Receita de bolo controversa


Ontem (21/02/2011) aconteceu um debate interessante no twitter (pelo menos foi onde o meu curto

alcance pôde acompanhar). A ida da Presidenta Dilma à festa de comemoração dos 90 anos do jornal Folha de São Paulo aguçou paixões contra e a favor.

A campanha para a Presidência da República, ano passado, foi marcada pela participação proativa e agressiva dos órgãos de imprensa mais poderosos em favor do candidato Serra e de tudo que ele representava. Há muito tempo não se verificava a aglutinação das diversas e diversificadas forças progressistas e de esquerda em torno de uma candidatura.  Pessoas com posições ideológicas e histórias diferentes se alinharam a candidatura Dilma.

Na internet esta pluralidade ficou bem marcada através das redes sociais, diariamente argumentos, declarações, raciocínios foram sendo explicitados produzindo um rico documento que pode estimular estudos e análises de um momento ímpar da história brasileira.

A vitória de Dilma, foi também a vitória da escolha coletiva não só pela continuação do que se foi e do que se defendeu no Governo Lula, foi principalmente a rejeição de um modelo autoritário e conservador que operou reiterada vezes os rumos do país.

A grande imprensa sempre foi ator importante nos momentos decisivos da política brasileira. Mais do que aderir a um modelo e uma escolha, a Folha de São Paulo escolheu um método, digamos, hetedoroxo, para que esta escolha ficasse marcada e foi muito contundente sempre que pôde em relação à candidatura Dilma.

Há que argumente que a Folha saiu do muro e aderiu como a imprensa norte-americana adere, sendo esta uma escolha legítima, há quem diga que não. A candidata, hoje Presidenta, foi atacada por este veículo com fichas falsas, ilações várias sobre sua vida pregressa (algumas explícitas, outras com falsa sutileza), a Folha não o fez sozinha, a Globo (e seu complexo), o Estadão e outros veículos contribuíram bastante com este coro uníssono.

Mais o país desafinou o coro e elegeu Dilma.

Parte dessa batalha e dessa resistência desafinadora se deu na web e nesse contexto pessoas se conheceram e se identificaram através das redes sociais, pode ter sido uma pequena quantidade, mas foi um grupo que fez (e faz) barulho.

Voltando ao dia de ontem, onde a Presidenta Dilma foi à festa de 90 anos da senhora nonagenária Folha, as mesmas pessoas que corroboravam, discordaram. Saudável. Mais diferenças virão à tona nos próximos atos do Governo Dilma. Louvável.

Elegante e democrático a Presidenta ter ido à festa? Se pudesse ou tivesse qualquer força de intervenção no querer dela sugeriria que  não fosse. Mandasse Palocci, Eduardo Cardozo e estaria bem representada. Não se trata aqui de propor biquinho e pedir que Dilma seja birrenta, mas uma atitude como essa pode abrir ou fechar caminhos de avanços futuros, vai depender muito mais do que se segue. Tomara que eu esteja superestimando.

Outra coisa completamente distinta de ir ou não à festa, foi o discurso que Dilma fez, laudatório e desnecessário, e muitos enxergaram nesse, ironia e sutileza,  penso que entrou para o que eu ainda posso chamar de pequenos momentos lamentáveis desse Governo.

Discordar da ida e do discurso de Dilma no convescote da Folha, não torna quem o faz opositor intransigente ao Governo Dilma, tampouco, quem defende a ida, se credencia como portador da verdade governista, o direito à crítica e à discordância foi burilado e ameaçado em vários momentos históricos por quem estava do “outro lado”, não?

Espero (exercitando a tolerância) que seja apenas a ida de uma Presidenta a uma festa de aniversário de um veículo de comunicação, hoje poderoso. Tomara que nos 100 anos de Folha (se ela durar até lá) esta “importância” e poder tenham diminuído, democraticamente.

Anúncios
7 comentários
  1. Denise Queiroz disse:

    Rápido no gatilho, você.
    Fiquei acompanhando a discussão no Twitter até tarde, sem me meter quase nada, apenas observando paixões, como o faço em ocasiões onde me parecem que a paixão fala mais alto que a razão. Adorei argumentos pró e contra, ri alto de algumas tuitadas. Ora, Ricardo, sabemos todos, em maior ou menor profundidade, a importância que os jornalões têm na história de nosso querido país. E nesse saber não vem ao caso a opção ideológica que eles tem, sustentam e defendem. Não é por serem contrários ao nosso entendimento de mundo que podemos desrespeitá-los enquanto agentes históricos formadores de uma mínima identidade nacional, quando outros meios não havia e a honestidade aos princípios jornalísticos também não havia sido posta a sete chaves em porões esquecidos.
    Me parece de uma infantilidade absurda pessoas que tem uma história louvável de batalhas reduzir a ida da Dilma ao evento, onde estavam representados todos os poderes da república, ao adesismo… ou mesmo sugerir que ela estaria conchavando com o PIG. A campanha acabou dia 31 de outubro. Ela é a presidenta e como tal foi ao regabofe em local encantador. Me encantou imaginar que esperavam sua não presença e que provavelmente já tivessem matérias e manchetes prontas para uma semana de malho, como é o costume.

    • Seus argumentos são válidos e parrudos, Denise. Mas me permita uma observação: a história se escreve, também, através de transgressões.

      • Denise Queiroz disse:

        Mas há que tomar cuidado com que tipo de transgressões e seus frutos. Nos infantes são inconsequência, nos adolescentes delinquência… e nos adultos crimes.

      • reitero, transgressões são necessárias a construção da história.

  2. Luiz Felipe Araujo disse:

    Creio que o que mais importa não é o fato de Dilma ter ido à festa da Folha. Afinal, trata-se de uma empresa do país fazendo 90 anos, e isso tem sua importância. E é mais que claro que sua presença lá nem de longe pode ser tachada como “adesismo” ou “conchavo” – rematada tolice. Mas não concordo com os que dizem que “ela era candidata, agora é presidenta”, como se isso apagasse as infâmias que foram cometidas. Ela foi atacada em sua dignidade como pessoa, e não somente como candidata, durante a campanha – vide ficha falsa, entre outros muitos exemplos. Todos nós fomos também atingidos por esta empresa com a ditabranda. Não acho que os donos da festa ficaram incomodados, esperando o seu não comparecimento. Não acho que isto causou qualquer constrangimento para eles. Não achei também tantas entrelinhas no discurso – e nem são necessárias firulas para afirmar posições. E acho que não cabem num mesmo discurso elogios a Frias e a Herzog.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: