Brasil Pandeiro de Assis, João, dos Novo e Velhos Baianos


Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso
Minha gente lá de casa
Começou a rezar…

E até disseram que o sol
Ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro
Não se fez batucada…

E o Mundo Não se Acabou – Assis Valente (1938)

É famoso o dia em que João Gilberto visitou o apartamento dos Novos Baianos no Rio de Janeiro. Virou documentário (oFilhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano” de Henrique Dantas, lançado no In Edit 2011) o encontro dos baianos, os meninos eram do rock, o maduro João trouxe toda a bolinação que fazia desde os anos 50 com a história da música brasileira, sambas, choros e versos, violão e voz adiantando e atrasando em dialogo com um patrimônio que reverenciou e aprofundou. Digamos que o resumo e a síntese que o tropicalismo sugeriu se expressa nesse momento. O fato é que o encontro deu mais ênfase à música dos baianos mais novos e portava uma fonte e toda uma construção de onde este vigor foi tirado. Uma parte dessa força vem das composições e versos de outro baiano, de vida trágica e de produção profícua: Assis Valente.

Filho de José de Assis Valente e Maria Esteves Valente, sobre o local de nascimento e data há tanta controvérsia sobre a realidade, fomentada pelo próprio Assis, que prefiro não arriscar data e local certos, ele nasceu na Bahia e pronto. Segundo ele próprio foi criado por uma família de Alagoinhas e com eles foi parar em Salvador. Vários empregos e uma vida agitada desde a infância movimentaram o pequeno Assis que de início trabalhou em farmácia. O pródigo amor por versos, especialmente Guerra Junqueiro e Castro Alves, o levou a se engajar num circo como orador e animador, foi assim que correu o interior baiano e enveredou pela vida de artista.

No final da década de 20 do século passado, Assis Valente chega ao Rio de Janeiro e para sobreviver vai trabalhar como protético. Encanta-se com a vida na então capital do Brasil. Nos intervalos das dentaduras, arrisca alguns desenhos e chega a ser ilustrador da famosa revista Fon Fon. Logo, logo chega o samba, e é no samba que Assis se encontra realmente com as sua “expressão mais acabada“.

Assis coloca os pés na década de 30, o encontro e admiração mútua com o pintor e compositor Heitor dos Prazeres e a instantânea paixão (platônica) pela cantora Carmem Miranda o estimula e o faz escrever considerável trecho da história música no Brasil. Começa em 1932 com “Tem Francesa no Morro” gravada por Araci Cortes.

Na voz de Carmen: desde a primeira “Good Bye, Boy”, após seguiram: “Etc”, “Tão Grande, Tão Bobo”, “Lulu”, “Sapateia no Chão”, “Minha Embaixada Chegou”, “Recadinho de Papai Noel”, “Por Causa de Você, Ioiô”, “Recenseamento”, “E bateu-se a chapa” e “Isso não se atura”. O platonismo rendeu ao todo 25 parcerias de composição e voz, dessa maneira Assis ficaria famoso e conhecido.

Outros intérpretes gravaram Assis: Aurora Miranda, Moreira da Silva, Francisco Alves, Bando da Lua, Elza Cabral, Marlene, Irmãs Pagãs, Almirante, Mário Reis, Sônia Carvalho, Orlando Silva e Carlos Galhardo. Sucessos como “Abre a Boca e Fecha os Olhos”, “Camisa Listrada”, “Uva de Caminhão”, “Fez Bobagem” (maravilhosa), “Cai, Cai, Balão”, “Boas Festas” (natal nietzschiano), “Boneca de Pano”.

O divórcio da parceria de Assis com Carmem foi gerado por conta de uma composição que encantou o jovem baiano João nos anos 50 e que ele já maduro mostraria, no meio de outros sambas, aos jovens Novos Baianos no famoso encontro. A letra fala de um Brasil a ser cantado, valorizado e descoberto. Carmem que acabara de voltar de uma exitosa viagem aos EUA, se recusou a gravar “Brasil Pandeiro”, supostamente por não ter gostado da letra irreverente.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor

Eu fui à Penha e pedi à padroeira para me ajudar

Salve o Morro do Vintém, pendura a saia que eu quero ver

Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar

Ironia. Assis ficou abalado. De resto, sua vida já vinha abalada, era este mais um motivo. Ele casou em 1939, três anos depois nasceria sua filha e em seguida veio o divórcio. Seguiu meio protético, meio compositor. Tentou se suicidar por duas vezes, envolto a problemas financeiros e a um sentimento de isolamento que o perseguiu desde sempre. Na década de 50, José de Assis Valente caiu no ostracismo e sumiu da cena musical e suas músicas ficaram esquecidas. Em 1958 ao tomar guaraná com formicida, morre na Praça Paris, na Glória, Rio de Janeiro. No bolso um bilhete: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo”.




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