Soul Mining, logo depois uma das faixas desse disco virou hit nas casas noturnas da época. No Madame Satã quando tocava Uncertain Smile – versão 45 (remix) a pista se enchia das figuras que ali frequentavam, alias essa era uma das músicas que pluralizava a pista. O remix ouvido hoje soa meio tosco, com os loops (recursos de colagem musical) e sobreposições que atualmente parecem rudimentares. O disco era uma lenda, alguns djs o possuiam, e rolava uma conversinha de bastidores sobre a possibilidade de conseguir uma cópia em fita cassete. Era 1984. Um momento apropriado para colecionadores exclusivistas, que de alguma maneira tinham acesso a discos e gravações (não esqueçamos que estes foram a base da grande coleção virtual que estaria por vir). Para a maioria o jeito era se contentar a ouvir algumas coisas nas pistas, milagrosamente gravar algo em programas de rádio ou ter amigos colecionadores e generosos (coisa rara).

Não cheguei a pegar esse remix, bolacha na mão. O registro que consegui foi numa calejada fita Scotch que funcionou até a estafa e definhou. Ficou como peça de colecionador. Vamos cortar para uma noite qualquer de 1999. Num bate papo da vida (chats à época) conversando sobre música, alguém me falou de um programa chamado Napster. Estranhei o nome, estranhei também o objetivo. Baixar músicas para o computador. A possibilidade não era tão improvável. Mas como funcionava isso? Com dificuldade consegui o programa, não a dificuldade de achá-lo no mundo virtual, mas sim de conseguir baixá-lo, já que a conexão discada, unico recurso de então, transformava todo download numa longa novela venezuelana. O Napster veio, com ele as interrogações e uma certa incredulidade. Era o P2P invadindo a minha vida, presente de Shawn Fanning, um garoto de Massachussets. Antes disso a revolução compressora do MP3 (MPEG-1/2 Audio Layer 3) pelo MPEG (Moving Picture Experts Group) em 1995, pavimentaria o caminho.

Foram vinte e três minutos e duas quedas de conexão ( e os devidos reinícios), ainda por cima uma procura pelo destino do arquivo, pois não configurei o destinação da pasta. Achei a past music e nela os mais de 9 minutos e tantos bytes da canção perseguida. Era o meu primeiro MP3 arquivado. Fim de uma era, começo de outra? Não vou ficar especulando sobre relevâncias e revoluções. O fato é que aquela noite mudou minha relação com a música, e claro, com a maneira de acessá-la.

O momento imediatamente posterior foi de euforia. Cada música que vinha para a HD trazia consigo um corolário de lembranças e histórias e principalmente de desejo reprimido (rs). A coleção foi aumentando, e os nomes dos programas P2P modificando: Kazaa, AudioGalaxy, Morpheus…nesse tempo todo foram algumas HDs, milhares de arquivos, solos, canções, barulhos, melodias… O intervalo entre ouvir falar e ouvir uma banda , música ou lançamento foi se estreitando até o limite. No momento ouvimos músicas até antes dela serem lançadas. A instantaneidade venceu a exclusividade, os colecionadores e preciosistas lamenta(ra)m o final do latifúndio improdutivo. Compartilhar é a tônica, legal ou ilegalmente.

Como disse no início, tenho nesta data mais de sessenta e quatro mil músicas em meus arquivos, confesso que parte dela não consegui ouvir, talvez nem o faça. A primeira delas tem o sentido totalmente diferente do que tinha quando a ouvia nas pistas dos inferninhos oitentistas, e também, no momento do primeiro download. Este é um retrato direto e sem maneirismos da presença da tecnologia em nosso universo sensível. A velocidade, a mudança e os regozijos de acessar com rapidez o que gostamos e descobrir coisas novas. As bases dessa história são as canções e a liberdade que existe e deve ser preservada e ampliada na rede, a matéria prima que o progresso muda e  ao mesmo tempo preserva.

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7 comentários
  1. stemamo disse:

    Legal demais este post Klaxon!

    E no comecinho de 2000, acabávamos de nos mudar para BH e vc apareceu lá com esta novidade. PQP! Era música a música, uma emoção atrás da outra, lembranças de épocas passadas, das músicas que ouvíamos o kbeça gravar para cassestes, todas muito bem equalizadas. Do Hermes, que era um desses raros colecionadores junto com o kbeça, o Gerson e você, que compartilhavam os trunfos, dividindo aquele tanto de vinis.

    Me lembro até hoje de uma das primeiras faixas que baixamos e marcou a mudança para BH e sua visita, tinha acabado de entrar na FUMA, putz. Somewhere in my Heart, do Aztec Camera. Ahahaha que loko!

    Grande abs!

  2. marinildac disse:

    ai, não me lembre! um nerd desses bem distraídos formatou meudiscoD junto com o C e perdi todas as músicas que formaram meu caráter. até hoje sofro quando lembro.

  3. César disse:

    hahaha, bom post.

    bem, nessa coisa de musica + pc sou relativamente novo, comecei com o limiwire ja, tenho pc e net banda larga faz menos de 3 anos, mas de fato, todo download concluido é sempre sucedido da vontade de baixar mais.

    bom blog, continue sempre assim, gordinho.

  4. Val. disse:

    Porra, lindo texto.

    O Napter foi meu melhor amigo por muito tempo. Nunca vou esquecer a primeira vez que ouvi o Radiohead cantando “Black star”(acoustic). Acho que foi mais ou menos o que vc sentiu quando ouviu o The The. No meu caso, músico amador, o resultado foi mais devastador ainda -Aquela experiência abriu-me os olhos para uma séria de possibilidades que eu até então desconhecia completamente.
    Depois vieram as noites em claro, os convites para reuniões e baladas declinados… Mas isso já é outra estória.

    Lindo texto!

    Abraços, maestro!

  5. Sonia disse:

    Que delícia de post.
    Como disse o stemamo, o napster marcou nossa chegada a Minas.
    E quanta coisa foi baixada, mesmo em velocidade lenta, conexão caindo, mas quando a música era completada parecia um sonho.
    Muito bom lembrar.
    Beijos

  6. Manuel disse:

    O pessoal mais novo vai estranhar essa história de fitinha rs

    Pois é, eu fui vítima desses “latifundiários”. Eu queria rever alguns desenhos animados da minha infância e eu sabia de um cara que guardava alguns episódios. Quem disse que ele deixava alguém ver? Uma coisa maluca.

    Hoje, felizmente, dá para ver tudo na net.

    Abraço

    Manuel

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