“Até a hora que virar de verdade.”


A Virada Cultural ocorre desde 2005 e é promovida pela Prefeitura de São Paulo. São 24 horas ininterruptas de atrações de música, cinema, dança, teatro, circo …  espalhadas pela cidade (principalmente pelo centro) e alguns pontos da periferia. Frisson, loucura, apoteose … depois o silêncio. Em termos de investimento (divulgados foram 8 milhões de investimento direto, sem patrocínio) o custo é alto, em termos de politica cultural é um desastre.  Não se faz política cultural em 24 horas. Maravilha seria a Virada Cultural nas 24 horas escolhidas e  em várias “viradas” pelo ano todo. Ao invés de uma ação relâmpago, ações estruturantes, permanentes, mas … Quando critica-se a Virada Cultural não é por ser do “contra” ou birra, é dinheiro público que esta em jogo e concepção de politica cultural.

Deixando um pouco de lado a militância cultural e caindo na pura fruição, fui atrás da música. O ano passado (2010) confesso que a garoa e o excesso de público me afastaram da Virada,  timidamente assisti o Booker T no Palco São João, chegando com o show já começado e saindo com ele por terminar. Neste ano, três atrações me animaram de bate pronto: Fred Wesley, Skatalites, Eumir Deodato, duas delas conferi, uma eu perdi, mais vieram outras de lambuja, e valeu a pena.

Na noite de sábado cheguei por volta das 21:40 na Praça da República estava prestes a começar a apresentação do trombonista americano Fred Wesley. O velho Nelson Triunfo (agitador da cena e exímio dançarino de soul) apresentou Fred, que foi arranjador e trombonista de James Brown, George Clinton e liderou o JBs. Música de verdade com direito a um baixista da pesada que roubou a cena e detonou: Dwayne Dolphin. No mais, arranjos corretos de um cara que escreveu um capítulo considerável da historia do soul e um set list de matar barata no chão. Bom começo.

Pensei em ver o Skatalites, veteranos, precursores e sobreviventes da primeira onda do ska. Pensei, pensei. Desisti. O palco São João devia estar muito cheio.

Fui direto para o Palco Libero Badaró onde se apresentaria uma hora depois Eumir Deodato.

Cheguei lá e ainda tava no palco (exatamente meio da apresentação) o tecladista inglês Brian Auger e o Oblivion Express, que vem desde a década de 60, misturando jazz, psicodelia, blues, pitadas de soul. Sorte, sorte!  Durante a sua carreira ele tocou com Hendrix, Eric Burdon, Sonny Boy Williamson,  John McLaughlin … Na apresentação  esbanjou simpatia, misturou português com italiano nos agradecimentos, batera, baixo e a cantora Savanah Auger seguraram a onda. A hora de espera pelo show do Eumir foi recheada com a música de Brian Auger  e seu Hammond B3, cheio de camas malandras, que até então eu só havia escutado em disco. A emenda foi melhorando o soneto.

Eumir Deodato é daqueles músicos que já  chega com o show ganho,  junta grandes acompanhantes pela fama e pela qualidade, vale a pena elencar: João Castilho (guitarra) que debulhou nos solos, Renato Massa (bateria) , Leonardo Reis (percussão), Marcelo Mariano (baixo)  filho de Cesar Camargo Mariano e da cantora Marisa Gata Mansa, José Canto (sax barítono e flauta),  Jessé Sadoc (trompete), Aldivas Aires (trombone), Marcelo Martins (sax alto).

E descem versões maneras de Steely Dan (Do It Again), Led Zeppelin (Black Dog) , Rapshody in Blue (Gershwin), Peter Gunn (Henry Mancini) que nas mãos de um qualquer ficaria com uma salada de covers desconexos, mas nas leituras de Deodato se harmonizam e tomam novos rumos. Na exatidão anglo-saxã –  para acabar, porque o início atrasou –  uma hora e a apresentação chega ao final. No bis “Assim Falou Zaratustra” foi a certa para fechar e ficar na cabeça de todos.

