“Skinhead Negro?”


Manhã cinzenta do último sábado (09/04/2010) e eu acompanhava pelo twitter, relatos sobre o ato pró-Bolsonaro (a face mais evidente e bandeirosa do fascismo que saí do armário). As notícias vinham diretamente das twittadas do ativista Raphael Tsavkko. O palco era o Vão Livre do MASP. Naquele raro momento, grupos de extrema direita, mostravam os rostos e os ideais, fugindo da costumeira sombra onde operam suas formas de “manifestação”: violência contra minorias, covardia, intimidação e muito proselitismo em redes fechadas. Os cartazes e as palavras de ordem tornam até mais “honestas” as idéias que rejeitamos.

Ironicamente, os seres “normais” que reproduzem as idéias e costumes defendidas por Bolsonaro não apareceram, estes são mais dissimulados e diluem o preconceito em meio a um discurso polido e menos bandeiroso, na linha de frente apenas os bois de piranha, os chamados grupos extremistas, jovens de preto, skinheadas, neonazis, ultranacionalistas, sei lá como chamá-los…

Em meio aos grupos estereotipados com suásticas, cruzes de ferro, coturnos, cabeças raspadas, corpos prontos para guerra, estavam algumas figuras aparentemente fora do lugar: jovens mestiços, negros. Contradição? Misto de desinformação e falta de rumo, este não é fenômeno isolado e tem controversa origem histórica …

Quando falamos em skinheads, suedhead, boneheads, oi, white power, rashs, sharps, carecas … estes termos se misturam e são lidos/interpretados como uma coisa homogênea. Mas há muita diversidade e matizes ideológicas totalmente distintas, para tentar entender temos que nos afastar das generalizações e simplificações preconceituosas. Não é tudo igual.

O adolescente como consumidor, segundo alguns teóricos, surge a partir da década de 50, nada por acaso, o nascimento do rock’n roll (primeiro produto musical acabado e embalado para adolescentes), a moda voltada para o cara que saia da infância e não queria se vestir como os meus pais, nem tal qual o irmão mais novo, a televisão, os quadrinhos, o cinema, todos usados de forma sistêmica. A maior força do capital chegava a um público que não fora à guerra e estava vivo, pronto para consumir.

Claro que o comportamento adolescente já existia muito antes disso, o jornalista Jon Savage aponta em seu livro “A criação da Juventude” (Ed Rocco, 2007) que em 1904, o psicólogo G. Stanley Hall criara o termo “adolescência” e mostrou ao mundo o seu significado, e vai mais longe desde o século XIX, grupos de adolescentes ja campeavam pelas ruas de Nova Iorque (Bowery Boys), Paris (Apaches) e Londres (Hooligans pré-futebol) misto de gangue de rua e juventude abandonada em pleno galope capitalista.

Na origem do movimento skinhead, e ai temos que retomar à europa, mais especificamente a Inglaterra,  na primeira metade da década de 60 reinavam duas gangues rivais: os rockers (adeptos do rock and roll, couro, topetes e tal) e os mods (fãs da música negra americana, soul, r&b, alfaiataria, requinte e pose) e a origem do movimento skinhead deriva ironicamente dos segundo grupo, deles surgiriam os hard mods, briguentos que gostavam também da música negra americana (acrescidas do ska e rock steady jamaicanos).

Juventude inglesa dos subúrbios de Londres e cidades do interior, basicamente classe trabalhadora, daí o coturno (botas Doc Marten), a cabeça raspada, os suspensórios, visual sisudo. Esta rapaziada vivia lado a lado com os antilhanos (das colonias inglesas), jamaicanos na maioria, que habitavam o mesmos bairros e foram o fio condutor para a trilha sonora que os diferenciava e os fazia pular de forma enérgica: o ska, o reggae. Skinheads nasciam ao som dos jamaicanos, os shows que eles frequentavam eram capitaneados por estrelas do ska,  do blue beat, do rock steady e do reggae, todos negros: Laurel Aitken, Symarip, Derrick Morgan, Desmond Dekker e também os compositores de soul da Motown e da Stax.

Portanto, era comum skinheads negros e brancos, lado a lado com o mesmo jeito de se vestir, ouvindo a mesma música, frequentando os mesmos lugares, e tendo os mesmos inimigos: os hippies, que taxavam de parasitas e os paquistaneses, menos “integrados” ao way of life inglês, e para os quais era canalizado o ódio racial (não organizado e manipulado ainda) presente no movimento. Na essência era a velha história, juventude pululando hormônios e buscando um nexo para acordar de manhã, nem sempre o mais bacana, mas…

Até então não havia nenhuma evidência ou algo que os ligasse objetivamente a pensamentos de extrema direita. O nazismo passava longe, alguns camaradas dos caras eram negros como dito acima, havia sim, um contraditório nacionalismo, como é que uma parte desses jovens com origens em paises colonizados pela Inglaterra seriam nacionalistas?  A maioria se dizia apolítico, isso é comum e uma resposta padrão originada na preguiça e na despolitização, outros tinham ligação com partidos tradicionais, mais por motivos particulares, do que por alguma orientação organizada do movimento. A tônica era música, torcer para o time do coração (donde o hooliganismo recebe importante reforço das fileiras skinhead), vestimenta e alguém para beber nos feriados e nos sábados a noite.

