A Transa dos Lobos


Quem cochicha o rabo espicha … Lobão e Caetano não cochicham, gritam, todo mundo espinafra, desdenha, corrobora, de fato, o barulho reverbera, será que é suficiente?

Um grande país se faz com idéias e ações e se desconstrói com clichês, tipo: “Caetano é um idiota” ou “Lobão só é um bufão”.  Na baliza da ideologização redutora, mentira repetida vira verdade.

Para cada polêmica que envolve os nomes referidos, surge um manancial de preconceitos recalcados e outro tanto de mistura deliberada de estações que quase nunca têm a ver com que esta sendo discutido.

Na rabeira do buxixo questões que poderiam avançar com a fala de quem é “ouvido”: direito autoral, política cultural, produção cultural, música brasileira e por aí vai…o essencial passa batido, fica a gritaria.

Lobão bate em Caetano e vice-versa, porque ambos tem visibilidade e voz, no meio dos dois e, principalmente, dos assuntos focados, habita uma multidão de meros ecos (que pouco refletem sobre o que estão refletindo), um tanto de oportunistas e outro tanto de bem-intencionados.

O resultado é: lobões e caetanos, não obstante, os ódios e paixões que inspiram, ainda dão o tom das discussões sobre a cultura brasileira. Se isso é ruim ou bom, não importa, mas é insuficiente. A culpa não é de Lobão, nem de Caetano, óbvio.

Caetano saiu em defesa da irmã, Bethânia, no Globo neste último domingo. Despachou a fala colocando a nu a contradição daqueles (inclusive ele próprio) que detratam e destratam a Lei Rouanet, mas quando se discute a mudança da própria, se escondem atrás dos interesses mais imediatos. Quem de fato quer mudar a Lei Rouanet, e se quer qual o rumo dessas mudanças?

Lobão outro dia em uma das suas entrevistas cachoeira  jogou no ventilador a contradição daqueles que hoje defendem uma mudança no direito autoral, mas que quando ele próprio (lobo solitário?) tentou mudar, colocando CDs para vender em banca de jornal a preços acessíveis, ficou sozinho com o pincel na mão.

Descontada a auto-vitimização de ambos, eles ao menos põem a cara a tapa, enquanto o conforto do silêncio abraça uma maioria que prefere operar nas sombras e garantir os seus interesses.

São dois exemplos de assuntos que não podem ficar à sorte de opiniões isoladas,  e o reducionismo não deve cair na conta de quem grita, mas de quem cala, ou fala por terceiros sem mostrar as digitais e ferraduras do próprio interesse.

Há calados que se lascam, e outros que se beneficiam.

A arte e a cultura do país precisam ser discutidas fora das sombras, e não depender de fígados açodados e amargos para saírem do lugar. Antes de serem intituladas de falsas polêmicas ou caírem no balaio dos oportunistas de plantão, que se avance para além dos perdigotos vertidos em letras dos cadernos culturais.

Basta olhar os comentários nos portais e nos blogs que reproduzem as citadas polêmicas: com as exceções já esperadas, a maioria do que se lê, não avança além do preconceito, das opiniões apressadas, ou da dicotomia Fla x Flu.

Espero que em breve, Lobão e Caetano possam descansar.

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7 comentários
  1. sigmar montemor disse:

    viva Ricardo !

    parabéns ! oportuna e pertinente “filosofada” sobre nossos lobos solitários…vozes altivas e ativas do cenário musical brasileiro…cenário esse recheado de figuras inodoras, insípidas e dispensáveis…

    O LOBO

    Não sou cão
    Sou lobo

    Não obedeço
    Nem mereço

    Não abano o rabo
    Dou cabo

    Não ladro
    Uivo

    Caço minha presa
    Alma acesa

    Não minto
    Ao meu instinto

    Solto no prado
    Faro aguçado

    Não quero afago
    Onde quero cago

    Então
    Não sou teu cão

    Humano bobo
    Sou muito lobo !

    Sigmar Montemor

    BIG ABRAÇO !!!

  2. Muito boa sua reflexão, Ricardone. Apesar de gostar mais dos pontos de vista do Lobão, sei que ele não é perfeito, mas ele é bom pra fazer barulho e fazere pensar, só falta se conduzir esse barulho na direção de uma discussão séria sobre política cultural no Brasil. O Caetano fica aproveitando a sua posição de grande senhor da MPB e acaba ficando em cima do muro dos seus interesses imediatos e da máfia do dendê.
    Parabéns pelo post, e mais uma vez, obrigado pelo seu help no dia do meu acidente na seção.
    Um grande abraço do amigo aqui convalescendo.
    Marcello Blum (agora meio lulinha)

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