Entrevista com Ramiro Zwtesch (Radiola Urbana)


Foi num canto do ano de 2004 e eu tava procurando um disco do Fela Kuti na web …  top top programa de busca, informações cruzadas e uma das primeiras referências: Radiola Urbana. Fui ao site, surpresa!! Um salto em vários tempos e batidas: afrobeat, jazz das alturas, soul responsa, rap alternativo  música brasileira sem lenga lenga, rock menos óbvio.

A procura saiu lucrativa, e segui acompanhando o site. Textos bons, podcasts, mixtapes, dicas de shows, entrevistas foram pintando, sempre alto nível e boas descobertas. Com o passar dos anos o Radiola foi juntando um belo patrimônio.

Outro dia entrei e tá lá mensagem: “O Radiola Urbana foi hackeado. Aproveitamos a ocasião para reestruturar o site. Voltamos em breve!” Pensei comigo: “Como que alguém hackea um site desse com tanto lixo para derrubar?? …”

Quem vai contar mais sobre o Radiola é seu mentor Ramiro Zwtesch, jornalista, fã de música e um bom papo. O Radiola volta, acaba, modifica? Marquei essa entrevista pelo Facebook e a fizemos por email, espero que vocês gostem:

1- O Radiola Urbana é um ponto de convergência de varias vertentes musicas bacanas, conta pra gente como começou o Radiola.

Então: o comecinho mesmo tem a ver com uma certa frustação e falta de perspectiva no Jornal da Tarde, em 2004. Eu trabalhava lá desde 2001 e tinha que me esforçar muito para escrever sobre música que eu gostasse. Havia pouco ou nenhum espaço para reggae, afrobeat, rap, samba-jazz etc. Desenvolvi o site com um velho amigo, Bruno Reis, um dos sócios da Dialeto, uma empresa de desenvolvimento de programação e design de sites, entre outras coisas. Começou de um projeto pessoal e logo de cara, antes mesmo de entrar no ar, agregou um monte de amigos que curtiram a ideia. Havia duas ideias básicas: oferecer um conteúdo sobre música que é revelante e não tem / tinha atenção da mídia; e fugir à regra de “conteúdo objetivo e fácil leitura da internet”, com textos grandes, abordagens originais.


2- A internet abriu uma brecha na divulgação da música “fora do mercado” ou você acha que ainda há muito idealismo nisso?

Acho que abriu, sem dúvida. Mas há idealismo aí, pois são raros casos de gente que ganha dinheiro com blogs e sites. Pessoas comuns oferecem ótimo conteúdo simplesmente porque querem e gostam, chamam atenção, atraem leitores, podem até ganhar alguma credibilidade profissional. Mas ainda precisam de seus empregos convencionais, inclusive para manter esse prazer. Normal.


3 – Uma das coisas mais bacanas do Radiola são os podcasts, é um jeito de reverenciar os programas de rádio? Fale sobre isso.

Isso veio logo no começo, junto com o projeto. A FM é uma piada, tudo igual, com muita preguiça e pouca ousadia. Então mais que uma homenagem, é um protesto contra a mesmice da rádio convencional. Há música de todos os gêneros em todos os países, coisas desconhecidas para serem descobertas, clássicos esquecidos e a FM continua com preguiça de ir além do Dire Straits e do Lulu Santos. Claro, eles merecem espeço. Mas a questão é que todos merecem: a música latina, o rap, o jazz, o afrobeat etc. Então criamos nossa própria rádio para tocar artistas indiscutivelmente relevantes como Fela Kuti, Jackie Mittoo, Cal Tjader, Pharoah Sanders e Moacir Santos — nomes que o ouvinte assíduo da FM pode passar a vida toda sem conhecer.


4 – Cinco discos que devemos salvar no apocalipse.

Já que são só cinco, vou salvar os duplos (sem ordem de preferência):

Songs in the Key of Life, Stevie Wonder: ainda preciso ouvir mais e me aprofundar nas sutilezas. Mas é um tratado do groove e da sofisticação de um dos melhores compositores de nosso tempo, um passo à frente do fênomeno pop e social gerado pela gravadora Motown anos antes. Lindas canções, arranjos sublimes.