Eumir veio de New York e deu conta do recado e da minha aversão à fugacidade da Virada. Fui dormir com música boa ecoando.

Na luz do dia teve mais. Foram dois pequenos drops. A grata surpresa da Orquestra Rumpilez do maestro baiano Letieres Leite, conduzindo percurssão e sopro, leveza de um domingo ensolarado, música com ritmo forte e melodias bonitas. Foram poucas músicas (novamente cheguei com o show começado) e um futuro a conferir. Já havia lido muita gente boa dando dica sobre os caras e ainda não tinha ouvido, agora vou atrás, e quando vierem tocar novamente em sampa, ratifico.

O outro drops foi no final,  já voltando para casa …

A dupla mais glam que poderíamos imaginar. Glam no brilho e na autenticidade, sem trocadilhos. No palco juntos: Maria Alcina e Edy Star. Alcina, risonha, quase heroína de  postura adorada e Edy bem longe do clichê raulseixistico onde tentam enquadrá-lo. Edy é bem mais, é cabaret, é sobejo de música brasileira das mais amplas areas. Edy sabe o ponto de equilibrio do cafona e do bacana.  Edy e Alcina, alternando figurinos, irônicos, rebolantes, dando sopa e show, contentes, cantando o triste Assis Valente. Com eles a Orquestra Urbana Arruda Brasil, ponteando malandros arranjos  Peguei quatro músicas do show. Mas valeu o riso e aquela tristeza recondita. Que Edy e Alcina jamais desapareçam.

Da Virada poderia ter visto mais ainda: Dom Salvador e Abolição com Tony Tornado, Edgar Winter, Sossega Leão (grande Skowa figuraço), Mad Professor, Erasmo Carlos, Slim Jam Phantom, Riachão e tantos outros. Mas não vi, porque a Virada são só 24 horas e não mais, claro que rolaram “viradas mais completas” que a minha, gente mais disposta e animada que correu o centro perdendo muito pouco. O fato é que não dá pra estar em três lugares ao mesmo tempo.  Já tá bom? Não, não tá, creio que a cidade merece colorir mais dias, e para continuar sendo chato, temos que rediscutir as várias políticas culturais a serem implantadas e os caminhos pelos quais elas passam. Virar a Virada. Fica a música que rola ainda na cabeça para pacificar e espantar os males …

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5 comentários
  1. Orra, meu…

    Quem me dera!
    E ainda ganho aqui uma canjinha dessa coisa mais linda do mundo
    que é Zaratustra by Eumir Deodato.

    A matéria é magnífica. Desconheço alguém que escreva assim, com
    essa fluência, esse jeito de me fazer sentir andando contigo
    por ali tudo.

    Amei.

    E concordo, SP merece mais do mesmo, e mais do que se pode obter.

    Grata pelo passeio delicioso contigo ao redor da Música.

    Abraços

  2. Concordo com a Carmen, há textos e textos. As que eu crio as vezes nem eu consigo ler, pois irrita, e já que você é meu vizinho, que tal umas aulas de redação para mim?

    Sobre a matéria, você foi e comprovou, veremos como será a de São Bernardo do Campo e, aos shows que perdera, sinto muito. Sim , sinto por você e até por mim, pois se eu estivesse ai, não saberia como escolher, já que não dirijo.

    Ricardo, espero… mas espero mesmo que tenha escolhido o show melhor para aquela hora.
    Eu que sou jazzista, já pensou como ficaria minha cabeça com John Coltrane na Zona Sul, Miles Daves no leste, e Brubeck no Centro, tudo ao mesmo tempo??? Assistiria um, mas dos outros com certeza ficaria com muito remorso.
    Parabéns pelo texto

  3. stemamo disse:

    Era pra eu ter ido! Preguiça! Vacilo! Muito trampo! abs!

  4. Lufeba disse:

    Também na maior vontade de ter ido. Segundo minha filha, que foi para Sampa só para a Virada, muita coisa boa e muita coisa dispensável, como não poderia deixar de ser num evento tão grande. Do que viu, gostou especialmente do show de Edgard Winter.

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