A “verdadeira” história do Klaxonsbc


Um nome o quanto mais rápido ele for assimilado, entendido, melhor ele cumpre o papel. Lembro da época de escola e dos amigos que tinham nomes complicados. Especificamente de um: Clístenes. Nínguem entendia o nome do menino, ele orgulhoso dizia ser um nome grego, mas sua origem nordestina aguçava a galhofa preconceituosa da molecada. Anos depois fui checar e vi que o nome do meu amigo foi o de um político,  um legislador grego: Clístenes de Atenas. O Clístenes da minha escola sumiu na vida.

Mas os nomes complicados me perseguem. Toda essa introdução serviu para chegar no nome do meu blog, na verdade a corruptela que uso para identificar o espaço onde escrevo minhas implicâncias: Klaxonsbc. Nínguem entende de pronto e mesmo depois de explicado, fica aquele ar de  “Ahhhh, tá…”  desvencilhador nas pessoas.

Quando comecei a me interessar por literatura de forma mais pretensiosa na adolescência, Oswald de Andrade ao lado de Lima Barreto eram meus maiores heróis. O terrível modernista, que brincava com as formas, o falastrão, o pouco rigoroso, o homem das frases cortantes. Sempre me pareceu fascinante imaginar Oswald animando uma São Paulo que explodia em desejo de mudanças meiado com empáfia, ansiedade de crescer e incompreensão. O homem sem profissão.

A revista Klaxon (Mensário de Arte Moderna) foi a porta voz do modernistas que circulou entre 1922 e 1923. Curta duração, seus colaboradores compõe uma fina radiografia do movimento modernista: Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Menotti Del Picchia, Di Cavalcanti, Sergio Milliet, Anita Malfatti….

É uma buzina literária, fonfonando, nas avenidas ruidosas da Arte Nova, o advento da falange galharda dos vanguardistas”.

Menotti del Picchia

Na época de faculdade na Escola de Sociologia e Política tinha na biblioteca um fac-simile, se eu nao me engano editado pelo Mário da Silva Brito, de uma das edições da Revista Klaxon (foram nove ao todo). Ficava ali lendo aqueles poemas e textos panfletários que ajudaram a desenhar a alma de São Paulo, nas contradições, nas assimilações, nas pretensões, na arte. Um dia o livro sumiu do acervo,  reitero: Não fui eu, não fui eu!! Clique no link  usufrua na Brasiliana de uma desmonstração da revista.

Desde quando comecei a  navegar na internet , ja faz um tempo, resolvi adotar klaxon como nick, era uma forma de resolver o pretenso status incógnito que demandava a entrada em chats e foruns de discussão. Logo que resolvi montar um blog não fazia sentido chamá-lo simplesmente de KLAXON, seria uma cópia besta da revista dos modernistas. Mas queria manter a chamada, a buzina, o anúncio. Por que não acrescentar ao nome a sigla da minha cidade? E então preciso gastar umas linhas para falar dela…

São Bernardo do Campo, a terra do tempo nublado na beira da serra. A terra das montadoras de automóveis, a terra dos sindicatos, a cidade do Lula. A cidade que fica ao lado de São Paulo e que mantém uma estratégica (!?!) distância com os costumes da metrópole. A cidade de história macro progressista e na micro história tão conservadora quanto outros tantos cantos paulistas. Mas é a minha cidade, aqui nasci, aqui vivo, aqui trabalho, amo e odeio. Convivo a cidade, acordo acreditando e durmo querendo embora. Cá estou. SBC.

Daí unidos: Klaxon + SBC – a buzina da cidade que se anuncia cada vez mais misturadas a tantas outras buzinas e ruídos. Claro que tem ironia (para não trair o espírito de Oswald), claro que tem vários desejos recônditos, claro que tem contradição. O sempre presente desejo e pretensão de que o seu núcleo se torne o núcleo principal. O clamor dos modernistas que nunca deixaram de ser  provincianos na pretensão de soarem cosmopolistas. A cidade que vivo no meio dessa panacéia.

Um pouco da história desse blog de nome esquisito.

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8 comentários
  1. Adoro um texto bem escrito na forma e no conteúdo. Por isso – parabéns companheiro !!! Abraço.
    Jorge

  2. Viajei.
    Caranba! Klaxonsbc é um nome magnífico.
    Tem história, faz sentido, e o seu autor é uma pessoa
    altamente talentosa.
    Adorei ler.
    Me comoveu, sabe…toda essa homenagem àquelas mentes
    & à cidade, ah, cidade do Lula,
    mais uma honra para Klaxonsbc!
    Gostei muito, demás mesmo. Você, sempre me surpreendendo, heim…
    Muito bom gosto, parabéns.

  3. Val. disse:

    Demais, brother!(Mentor) Deu até saudade de casa.

    Abraços e força sempre!

  4. “Convivo a cidade, acordo acreditando e durmo querendo embora. Cá estou. SBC.”
    Sempre querendo ir embora.

  5. Andrea disse:

    Muito de você realmente nesse texto…..
    ADOREI!!!!!

  6. Ronaldo Gaspar disse:

    Caro Ricardo,

    Há quanto tempo não nos vemos!!! Me deparei com seu blog de modo totalmente casual (via facebook, amigos etc.). Fico contente em ver que encontrou um veículo e um ambiente adequado (e acessível) para expor publicamente sua privilegiada inteligência crítica (política e musical). Tenho saudade de nossas – às vezes, ácidas – conversas sobre filosofia, política e “tipos humanos” que frequentavam e “habitavam” a Malba Tahan; de nosso inconformismo que, felizmente, ao contrário do que reza a lenda acerca do avanço da idade, só aumenta… Boas lembranças!
    Saudade.
    Um grande abraço e parabéns pelo blog.
    Ronaldo Gaspar.

    • opa Ronaldo,

      tortuosamente vamos criando nichos de sobrevivência e de desafogo das questões que mais nos incomodam e/ou noa dão prazer. Quanto ao inconformismo, sempre estará aqui. A casualidade da web torna exatos alguns (re)encontros. Obrigado pelos elogios, um abraço, espero que esteja tudo bem contigo

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