“Staff Benda Bilili”


“Eu nasci um homem forte/ Mas a pólio me aleijou / Olhe para mim hoje, eu estou ferrado no meu triciclo / eu me tornei o homem com os bastões / Para o inferno com as muletas.”

Ricky Lickabu e Coco Ngambali tocam nas ruas de Kinshasa, capital da República do Congo. Os dois sofreram de pólio na infância e hoje se locomovem usando triciclos inusitados. Eles são músicos de rua, e na sua música carregam influência da rumba congolesa, do R&B, do reggae, do soul. Os dois estão no núcleo do Staff Benda Bilili, mas quem são eles?

Em primeiro lugar os dois não conseguiam se encaixar nos combos musicais e nas bandas de música congolesa. O motivo? Não terem coordenação e não conseguirem dançar, logo não teriam sucesso nas performances da sacudida música africana, essa era a premissa e o raciocínio vigente.  Qual a solução?  Montar a própria banda, e daí nasceu a  Staff Benda Bilili.

Para completar o “Staff” juntaram-se a Ricky e Coco, outros músicos portadores de pólio e os sheges – crianças moradores de rua, muitos desses foram soldados das milícias formadas na guerra civil congolesa e hoje são “veteranos de guerra mirins” abandonados à própria sorte – com essa formação eles ensaiaram quase que diariamente no Zoológico de Kinshasa, por mais estranho que possa parecer, o local foi escolhido pelo sossego e pelo isolamento. Esta aliança entre os meninos e os senhores dos triciclos soa lírica e triste.

Roger Landau, menino que encontrou o grupo aos 13 anos (agora esta com 19) é um dos componentes com história mais peculiar, ele vem dos subúrbios de Kinshasa, toca um instrumento que ele próprio inventou e batizou de satonge. Trata-se de uma corda afixada numa lata, engenhosamente construída para marcar nossos ouvidos na primeira audição. Roger sola com a paixão de um Hendrix e já mostra no palco um olhar distante e catártico de alguém que calcula o próprio valor. O Staff é assim cheio de surpresas e parece se apresentar como algo que tinha tudo para não dar certo e o”dar certo” no contexto em que eles vivem é algo muito complexo e difícil de avaliar.

Difícil, também, é ouvi-los e tentar descolar o rótulo de “africanos com necessidades especiais”, logo, fora da indústria cultural (apesar de que isso pode ser até um belo rótulo para a própria) que fazem música exótica. Mais difícil ainda é esperar que os caras não encarem o público europeu e do resto do mundo como branquelos de rabos balançantes e cheio de dólares e euros, que vêm compensar toda as atrocidades que os colonizadores cometeram com sua cultura e sua nação. É algo que temos que encarar, e no caso, a música vigorosa e de qualidade prevalece, mas não esconde os conflitos de classe e econômico.

A música, claro, não é única forma de sobrevivência dos SBB, eles se viram com o comércio de rua, com os “quebra-galhos” possíveis e daí as inevitáveis relações com “atos ilícitos”.  Todas as atividades características das margens do capitalismo temperam o dia a dia dos rapazes de Kinshasa. Muitos deles, os sheges principalmente, vivem nas ruas e dormem em cima de papelões, outros como Ricky habitam “moradias alternativas” sem saneamento básico, sem o mínimo de condições, herança solerte da colonização belga, pura abjeção.

Desde 2005 os cineastas franceses Florent de la Tullaye e Renaud Barret filmaram o documentário “Jupiter’s Dance” (tive oportunidade de assistí-lo no último final de semana em cópia DVD) que foi bem recebido no Festival de Cannes de 2010. Eles contam a história do SBB. e de certa forma intervém na sorte dos camaradas, inclusive a apresentação de Roger aos outros componentes se dá na gravação do documentário. O registro visual e sonoro soa como algo que estava lá pronto para comover e ser filmado.

Outra figura importante da história é o produtor musical belga Vincent Kennis, ele esteve à frente de tentativas de gravar um registro da banda desde 2006, e finalmente produziu o álbum Très Très Fort pelo selo Crammed em 2009, e essa gravação épica de três anos resultou no prêmio Womex (Word Music Expo) daquele mesmo ano.

O SBB esta em turnê pela Europa e nas ruas de Kinshasa permanecem a penúria e as conseqüências da guerra civil e da colonização criminosa. Nada mudou. Na vida dos componentes uma compensação parcial ainda esta por vir através de grana e de alguma notoriedade. A arte vence a miséria? A poesia supera os escárnios? Na verdade estas frases são pura retórica para adoçar nossas consciências cheias de culpa.

Para quem ainda acha que “música de protesto” se faz com palavras de ordem, fica a experiência desses rapazes que tinham tudo para afundar na morte e no ostracismo e cantam forte e alto para serem ouvidos muito mais do que panfletos dançantes.  Eles sabem que não estão fazendo revolução, e não esperam e nem podem obter “distanciamento crítico” para avaliar a própria condição, e sabem também, que a sua música é o fio tênue que ainda os mantêm vivos.

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5 comentários
  1. Caramba! Que luxo! A DO REI!!!!
    Os caras são demais, grandes artistas, e que história!
    Parabéns, Moço, por esta postagem magnífica! O seu blog está fazendo diferença
    na Internet!

  2. Pih Morais disse:

    boquiaberta aqui, genial o som e a história toda.

  3. Teo Ponciano disse:

    DuK este sitio aqui.
    Já está cadastrado nos meus favoritos.
    Um bom lugar pra sair pra passear…

    Parabens!

    E eu ainda sou fã de música africana.

  4. Anne disse:

    Um grande abraco, uma boa licao de superacao de todos eles, um sentido da musica boa, bravo

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