“Passeio a pé pelo centro de Sampa (noite)”


São Paulo quer se perder de nós o tempo todo. Pensamos ter São Paulo, na memória, na retina, pensamos lembrar São Paulo, mas ela não esta mais do jeito que lembramos. Seja o tempo que for, seja quando for, ela mudou e sempre despercebida. São Paulo muda com a sanha leviana da independência, se perde tal qual um ser abusado, que se dana em excessos, que escorre nas suas próprias ruas. Em especial a área central que tem delimitado começo geográfico, mas não imaginário. Este início se insinua no Parque Dom Pedro, entre o Tamanduateí fétido que dialoga com a Ladeira Porto Geral e com a General Carneiro. Desemboca na opulenta XV de Novembro, sempre em parceria com a mais alta, Rua Boa Vista, que nas noites ficam ambas entregues às “sobras” de humanos e de dejetos humanos, saldo negativo das fartas contas ali operadas durante o dia. Optamos pela Rua Direita que já foi sambão jóia dos Originais, que se perde num romantismo longínquo, nem sombra, nem sombra… Mais à direita um Largo do Café, no escuro e fechados os estilizados espaços para os já quase extintos engraxates. Perto dali o Pátio da Igreja São Bento, o Estado (guarita da PM) e a Igreja juntos. Outro dia ali em plena Virada (Cultural), pude ouvir o nada paulista Eumir Deodato tocar.  Olhando a dupla o renitente Café Girondino aberto toda noite. Mais a frente o fetiche que Adoniram avisou para a Eugênia, o britânico Viaduto Santa Ifigênia, que hoje nem atravessei. O propalado efeito “contaminação” dos espaços culturais que supostamente qualificariam o entorno, não passa de mais um empáfia enganosa dos tucanos. Os espaços funcionam em horários escassos e no restante do tempo servem de sombra para os miseráveis que dormem, se escondem ou simplesmente vivem nas suas margens. Longe das orquestras e dos balés que lá se apresentam. Desvio mais o caminho, e então, a Praça Patriarca, lugar em que anos atrás escondia seus suntuosos prédios com elevadores da década de 20, sebos de discos e livros. Eles não existem mais , como tudo na cidade ou migram ou desaparecem, estão em outras partes do centro. A noite estes extintos sebos se tornam lembranças ainda mais vagas, lembro de um especificamente: Musicanto. No caminho um casal das ruas  com o rosto descarnado. Impossível não olhar. Dureza da vida! Viaduto do Chá que já foi versado e burlado pelo Joelho de Porco de Terpins e Albanese (“Andando nas ruas do centro, cruzando o Viaduto do Chá …”). Nas beiras, meninas sorridentes usam de background a Nove de Julho e a Praça das Bandeiras ao longe, para compor suas instantâneas digitais. Correm risco, podem aparecer alguns desvalidos e surrupiar a sua máquina. Não acontece. Seguem ainda sorridentes iluminadas pela glamorosa luz do Shopping Light.  Chegar em frente ao prédio do Velho Mappin, que sempre me remete às falas de Antonio Del Fiol: “É só nesse sábado” propagandeando as liquidações da distante loja de departamentos. Mas São Paulo não é apenas saudade, é presença, ta lá o Teatro Municipal, que aparece atemporal, solerte, estilo eclético, construído no Morro do Chá, perene, uma presença “ausente” da cidade, democrático ao menos nas suas escadas, quando não há tapumes, onde muitos conversam, descansam, desfalecem, esquecem que a cidade não perdoa. Não há opera ou concerto que acorde o sono de descanso da cidade do cansaço. Viver em São Paulo, viver nas suas ruas, sei lá, só quem vive para saber. Eu pergunto um dia, juro que pergunto … Quebro a Dom José de Barros no rumo da Rua 24 de Maio, das galerias que foram soberbas da riqueza, dos serviços requintados de uma Sampa que já era, nem era Sampa quando o era. Hoje as Galerias emprestam suas escadas rolantes obsoletas para o rock e suas derivações, para seus artefatos, ou para a música black e também para os salões onde os estilos de cabelo se afirmam em beleza. E tem a Barão de Itapetininga que para mim, lá nos anos 80, abrigava a velha Brasiliense, onde eu sugava tudo que podia da Coleção Primeiros Passos  aos beats que descobria. Economizava e comprava. Mais: Caio Fernando Abreu, romance policial noir, a Brasiliense argüida por Caio Prado. Lá no canto a Sete de Abril, da Galeria da Livraria Francesa, no mesmo lado a Loja de Discos Wop Bop, onde me fartei de flertar com discos impossíveis pro meu bolso, mas também onde descobri outros tantos. Esta São Paulo era minha, acho que de tantos outros, mas julgava meu melhor lugar para fugir. Correr a calçada da Praça da Republica, logo ao descer do Metrô, e entortar na esquina famosa do baiano polêmico, olhando de longe dá pra ver e já sentir o gosto do Mate com Leite, encravado na São João, eram três, agora duas lojas. Mate com leite e morango, às vezes mate com leite e aveia, enganava fome e rumava para o Datafolha (trabalhei ali) enganado com o salário e a enganar milhões. Avenida São João noturna assusta. Já não há mais o uma loja de ponta de estoque de livros (chamada de cemitérios das editoras) que funcionou ali até meados final da década de 90  e o sanduba da Ceratti, não há atrações. Sim, há os ônibus passando e cinemas decadentes com programações obscuras que servem de fato para o trottoir imóvel de alguns. Atravessar as avenidas cruzadas e ver o Bar Brahma, onde um dia ouvi Cauby Peixoto, também Ângela Maria, e que tinha no piano bar, isto antes da grande reforma, a pianista Maria, que tocava boleros, fossa brasileira, muzaks. Um lounge luxuoso cravado no centro da cidade evitada pelos mais “delicados”. Avenida Ipiranga onde eu ia adolescente saborear o milk shake de Ovolmatine do Bobs. Ela hoje espelho perfeito da gentrificação do centro, que expele e usa seu exército de nóias (inocentes nessa) para dar sentido de caos e afirmar: “não tem jeito mesmo!” Tome especulação e projetos mirabolantes: “Centro Novo”, “Novo Centro”, “Centro Vivo”, todos eles usando em matérias de jornal o termo “revitalização” como se não houvesse vida ali, como se a vida estivesse ainda por chegar. Avenida Ipiranga dos cinemas (como os da São João) que hoje são apenas tapumes sujos e prédios escuros, sem tela funcionando. Passar a perna rápida na Praça da  República com seus cantos escuros, ali os meninos em viração, os encontros não marcados (por serem aleatórios na certa) e a velha tradição que um dia, Mário de Andrade, relatou e escondeu. Assistindo tudo o velho colégio Caetano de Campos, hoje prédio da Secretaria de Educação. Detalhe. Chegando pela General Jardim, Teatro Aliança Francesa, as meninas e os meninos ganhando na rua, o que perdem na vida. Desemboca na Amaral Gurgel, sombreada pela feiúra do Minhocão, que tem em sua extensão um flerte com o Largo do Arouche e um descarrego na Consolação. Vou chegando. General Jardim outra vez, na sua segunda e última parte, o prédio da Escola de Sociologia e Política. Em frente à mítica Biblioteca Monteiro Lobato, na praça. Biblioteca que dizem ser infantil, mas onde os agitos já foram para crianças e adultos. Boa lembrança e exemplo de ação cultural outrora na cidade. Volto ao prédio da faculdade, antigo da década de 30 (do século passado). Passeio no prédio, vou até o expediente da secretaria, preciso de um documento. Bendito documento que me fez ver a cidade que há tempos não via a noite e a pé.

