Fat Cap Galeria


Rafael Vaz foi para as cabeças.  Ele veio da Vila Joaniza, zona sul paulistana, tomou uma atitude que já é tradição na Europa há muito tempo, fez de uma casa abandonada na Rua Agisse, 280 na Vila Madalena, seu ateliê e galeria de arte e seu lar. Luxuosa transgressão. O mais bacana da proposta é que objetiva dar espaço para  artistas que transitam entre o contemporâneo e a “street art”. É uma empreitada coletivista. Rafael cruzou a cidade para conquistar a “liberdade”, sem pedir licença.

Fui conferir na tarde de domingo (15/05/2010) a Fat Cap Galeria de Rafael Vaz. De primeira deu para sacar a precariedade que vive o rapaz, segundo ele, o dono da casa não tem grana para investir na reforma e não quer ou não pode vendê-la, sabendo da historia a invasão foi um passo para concretizar, dar forma a sua idéia. Ele tem plena consciência que corre riscos.  O dono disse qua vai correr atrás dos direitos, enquanto isso …

Perguntei a Rafael, o que significa Fat Cap:

– São os pinos das latas de spray, aqueles maiores, usados para os traços mais cheios e grandes e para preenchimentos no grafitti – a resposta rápida, quase anteviu a pergunta.

O nome vem da arte das ruas, mas o artista tem gosto eclético (sem tom pejorativo), boas referências e uma coisa rara no mundo narcísico das “artes”, espírito coletivo. Latas de tinta, esboços, colchão velho, mochilas,fogão, recortes de jornais, obras de artistas de vários cantos do país e do mundo, tem trabalho da Austrália, do Chile, originais, reproduções, tudo isso compõe o visual da casa. Ainda que sobreviva na improvisação, Rafael mostra ânimo e vontade de tocar a idéia, são dezessete anos de idas e vindas na arte. Fat Cap já é realidade.

Aos poucos Rafael se entusiasma na fala e na descrição de suas idéias. A atitude quixotesca de invadir uma casa numa cidade onde nem os espaços públicos são garantia de uso coletivo e alguns até rejeitam construção de metrô perto de casa para não se misturar, já é em si, coisa de artista ousado. Uma atitude, acima de tudo, totalmente politizada.

Nesta tarde estavam na casa junto com Rafael, dois artistas que se dedicam a arte underground, Cav3ra, que veio de Pirituba e diz que sua arte é arte das ruas, que gosta de colocar os seus desenhos em paredes de fábricas e casarões abandonados, o outro é o Tiago Brutais, que mora em São Bernardo do Campo (conterrâneo) e transita na mesma esfera, paredes de lugares esquecidos, sem medo da volatilidade e do provável desaparecimento dos suportes. Os trabalhos somem, eles vão atrás de outros espaços, é uma arte que anda pela cidade, sem “abrigos seguros”.

Tiago e Cav3ira, é com três no meio do nome que ele é conhecido, finalizavam seus trabalhos na parede de um dos cômodos da casa.  Na  sexta dia 20 de maio, inaugura a próxima exposição da singular galeria “Submundo Urbano” e os dois são os artistas convidados.

No fim do papo, Rafael sorria, Cav3ira organizava as tintas, e o Tiago, mesmo Brutais, cantarolava uma música do Cartola. Parceiros. A arte reside por ali, sem bolsa, sem fundação pra bancar, vamos torcer para ser por muito tempo. Quem puder confira no local.

Expo SubMundo Urbano

Fat Cap Galeria

Dias 20 e 21 de maio

Rua Agisse, 280

Vila Madalena a partir das 17 hr


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5 comentários
  1. MARIA FERNANDA disse:

    Sua curiosidade é ARTE inata. Sabes olhar, com olhos de preencher a vida.
    Feliz de quem tem você por perto e pode chegar até :Rafael e Cav3ira.Terão o prazer e o doce deleite atrístico ,combinados num fundo musical de Cartola,que renasce em tom de Thiago!!
    quero que me leve ,quando aí estiver!
    Esses caras tem que vir expor no “Santa Tereza de Portas Abertas” RJ

  2. MARIA FERNANDA disse:

    errata..: terá o prazer(se localiza ,aí)

  3. e ai em minas, tem algum teto fantasma precisando de inquilinos, seja gente ou personagem nas paredes? replica ai o role.. pelo abc e por sp tem okupa, os espaços vazios e mortos, viram biqueira, fungo, resto e casa de baratas, pulgas e ratos, além de propaganda ou simplesmente concreto morto, e assim estando não incomoda nem ofende o poder, o governo.. mas basta ocupa-los com arte, idéias politizadas e vida, gente sem lugar para dormir e organização popular, que pronto, a sirene acesa ilumina o ambiente, o som do cacetéte e as algemas brilhando são quase o toque de arte que faltava no composto anti mecânico desse mundo orgânico que resiste nessas atitudes ousadas e válidas de quem quer viver propondo semear os lugares esquecidos, para em seguida se espalhar pelos dominados pela máquina (+_+).

  4. marinildac disse:

    Muito interessante a invasão. São Paulo tem tudo pra inovar nesta arte de rua que se ajeita onde der (até seu projeto de biblioteca comunitária caberia aí,hein, Ricardo?). Enquanto isso, os podres poderes investem em besteira (a Justiça e a polícia logologo se unirão para a “reintegração de posse”…).

    • A reintegração de posse é um fantasma que paira sobre o Rafael, Marinilda. Eu nem toquei no assunto. Reintegrada a posse, ou a casa volta para o abandono ou ruma para a especulação imobíliaria.

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