A eclosão do movimento punk na segunda metade da década de 70, reuniria outra geração de skinheads, alguns poucos remanescentes da primeira leva, que logo após seria romanticamente entitulada “Spirit of 69“, ainda estavam na ativa. Daí surge a politização do movimento e ela não é homogênea e linear, os skinheads se dividiram entre a esquerda, a direita e os anarquistas. A direita foi mais direta e organizada e o ponto central dessa história foi o National Front, que emprestou apoio logístico e deu organicidade aos skinheads recrutados. Lembremos que estavamos na Inglaterra da década de 70, desemprego, recessão e jovens sem rumo.

Nos anos 80 esta disputa ideológica se acirrou. De um lado, figuras como o lider da banda inglesa Skrewdriver, Ian Stuart, que gravou em 1984 o disco “Hail the New Dawn” , tido como a biblia do movimento White Power e professando máximas da supremacia branca. De outro os caras do Redskins, por exemplo, cujo o vocalista e lider, Chris Dean, era ligado ao movimento trotskista inglês. Bandas da chamada segunda geração do ska (Specials, Madness, Bad Manners, etc) que gravavam pela gravadora Two Tone, tinham em sua formação skinheads antiracistas ao lado de negros.Isso é só uma pequena mostra do imbróglio que tem que ser analisado de perto e com muito cuidado.

A partir de então as derivações da “idéia skin” tomam corpo e razão muito ligadas ao contexto onde são utilizados. No EUA por exemplo, grupo de neonazistas engrossam o movimento e há claras ligações com membros da KKK, na Alemanha, principalmente na parte oriental, uma amálgama de têndencias canalizam o ódio contra imigrantes e “minorias” em geral. Assim rola na Italia, Austria, França, Portugal…

No Brasil a origem da história se deu no começo dos anos 80 com os Carecas do Subúrbio (zona leste paulistana) e Carecas do ABC (região do ABC paulista) e teve influência direta da segunda geração skinhead. De qualquer maneira vou deixar um link de um trabalho mais aprofundado sobre o caso brasileiro do pesquisador Jefferson Barbosa:

PROLETÁRIOS E NACIONALISTAS: SKINHEADS E INTEGRALISTAS NO
BRASIL CONTEMPORÂNEO

Claro que não dá pra fazer uma comparação direta entre os jovens negros de origem jamaicana que engrossavam as fileiras skin na década de 60, e os rapazes negros e mestiços que faziam coro à cantilena pró-Bolsonaro no último sábado. São momentos diferentes, mas é interessante olhar em perspectiva a trajetória de um movimento que começa e tem origem num momento tão distinto da história e até hoje sofre releituras e formas de uso completamente diversos da tal origem. Com os mesmos trajes e um contexto totalmente diferente.

Recomendo os texto muito bem feito da:

Wikipedia

O blog:

Webzine Sharps – Brasil Skinhead

Outro blog  – com as referências musicais – dica do Odilon:

You & Me on a Jamboree

e o link para download de um dos livros mais honestos sobre as origens do movimento skinhead:

Espirito de 69 – A Biblia do Skinhead – George Marshall (esgotado por aqui) e que foi traduzido pelo Glauco Matoso

Algumas imprecisões do texto podem ser corrigidas em colaboração.

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9 comentários
  1. Só é preciso deixar claro que os SHARP, RASH e Redskins não tem NENHUMA relação com ideologias de direita. Os SHARP são estritamente anti-racismo (Skinheads against racial prejudice), os RASH são comunistas e anarquistas e os Redskins são comunistas.

    Ótimo histórico, aliás!

    • Odilon disse:

      Raphael/Ricardo

      O SHARP, teoricamente, não tem vinculação política evidente. Em algumas localidades há um flerte com a direita, a partir de um discurso extremamente patriótico e/ou nacionalista, como é o caso dos EUA (local, aliás, de surgimento deste grupo específico).

      A “cena” skinhead brasileira é realmente multifacetada, pois além dos subgrupos habituais (sharp, rash, trad), há os Carecas, que tem uma origem bastante conturbada. É bastante recente (10 anos, presumo) o surgimento destes grupos que combatem a visão direitista da cultura skinhead. Além dos RASH/SHARP que Raphael falou, cabe citar coletivos como o http://youandmeonajamboree.blogspot.com/, que buscam resguardar as origens inglesas e sobretudo jamaicanas do skinhead.

      abs
      Odilon

      • Odilon,

        tirante a questão política, tão importante e presente, a música que ilustrou a trajetória histórica dos meninos de cabeça e Doc Marten é muito interessante. Do ska, rock steady e reggae cultuados no início, passando por grupos que pegaram a carona da fervura skin, como foi o caso do Slade, até as bandas da década de 70, início dos 80, que vinham da cena 77 punk e desembocaram no street punk ou oi (Cockney Rejects, Angelic Upstarts, Sham 69). A cena Two Tone (ainda escrevo sobre isso) com Madness, Bad Manners, Specials, Selecter deu sangue novo ao second coming do Ska. Depois as derivações mais pesadas e os crossovers com hardcore e metal…

  2. Pedro Sefia disse:

    Muito bom o texto. Pode ser que na origem os movimentos skin tenham tido negros mas no contexto atual não se explica, a não ser pela desinformação – como você fala no início-, que negros participem desses movimentos.

  3. Vinícius disse:

    Já conhecia um pouco da história do Skinhead, mas o que me espanta foi a (não)reação dos outros em relação aos óbvios neo-nazis que estavam presentes. Eu imagino que tenha um caráter político(“estamos todos apoiando o Bolsonaro logo sem conflitos”),
    mas eles acabam contribuindo pra “imagem ruim” do grupo.

  4. seo services in delhi disse:

    Pedro,
    Eu imagino que tenha um caráter político(“estamos todos apoiando o Bolsonaro logo sem conflitos

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