Vista de Sampa (passarela do Fura Fila)

Anúncios
15 comentários
  1. Tirou de minha boca o que eu gostaria de revelar, mas sem palavras para impregnar no papel. Sou, embora não dirija, um mero andador pelas ruas de São Paulo…Eu e meu sax…
    Andei por tantos lugares, a pé de verdade curtindo a cidade que não para e em cada “Taverna” um show diferente, gostos diferentes mas a recepção é típica paulistana.
    Eu e meu sax(Hemo) apelidado por Jota Moraes do Rio de Janeiro, Já fez a visita as ruas vazias, ao movimento interminável de carros, às Bibliotecas e em especial, a do Paraíso…Nesta Biblioteca que tive o primeiro acesso ao John Coltrane, onde mais tarde compraria um LP zerado, uma relíquia.
    Vida de músico é assim meu caro Ricardo, é a noite que vemos as coisas acontecerem.

  2. A cidade é totalmente outra, vista e vivida a pé, sem velocidade, morosa, em planos longos e contínuos. Mas a cidade assusta e repele, é um desafio.

    • Eu nunca me assustei, embora tivesse que ter esse trauma.Aprendi a contar os passos, passar por onde não há poças, para não ser surpreendido por um carro e seus pneus. Não sou tão bom como você embora eu tente, mas na noite há sim vida e não me amedronta afins de até tirar da caixa o meu sax e tocar com aquele guitarrista que apanhou na Augusta.
      Das coisas que levo em minha vida, são coisas boas, de bom paladar, de bom cheiro.Imaginar, talvez, que a noite não foi feita para se viver também é o caos.
      Tenho medo sim, do dia, este é um trauma, desafiar, nos seus dizeres, assusta a mim só no dia, onde tudo é confuso, nada é sincronizado, todos com muita pressa, até eu, não que isso não seja normal… é normal…Para São Paulo é!
      Quando o sol se põe, o breu surge, ainda temos que esperar alguns instantes para ter a hora mágica de São Paulo.
      Ao contrário,em São Bernardo eu tenho outras palavras, ai sim….Aqui não saio nem de casa. Em plena terça feira você encontra o que aqui? pois é!!! Como minha mãe dizia “É dar sorte para o azar”
      No abcd , apenas em São Caetano eu vejo uma luz, mas muito pouca e estamos mal informados… Acredite.. Das noites do ABCD e SP eu conheço muito e aqui, somente São Paulo para dar alívio.
      Adoro a noite, mas não pertenço a ela…

      • “Assustar” é totalmente opcional, em geral a cidade assusta quando vc nem espera, tá distraído. Primeiro ela seduz, engana, assovia no teu ouvido o canto da sereia cinza, te deixa à vontade, depois dá o bote, mas continua sendo a sua cidade.

