Afonsinho no meio de campo caindo pela esquerda


Ele tem pinta de carioca, cabelos e barba grisalhos, o jeito de falar carregado, mas nasceu no interior de São Paulo, Marília, e em 1962 batia sua bola no XV de Jaú (clube que revelou muita gente boa). Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, começou a se destacar quando foi para o Botafogo carioca em 1965. Afonsinho foi grande excessão dentro de um esporte em que de uma maneira geral a alienação e o maniqueísmo sempre prevaleceram.

Estou em casa assistindo o Cartão Verde na Rede Cultura graças a uma twittada do Xico Sá. Perfilados, Afonsinho que é o convidado e o Sócrates. Dois doutores da medicina e da bola, personagens ímpares do futebol. Momento histórico.

Afonsinho conta serenamente a parte mais aguda de sua história: solitário, se rebelou contra a escravidão imposta aos jogadores que não tinham controle sobre o seu trabalho e sua carreira, o atleta carbonário deu o ponta pé inicial e rumo certo à futura lei do passe. E o fez sozinho, em plena ditadura, sem o menor apoio de sua classe. Além do mais, era um jogador vitorioso no campo.

Apesar de ter conquistado três títulos pelo Botafogo,  em 1971, seria questionado pelos reaças do clube por usar barba e cabelos compridos. Na verdade o foco não era a estética, mas postura engajada e libertária do boleiro. Afonsinho incomodava e foi para a briga, ficou um ano lutando pela liberação do seu passe e conseguiu. O TJD deu passe livre ao atleta. Vitória. Foi jogar no Olaria e seguiu se destacando. Jogou futebol até 1982, se formou em medicina e continuou militando politicamente em várias frentes. Escreveu sua história com jogadas geniais, idéias e ações.

Sigo aqui vendo o Cartão Verde e percebo um Afonsinho nada amargo, entusiasmado por várias causas, longe daquela fala travada de jogadores e ex-jogadores, que, algumas vezes por uma formação falha e falta de politização e outras  por puro comodismo e postura conservadora, se isentam de dar qualquer tipo de opinião minimamente polêmica. Afonsinho tá na vida, agindo e assumindo posições. Que bacana ver isso.

Música boa foi feita para o craque, justamente nesse instante, Afonsinho  fala no Cartão Verde sobre a canção que Gilberto Gil fez para ele . Numa ocasiãob foi à casa de Gil na Bahia junto com o então jogador do Flamengo, Paulo Cesar Carpegianni, supostamente para conhecer a referida música. Gil  não mostrou nada. Ele só chegou a ouvir a música tempos depois na casa de Caetano Veloso.

A música e Afonsinho articulando boas jogadas pela vida.

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8 comentários
  1. mario lobato disse:

    Sou botafoguense. Morei no Rio (residência médica)em 1978 e 1979, em 79 fui morar em…BOTAFOGO!!! O ditador era o Figueiredo, o diretor do HSE mais parecia um Almirante de Esquadra do que diretor de hospital. No primeiro dia de trabalho a gente tinha que se perfilar para inspeção. Tive que cortar o cabelo e tirar a barba… Uma greve de Residentes em 1978 deu uma sacudida no sistema. Dá para imaginar o que foi o Afonsinho, sozinho, enfrentando a repressão, os gangsters da cartolagem e a trairagem dos ‘colegas’ atletas…

  2. Paulo Correa(tarsoryon) disse:

    Jogava nuito!

    • Izabel disse:

      Talento e beleza jtos!Sou botafoguense saudosa de tpos que se jogava mais e falava menos.

  3. pi disse:

    boa bola, post de craque!

  4. JoãoLuiz disse:

    O Afonso, como os boleiros o chamavam, desde sempre esteve muito acima da média dos jogadores.
    Ele já chegou por cima. Não morava com os come-dorme, tinha bom salário, era considerado muito promissor, embora ainda amador. Dizia-se: Afonso o maior ‘contrato de gaveta’ dos juvenis.
    Fomos adversários no Campeonato Juvenil/1966. Minha grande glória: Bonsucesso 1 x Botafogo 0 !
    O maior problema futebolístico do Afonsinho foi o Gerson ‘Canhotinha de Ouro’, que era a estrela do Botafogo oriundo do Flamengo, controverso, titular da Seleção Tri de l970. O pior: era meia-armador, a mesma posição ambicionada pelo Afonso. Menino rebelde não soube esperar. Só teria chance após a Copa, quando o Gerson transferiu-se para o SPFC. O clima já era péssimo.
    O Afonsinho não esclareceu no Cartão Verde, mas o argumento que lhe deu ganho de causa foi ter sido impedido, pelo Botafogo, de trabalhar que é e era inconstitucional apesar da Ditadura.
    Não sei se João Saldanha, lendário jornalista botafoguense, comunista do partidão, pode ajudar.
    O Paulo Cesar que o Afonso fez referência não é, provavelmente, o Carpegiani mas sim o ‘Caju’ de quem o Afonso é ou foi cunhado, além de contemporâneos de Botafogo. É mais plausível que o arejado PC Caju fosse próximo do desbundado Gil e daqueles que aplaudiam por-do-sol no Leblon.
    Daí visitar Gil no Rio Vermelho/Salvador e não falar da música era normal, se é que fui claro.
    A brilhante trajetória política e humanitária do Afonsinho ainda precisa ser contada. Sou fã quase incondicional deste adorável paulista caipira que ainda acha que está falando demais.

    • João Luiz,

      valeu pelas contribuições, também achei estranho ele citar o Carpegianni como parceiro na visita, Caju cabia mais naquele contexto, de fato. Tem mais histórias sobre futebol? Vamos bater uma bola e compartilhar estas histórias??

      abraços

  5. Paulo Roberto disse:

    Conheci o Afonso pessoalmente através dos amigos Solon e Cesar, no campo de futebol do Chico Buarque, pois do futebol já era seu fã icondicional, ficamos amigos e acho que falar do seu futebol,da sua educação, da sua serenidade, da sua ternura com as pessoas,do seu caráter e da sua brasilidade é chover no molhado. Feliz de quem teve e terá o prazer de conhece-lo e com certeza ganhar um amigo. Abraços

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