Você…vai pro gol…


Quando era menino jogava futebol por pura insurgência. Insistia. O corpo decerto não adequado, gordinho, a pouca habilidade com as leis da bola dificultava mais ainda. Mas jogar era uma forma de se inserir, de ser aceito, ainda que não fosse a forma mais fácil. Com poucas variações era escalado no gol e lá ficava.

O universo do futebol era muito presente. De olho comprido olhava as capas da revista Placar nas bancas, a grana nem sempre dava, mas adorava ver o Tabelão e decorar as escalações dos times. Sabia até a escalação do Confiança de Sergipe. Década de 70 do século passado. A maior das teimosias foi na escolha do time. Estão bem claras na minha mente  as conversas que tinha com o meu irmão sobre times e escolhas. Todo mundo torcia para o Corinthians (meu irmão incluso), São Paulo, Palmeiras e Santos.

Fui torcer para a Lusa, por causa do craque Eneás, já contei essa história aqui no blog: https://klaxonsbc.wordpress.com/2008/09/24/rei-eneas-um-genio-esquecido%E2%80%9D/ e provavelmente por uma teimosia. Era uma lei da época, acho que ainda vigente, que uma vez torcedor de um time nunca se muda, ou melhor jamais se vira bandeira.

Por mais que jogar fosse algo cheio de dificuldades, as tardes e manhãs de futebol eram sempre prazeirosas. Lembrar disso e não ter glórias de gols e jogadas sensacionais para contar, não é uma manobra de autoindulgência, mas sim uma forma de compartilhar a importância de atos cheios de mágia que se constroem nas minúcias.

Futebol na chuva, futebol na rua de ladeira com gols improvisados, futebol na madrugada, futebol ao cabular aula, futebol dentro de casa sob os protestos da mãe, futebol de botão. Lembro de alguns amigos que jogavam bem, outros pernas de pau como eu, uns solidários, outros “fominhas”. Craques, poucos, como sempre.

E tinha o futebol no rádio, as tardes de domingo, as transmissões. Locutores,  repórteres de campo, comentaristas, os plantões esportivos. Joseval Peixoto, Fiore Gigliotti, Osmar Santos, Flávio Araújo, Leonidas da Silva, Flavio Adauto, Ligeirinho, Cândido Garcia, Edemar Annuseck, Luis Augusto Maltoni, Narciso Vernizzi, Paulo Edson, Mauro Pinheiro, Cláudio Carsughi, Randal Juliano, Orlando Duarte, Fausto Silva …e por aí vai, e claro, esqueci vários nomes.

E, especialmente, havia o Show de Rádio  dirigido e criado por Estevam Burroul Sangirardi, com seus personagens satíricos, transmitido na Rádio Jovem Pan e na Bandeirantes (em épocas diferentes) sempre ao final das partidas (sobre esse programa pretendo um dia dedicar um post). Longas tardes/noites de domingo.

As coisas vão mudando de cor e intensidade e o futebol foi perdendo espaço na minha vida. Hoje acompanho mal e mal a Lusa, e vejo os gols no youtube ou nos portais esportivos. O peso e o simbolismo, claro, ainda existem. Na ausência de conversa mais convincente nas rodas de trabalho e horas triviais, o futebol se apresenta como alternativa,  mesmo com pouco repertório.

Sempre que cai uma chuva dessas de tarde de verão e ao longe vejo um grupo de moleques chutando uma bola heróicamente, bate uma saudade, saudade gostosa, saudade de gols não feitos, de dribles não dados, de jogos que torcia para que nunca acabassem…

Eu relutei em usar esta imagem, mas de longe é a mais perfeita para ilustrar este post. Trata-se de um registro de vários olhares intrometidos de meninos querendo assistir de fora um jogo no Pacaembú na década de 40. A imagem faz parte do livro “Pacaembú” (Editora DBA – 2008) que reúne fotos de húngaro-brasileiro Thomas Farkas. Se alguém conhecer o autor, e se esse sentir-se lesado pela utilização da mesma, retiro de pronto. Gosto bastante da foto e parece até que procurava escrever um post para colocá-la.

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1 comentário
  1. No tempo de eu menina era assim, a vida movida a Rádio.
    Os programas, as novelas, as músicas, o Show de Rádio na Bandeirantes,
    Ferreira Martins e o Programa da Tarde,
    e o futebol.
    Em todas as casas havia um rádio ligado, volume alto, e todo mundo
    gritava Gol.Os locutores falavam rápido e eu achava aquilo o máximo.
    As peladas na rua, no colégio, os meninos gostavam de bola.
    Como era bom brincar!
    Senti isto, aqui, no blog, um cheiro de infância, uma nota musical
    perpassando o ar. Um acorde, acordando-me no sonho, trazendo de volta
    a linha do trem contornando a chácara, piuí piuí piuí!!! nuvens de fumaça!

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