Gil & Jorge, Gilberto Gil e Jorge Ben: o encontro de dois dos violões mais autênticos da MPB, num desafio constante de soluções ritmicas, improvisos, desconstruções de clássicos de ambos e psicodelias vocais. Aulinha.

Exile on Mais Street, Rolling Stones: se for para elencar apenas uma vantagem dos Stones sobre os imbatíveis Beatles (fora a longevidade), é a proeza de ter conseguido um álbum duplo bom do começo ao fim — coisa que o Álbum Branco não é com as inacreditáveis “Pigs”, “Revolution 9”,  “Bungalow Bill” etc. O auge de Keith Richards e Mick Taylor, riffs pra história e um mergulho mais fundo na influência do blues e do country. Foda!

Babylon By Bus, Bob Marley & The Wailers: ao vivo, o carisma do homem cresce para compensar as imperfeições inevitáveis do palco em comparação com as versões de estúdio. Banda afiadíssima e um repertório perfeito: “Positive Vibration”, “Kinky Reggae”, “Concrete Jungle”, “Rat Race”…

London Calling”, The Clash: tudo que o rock dos anos oitenta poderia ser e não foi.

Todos artistas que até tocam na FM, hehehee. Sem rap, sem Fela, sem Beatles, sem Coltrane, entre tantas outras ausências intoleráveis.


5 – Alguma dica de músicas, discos, artistas que estão pintando, música nova no sangue?

Acho que a banda Bixiga 70 merece atenção. Assisti três shows entre outubro e janeiro e a evolução é clara e empolgante. Reúne ótimos músicos de São Paulo que estudaram a linguagem do afrobeat, acrescentaram molho afro-brasileiro e fazem versões de peso, além de temas originais contundentes e promissores. Nas duas próximas quintas de janeiro eles tocam no Cabul (R. Pedro Taques, SP) e tenho o prazer de fazer a afro-discotecagem, antes e depois dos shows. Sou fã do Kiko Dinucci e fico de olho em tudo que ele faz, embora ele já não seja exatamente uma cara nova. Do Emicida já foi dito tudo, é um rapper que surgiu pra fazer a diferença realmente. A Nação Zumbi ainda é a melhor banda do Brasil. Gosto do trabalho atual de veteranos como Mulatu Astatke e o disco “Brothers”, da banda Black Keys, foi o que mais ouvi no ano passado. Fiz também uma saudável imersão na “Caixa Preta”, de Itamar Assumpção. A filha dele, Anelis, prepara o primeiro disco e boto muita fé. E acho que o novo disco da Orchestre Poly-Rhitmo de Cotonou (combo-lenda de Benin) é candidato a melhores de 2011. Também aguardo ansiosamente os novos de PJ Harvey e Beastie Boys, duas obsessões pessoais. Também recomendo as apresentações de Letieres Leite e a Orquestra Rumpilezz, surpresa vinda de Salvador.


6 – Qual o futuro do Radiola?

É o que está em discussão, reflexão. Talvez a solução seja voltar como blog, com um formato mais simples. Vamos ver. Temos dois focos de resistência: as discotecagens esporádicas e um quadro diário no programa “Cultura Livre”, na Cultura AM. Há também um sentimento de missão cumprida, acho que vários blogs legais são minimamente consequência da RU.


7 – Fale o quiser …

Quero fazer um programa semanal na FM, alguém me descola um?



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6 comentários
  1. Paulo Correa(tarsoryon) disse:

    Imagina se alguma FM vai deixar, o cara tem cultura e isso não é aceito por nossa midia!

  2. pi disse:

    Ótima entrevista.

  3. Marina Mantovanini disse:

    Ramirão faz parte da minha história como jornalista. Foi ele quem abriu a primeira porta para eu em aventurar a escrever sobre o que eu mais curto, música! Vida Longa à Radiola Urbana!

  4. Zé Henrique disse:

    Há uns 3 anos frequentava o ótimo RU, mas de uns tempos pra cá dava sempre sinal de vírus.
    Agora tá explicado.
    Tomara que volte, lá sempre se aprende um bocado.

    Abraços

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