  3. arnobiorocha disse:

    Ricardo,

    Seu texto emociona até as velhas pedras da calçadas do centro. Vindo do Ceará no fim dos anos 80, todo sábado fazia quase que o mesmo percurso, descobrindo a beleza naquele já meio decadente centro. Mas as jóias todas ainda estavam lá o Mappin, a Mesbla, os velhos e majestosos cinemas do centro, como era gostoso flanar sem compromisso saindo da Sé até a República, comer no “um, dois feijão com arroz”.
    Obrigado por trazer de volta um sentimento guardado, nunca perdido, daquele centro, que brutalmente vem sendo destruído.

  4. Arnóbio camarada,

    são histórias diversas, coloquei aqui o q fui lembrando. Descobri o centro em andanças lá por 1979, gastava meus poucos tostões em livros e discos, muitos dos quais nem tinha informação sobre, fui descobrindo concomitante a cidade e a vida, nunca perderei este Centro das minhas lembranças.

  5. Denise Queiroz disse:

    Lindo ler as cidades sem o vai-vem que dispersa o olhar e a percepção. Inspiradíssimo texto, Ricardo!

  6. Quem se lembra da “Leiteria Americana”, na rua Xavier de Toledo, ao lado do antigo Mappim???

  7. enio rechtman disse:

    Testemunha ocular da mesma história,mate com leite na São João,Fliperama ,a loja do “cara”que fazia times impecáveis de futebol de botão,na galeria da 24 de maio.
    A anarco arquitetura brinca de memória,as figuras ocultas,desaparecem para sempre e algumas construções,testemunhas desta cidade,liquidificador de gente,vitamina da humanidade.
    Os “indesejáveis” continuam os mesmos e o cheiro também não mudou,memória esquizita a nossa,largada no meio do mijo,abandonada,sem perder o glamour,arquitetura de reconstrução,
    quebra a cabeça,como um centro cultural,numa louca gravura de Escher.
    Valeu o domingão.Ainda mais que o tricolor,ganhou da “Looser”

    • Mário, mestre, versou-a de forma melhor acabada:

      PAISAGEM – MÁRIO DE ANDRADE

      Minha Londres das neblinas finas…
      Pleno verão. Os dez milhões de rosas paulistanas.
      Há neves de perfume no ar.
      Faz frio, muito frio…
      E a ironia das pernas das costureirinhas
      Parecidas com bailarinas…
      O vento é como uma navalha
      Nas mãos dum espanhol. Arlequinal…
      Há duas horas queimou o sol.
      Daqui a duas horas queima sol.

      Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
      Um tralalá… A guarda-cívica! Prisão!
      Necessidade a prisão
      Para que haja civilização?
      Meu coração sente-se muito triste…
      Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
      Dialoga um lamento com o vento…

      Meu coração sente-se muito alegre!
      Este friozinho arrebitado
      Dá uma vontade de sorrir!

      E sigo. E vou sentindo,
      À inquieta alacridade da invernia,
      Como um gosto de lágrimas na boca

  8. Eu era mais radical. Teve épocas em que eu morava no Butantã e trabalhava na regiao central de Sampa até altas horas da madrugada. Fiz um par de vezes o trajeto do trabalho até em casa a pé, só por “diversão”, começando lá pelas 3 da madrugada. Bacana a sensaçao de ter avenidas inteiras só para você…

    Mas isso era nos anos 70. Hoje, claro, nem pensar…

  9. sérgio pecci disse:

    Belíssimo texto, Ricardo…amigo ‘Adescoberto’ nos Rocks partilhados no Mouro, redes-coberto no #TeiaLivre.
    Abraxas, bruxo!
    Pecci

  10. marinildac disse:

    Andar a pé com lembranças, eita experiência cósmica! É como rever uma galáxia e descobrir estrelas novas. Me animei, acho que vou tentar refazer meus caminhos do Rio dos anos 60. Será que vou me emocionar assim?

  11. Lufeba disse:

    Lindo texto,Ricardo. Lembrou-me um mês que passei trabalhando em São Paulo no meio dos 80. A sala em que estava ficava em frente ao Viaduto do Chá e adorava ficar vendo a movimentação da cidade pela janela no final da tarde. Depois, saía a pé pelas ruas do Centro, sentindo a cidade, sua vibração, suas riquezas e misérias tão ricamente ilustradas por você. Já tinha fascinação por este lado da cidade desde menino, quando ia muito aí ver parentes, e sempre saía para passear com meu pai e meu tio, eles me ensinando os caminhos e encantos de São Paulo. Nunca esqueci o nome das ruas, e não entendia porque aquela via tortuosa se chamava Rua Direita. Sei até hoje andar pelo Centro de São Paulo e sempre tenho muitas lembranças e sensações especiais quando passo aí.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: