O pai ao lado do rádio …


A imagem do pai ouvindo o rádio marcou a infância. Domingo, o acordar cedo era marcado por uma mistura de sons. Os pedidos recorrentes da mãe para compra das coisas para o almoço e o rádio sempre soando pela casa.

Músicas perdidas, locutores do futebol. O almoço de sabores conhecidos, mas agradáveis, a tarde caindo em visitas, às vezes chatas, às vezes surpreendentes. Os narradores de futebol eram os companheiros mais resolutos dessas tardes, algozes na derrotas, e entoadores de cantos élficos  nas vitórias.

E o pai ouvindo rádio sem prestar a atenção no que ouvia.

– Quanto tá o jogo, pai? – perguntava esbaforido ao chegar da rua.

– Olha, não sei direito, acho que 0 x 0 …

Os sons iam se confundindo e a vida era boa. Os programas de rádio após o término da transmissão esportiva eram ruídos. Humor. As notícias do domingo, “músicas inesquecíveis”, locutores de vozes discretas comparados com os exagerados narradores de gols e jogadas.

O futebol amortecia o mundo.

Na segunda era acordar e bolar estratégias para atacar ou se defender dos torcedores derrotados e vencedores. Os truques eram vários: tripudiar, ironizar, contar vantagem, ignorar e até às vezes fingir não gostar mais de futebol. Não muda muito com o tempo, mas para qualquer menino é exercício de aprendizado e de novidade.

A imagem do pai ouvindo o jogo sonolento, parecia um mantra que o entorpecia, que suavizava os problemas. Hoje consigo entender quando coloco uma música quieta, em tom menor para dar torpor à mente, acho que é o mesmo. O som do rádio era sua fuga perfeita. Ele dizia não saber o que acontecia, mas sabia nome de locutor, de comentarista, de repórter de campo.

O que diziam os comentaristas do jogo era debatido. A longa fala do futebol. O nível geral não ultrapassava o senso comum, nós começávamos repetindo os adultos e os termos. Passava o tempo e dominávamos os termos, criando clichês novos e mais lugares comuns. Ladainha permanente …

– Futebol é coisa de gente sem futuro – dizia a mãe em uma das suas mil máximas – mas tinha palavra de conforto quando o time perdia, coração de mãe antitorcedora, no entanto conivente com a dorzinha do filho. Não tinha sossego enquanto eu não largava o rádio, e ficava feliz quando eu pegava o caderno e na real o único cálculo que eu tava fazendo era a pontuação do meu time e se tinha chance de se classificar.

Terça-feira, se não me engano, saia a Revista Placar, na banca ficava mirando a capa todas as vezes que passava. Decorava os times que saiam na capa da revista, os jogadores, a manchete das reportagens raramente tinha grana para comprar.

Feliz, o dia que meu irmão chegava com a semanal embaixo do braço, deitava no sofá para ler, posudo, quase me dizendo que não era pra mim. Não raro, a escondia no seu quarto só para me sacanear. Horas depois eu podia lê-la, e ela parecia não ter fim.

Encantava-me o Tabelão, que trazia toda a ficha técnica dos jogos da semana, escalação dos times, nome do juiz e bandeirinhas, renda, público, artilheiros, cartões vermelhos e amarelos. Minha “erudição” no futebol vinha daí, de que outra forma eu ia saber que o goleiro do Flamengo do Piauí se chamava Hindenburgo?

A imagem do pai sonhando ao lado do rádio, era o dia de família toda em casa, de ouvir os sons dos vizinhos na situação excepcional do domingo, e por mais triste que fosse ou estivesse a casa, havia barulhos diferentes no domingo. O futebol era a falta de outras falas?

Poderia ter perguntado coisas da vida ao pai, à mãe, se não estivesse envolvido com aquele mantra que entorpecia as tais tardes? Não existe como voltar, como  tirar as chuteiras, como anular gols, expulsar o craque do outro time, desviar a trave conforme a conveniência de um gol sofrido, de um tento a favor.

A imagem do pai que jamais desligava o rádio, mas nem sempre ouvia (fingia?) o que vinha dele…

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2 comentários
  1. Walquiria Minioli disse:

    Oi moço! Muito bom o seu texto, me fez voltar a minha infância… uma verdadeira viajem no tempo.
    Meu pai assistia futebol pela tv e mantinha o rádio ligado ouvindo a locução do mesmo jogo, nunca entendi pq… eu nunca gostei de futebol, no rádio então!!! impossível de entender…mas qdo o palmeiras fazia gol… ele vibrava e comemorava irradiando felicidade… hoje ele não está mais aqui… vou continuar com a minha dúvida… se assistia o jogo pela tv, pq manter o rádio ligado?? Beijos.

  2. Sonia disse:

    Esta lembrança é mais antiga do que você.
    O pai sonhando ao lado do rádio, o pai que nunca desliga o rádio, pois ele continua ouvindo o rádio.
    A TV fica sem som, mas o rádio faz parte da rotina, e por causa da audição cada dia mais curta o som do rádio fica mais alto.
    Bom poder conviver com isto, ter lembranças e ter o presente.
    Lindo texto.
    Beijos

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