“Projetos para Fomento à Leitura: como montar o quebra-cabeça”


Texto publicado originalmente no site: www.ofaj.com.br em agosto/2009.

Os movimentos em favor da leitura e do seu fomento têm sido contemplados de forma surpreendente nos últimos anos. Antes relegada a um canto cinzento das  prioridades, a leitura ocupa hoje espaço privilegiado nos discursos e em ações de instituições públicas, ONGs e em alguns segmentos do setor privado. Isso quer dizer que o investimento em leitura e na formação de um público leitor melhorou no país? Essa é uma pergunta de múltiplas respostas.

Os programas patrocinados por governos muncipais e estaduais, pelo MINC, ONGs , etc, procuram dar uma marca de distinção às iniciativas. Em alguns casos projetos que visam atingir o mesmo público e até a mesma região aparecem com nomes diferentes, cada qual procurando deixar uma marca. A carência na área é tão patente que a maioria consegue, em um primeiro momento, boa receptividade perante o público-alvo. O grande desafio, porém, esta na seqüência desses trabalhos. Na maioria das vezes suprem-se as necessidades emergenciais de uma região, cria-se uma demanda e por força de mandatos terminados e/ou por mudança de política de uma instituição, são abandonados para que outros sejam colocados no lugar.

O que se apresenta são dezenas de marcas de curta duração: baú do livro, leitura viva, ler é bom, leitura sem limite, etc. Todos os rótulos são usados, esquecidos e jogados fora. Essa constante interrupção e reinício implicam em um formidável desperdício de recursos que somados poderiam compor uma grande ação e investimento em pró da leitura. Os níveis do poder público e os outros agentes não dialogam, os interesses menores prevalecem em detrimento do objetivo final. Todo contingente deslocado para um projeto é desmobilizado e no lugar permanecem as intenções e as carências.

No cerne dessa discussão existem vários atores que são importantes para o desenvolvimento de um projeto nacional e interinstitucional para o fomento à leitura. Bibliotecários, professores, educadores informais, gestores públicos, intelectuais, agentes comunitários são protagonistas de ações, que raramente dialogam. Os agentes da leitura não trocam impressões, o que exacerba o isolamento.

Os movimentos pela promoção da leitura costumam se guetizar, causando prejuízo a um resultado mais uniforme e amplo, os agentes da leitura que trabalham na linha de frente, quase nunca estão em comunicação com o centro de decisões e sua atuação se fragiliza continuamente. A profissionalização e a formação dos agentes de leitura devem ser vistas como ponto estratégico de aperfeiçoamento e manutenção das ações.

A maioria dos programas de incentivo à leitura carece de um cuidado metodológico, em geral, partem do específico para o geral, o que os fragiliza normalmente na etapa mais importante da ação, justamente quando se inicia o contato com o maior número de pessoas. As ações são desencadeadas e as avaliações cíclicas, assim como as medidas de aperfeiçoamento, são abandonadas. Nesse momento ele é entregue à boa vontade de esforços localizados até acabarem esquecidos. A potencialidade de cada ação não é explorada, boas idéias são desperdiçadas, pois não são vistas como um processo e, desse modo, perdem o sentido e a força.

Claro que isso não acontece apenas na área de leitura, é uma prática comum, principalmente na aplicação de políticas públicas. Números do Ministério da Educação indicam que existem cerca de sete mil projetos de incentivo à leitura no Brasil, envolvendo escolas, ONGs, empresas, prefeituras, etc. Vejam, mesmo para um país com dimensões continentais como o Brasil, esse número não é nada desprezível. A impressão que temos é que os projetos não reverberam. O alcance de cada um, com raras exceções, equivale a uma medida paliativa, quase um desencargo de consciência de nossas instituições.

Analisemos o caso das universidades e a produção intelectual a respeito do assunto, com sua mania de “projetos-piloto”, onde um número restrito de pessoas é atendido com excelência para que sejam criados modelos, que, raramente são aplicados em universos mais amplos. Qualificar o intercâmbio de idéias e encurtar as distâncias entre as diversas ações é uma maneira de dar sentido e agilidade para o fomento à leitura, a universidade tem um papel decisivo nesse contexto.

Simpósios, congressos e colóquios são usados, em geral, para proselitismo e defesa de teses isoladas, o diálogo posterior se reduz a troca de folhetos e promoção dos projetos de cada qual. As resoluções retiradas no final desses eventos, geralmente, são recolhidas em anais que vão se empoeirar rapidamente, quando não entram para o anedotário.

Não estou aqui, é importante frisar, desprezando as reflexões sobre o assunto, tampouco os citados projetos-piloto. Porém, é necessário apontar a ausência de uma reflexão mais ampla, critica e em sintonia com as diversas realidades apresentadas, uma visão sistêmica que apure e construa estratégias onde as ações pela leitura consigam romper as barreiras e as dificuldades que as impedem de chegar para o maior número de pessoas.

Será que bastam as recorrentes feiras de leitura ou bienais que  mais promovem o “produto livro” do que lançam uma reflexão sobre o tema, ou mesmo facilitam, o acesso ao livro e à leitura? Lembremos: o livro e a informação representam muito mais do que produtos vendáveis.

Costumamos dizer que ninguém se opõe a iniciativas que visem promover e incentivar à leitura. Independente da coloração ideológica, partidária, todos acenam para importância desse quesito, que esta provado, altera os rumos e qualidade de vida de um país. Porém, essa unanimidade tende a ser esvaziada, quando é colocada a necessidade de uma ação conjunta que almeje a economia de recursos materiais e humanos e que coloque em segundo plano vaidades e interesses pessoais. A leitura padece pela falta de racionalidade e pela ausência de um projeto nacional.

Com a palavra nossos gestores.

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1 comentário
  1. Denise Queiroz disse:

    Bárbaro, Ricardo. Obrigada por esclarecer mais! Beijo!

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