“Rua da Consolacão, 94 – caem os tapumes, reabre a Mario de Andrade”.


Alargar as ruas…
E as instituições?
Não pode! Não pode!
Maiores menores
Mas não há quem diga
Maiores menores quem são estes homens
que cantam do chão?

São Paulo faz 457 anos, São Paulo cresce e envelhece, a cidade que rejeita e adere às pessoas, muitas vezes compulsoriamente. Este aniversário vem com um importante acontecimento que tantas vezes desaconteceu: a Biblioteca Mário de Andrade reabre completa para o público, digo completa porque desde julho esta funcionando a sua parte circulante.

A história da Mário de Andrade começa em 1925, na Rua 7 de Abril, centro de sampa.  Simbolizando uma mudança de abordagem no uso da cidade de São Paulo, em 1926 ela é aberta ao público como Bibliotheca Municipal de São Paulo”. O acesso direto é a grande e relevante novidade, até então os grandes acervos eram restritos, por trás dessa história seu futuro patrono: Mário de Andrade.

Além de ser o primeiro diretor da Bibliotheca Municipal de São Paulo, o escritor Mário de Andrade foi o primeiro intelectual e homem público a pensar a promoção da leitura como fator de desenvolvimento e necessidade estratégica do crescimento da cidade. Mário de Andrade fez o óbvio, que não era tão óbvio à época, abriu as portas e circulou o acervo. Em 1930 para complementar sua lógica e dar mais importância e destino aos acervos públicos, Mário cria a Biblioteca Circulante ,de fato circulante, pois era uma caminhonete desenvolvida e doada pela Ford que se fez biblioteca e circulava as praças e jardins da cidade levando os livros. Gestos simples que até hoje não foram totalmente absorvidos pelos gênios das politicas culturais.

A nova sede da futura Biblioteca Mário de Andrade foi inaugurada em 1942 na Rua da Consolação, com projeto  art déco do arquiteto francês Jacques Pilon e sob a direção de Rubens Borba de Moraes, outro intelectual importante e atuante nas ações de leitura. O acervo foi crescendo, é a segunda biblioteca em importância e em número de títulos e volumes no Brasil, só superada pela Biblioteca Nacional (com sede no Rio de Janeiro) e os serviços de preservação e circulação foram sendo diversificados. Em 1960 ela finalmente recebe o nome de Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Mário não defendeu apenas um prédio com acervo, mas lutou por ações que formassem leitores na cidade, mereceu a homenagem pelo que fez e pelo que representou.

Desde 2007 a fachada da BMMA estava encoberta por tapumes e poeira, uma obra que parecia não ter fim. Findou. A cidade de São Paulo contraditóriamente cada vez mais infensa aos espaços públicos e comuns devolve em festa ao seu povo a biblioteca pública, mãe de todas as outras do Estado. Que os mais de treze milhões investidos em sua reforma influenciem os diversos dirigentes da área de leitura a fazer valer um Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas (que até agora é uma peça de ficção) e, também, um Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias, ou qualquer nome que queira se dar, desde que otimize minimamente o mar de distorções e pontas soltas que imperam na área.

É bom lembrar: bibliotecas públicas não são livrarias, as alusões feitas as nossas ricas “livrarias mega”  em detrimento da precariedade de nossas bibliotecas, empobrecem e reduzem a discussão. Biblioteca é pública, gratuita (em termos) e universal e se dinamiza com políticas públicas específicas, livraria tem propósitos comerciais (parece óbvio, mas tem gente que compara e confunde). Que seja bela a Biblioteca Mario de Andrade, com mobiliário adequado e acervo constantemente renovado (confio no taco dos colegas bibliotecários), mas que seja impura ao admitir o diverso e as contradições que só uma biblioteca com público e para o público traz. Que seja como Mário de Andrade lutou para ser, que seja.

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3 comentários
  1. pi disse:

    Quero conhecê-la. Bjo

  2. Caio disse:

    Embora sintético, muito bem colocadas as observações no último parágrafo, embora admita que, pelo menos para mim, ser grande as dificuldades para incorporar nas práticas de serviço o contraditório, como fazer para que haja um franco diálogo dialético segundo Hegel (tese, antítese, síntese)entre práticas e linguagens consolidadas e novas expressões sem parecer concessão beneficente, ou seja, como de fato gerar processos de apropriação e protagonismo cultural?

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