Dyonélio Machado


“Bem, mas mesmo assim – observou um – tudo isso ainda não explicava a atitude imprevista do
homem. Ele não seria um louco?
O dr. Valério quis conhecer a opinião do comando.
– Claro que é um louco. Por isso mesmo, já está encerrado no camarote.
O diplomata – que já vira tanta coisa (menos no seu país, lógico, que ainda não conhecia) –
nunca tivera oportunidade de apreciar uma loucura a bordo.
– Mas o senhor acha que ele é louco, doutor? – perguntou a asiática, com uma certa
preocupação.
– Só examinando.
– Como, doutor? Então um médico não pode dizer assim se um homem é louco ou não?
– É o único que não pode, minha senhora.”

                                                 Trecho de “O Louco de Cati” – Dyonelio Machado

Quaraí é longe, bem longe, distante do ” centro brasileiro”. Quaraí fica na porta do Uruguai, é  longe mesmo de Porto Alegre. Quaraí nos emprestou a literatura de Dyonélio Tubino Machado, médico psiquiatra, militante e escritor. Dyonélio nasceu em 1895 e ganhou destaque na denominada segunda geração do modernismo. Em 1935, lançou o romance “Os Ratos”, narrativa angustiada que mostra a saga de Naziazeno Barbosa, um barnabé melancólico que se enrosca na vida ao buscar dinheiro para pagar o leiteiro e assim poder dar de comer ao filho pequeno. A saga e os personagens se misturam às agruras que dialogam com mazelas públicas e impossibilidades privadas.

Dyonélio claudicou na vida, com prisões motivadas pela militância no Partido Comunista, pela saúde frágil. Ao lançar “O Louco de Cati em 1941, relacionou a insanidade, a loucura á opressão do Estado Novo, usou uma paródia para dar substância ao que ele próprio sofria, porém não usou a literatura apenas para denunciar. Poderia servir para qualquer estado opressor, mas o livro retratou de forma lapidar o autoritarismo com as marcas de Getúlio. O Cati personagem estigmatizado, visto por todos como demente, empresta o seu nome de um quartel e não assume o que dizem dele o livro inteiro. O louco conduz calado a narrativa. Uma grande obra que fala da loucura sem usá-la como mote preguiçoso.

O escritor gaúcho tomou partido e teve lado a vida toda, sua obra não deu sinais de fraqueza por isso, ao contrário, aí foi que ela ganhou singularidade. Intimista e contundente. O pai do “Louco de Cati”  trabalhou durante 30 anos no Hospital Psiquiátrico São Pedro, na década de 30 e 40 fez pesquisas pioneiras na área de neurociência. Das letras, da ciência, da política.

Vergonha de bibliotecário desorganizado, procuro, procuro e não acho na estante a edição do “Louco de Cati” que “escondo” aqui em casa, achei outro livro de Dyonélio, “Deuses Econômicos”, este nunca li. A ver …

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