Alice Cooper de volta?


“Os derradeiros cochichos dos políticos aos ouvidos de Petrônio Portella, presidente da Arena, que deixava o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, eram abafados pela gritaria de jovens cabeludos por “Alice”. Um senador sessentão de monóculo, terno e gravata, chegou mesmo a reclamar do “desrespeito daqueles moleques” . Eram dois poderes desiguais que se encontravam: a política circunspecta e gravemente envolta nos problemas da sucessão paulista, e o Rei do Circo do Rock, o produto perfeito da sociedade de consumo regurgitado por uma eficiente máquina publicitária. E quando, Alice Cooper, o Frankstein da música americana, desceu às pressas para tomar um carro que o esperava, sua figura magérrima trajando calças Levi’s e camisa roxa, os cabelos negros tocando o ombro, sua platéia o recebeu com o hurras dos crentes diante da Epifania, a Revelação Transcendente do Senhor.

Estas são as palavras que iniciam o texto “Alice On The Rocks” do jornalista Leo Gilson Ribeiro (falecido em 2007) na edição do dia 10/04/1974 da revista “Veja” que o escalou para cobrir a vinda de Alice Cooper a São Paulo. Naqueles dias acontecera o dito primeiro “grande show de uma estrela do rock internacional no Brasil. O texto de Gilson, apresentava declarações de Alice, entrecortadas por um tom irônico.

O Brasil recebia o show business. Dias 30, 31 de março e 01 de abril (Palácio das Convenções – SP) e dia 06 de abril (Maracanãzinho – RJ) de 1974, deram a largada nesta história.

Por muitos anos muito se falou sobre estas duas apresentações de Alice Cooper em Sampa. Os comentários variavam entre estapafúrdios à descrições detalhadas, como o da jibóia emprestada pelo Instituto Butantã, da excentricidade da mulher de Alice à época, da maquiagem e a banda pesada do Mr Nice Guy,  do cadilac que ele queria, mas não pode trazer e de sua autopropalada androgínia. Várias lendas a respeito e uma quase incredulidade, até mesmo pela real existência da vinda, atravessaram metade da década de 70 e o início dos anos 80.

Eram minguados os shows internacionais, tudo era mistério e muita empulhação nas histórias em torno das figuras do rock establishment internacional. E eram sim, puro establishment, coisa que o punk viria “demolir” e redefinir poucos anos depois, para depois em movimento circular, virar a mesma coisa. Business.

A mística que envolve um rock star não mudou muito nos atuais dias. As declarações mais imbecis se transformam em ponto de pauta e as falas ganham um peso que de fundo não tem nada. Prevalecem o exotismo e a transgressão com código de barras. A diferença dos quase quarenta anos atras, era a total escassez de shows e de contato direto com estes caras que produziam música e comportamento, como disse Ribeiro, fomentados por uma poderosa máquina.

O Brasil estava longe dos centros e fora dos circuitos internacionais de shows. Alguns anos e shows esparsos, Rick Wakeman em 1976, Police em 1982, Kiss e Van Hallen em 1983, finalmente, o Rock in Rio em 1985 que se não colocou de vez, tornou o país visível no circuito de shows.

Neste momento, 2011, os shows despencam aos montes, enchendo os finais de semana de quem têm disposição para multidões e decibéis.

U2, Motorhead, Iron Maiden, Amy Winehouse, LCD SoundSystem, Seal, Paul McCartney (pela segunda vez em pouco mais de um ano), Ozzy Osbourne, Metallica, Black Label Society, Gang of Four … Rock in Rio 2011 com vários convidados … já aconteceram ou vão acontecer ainda em 2011. Deixei de citar muitos. O Brasil embarcou de vez no negócio pesado da música.

Neste final de maio de 2011, Alice Cooper retorna ao Brasil e traz o More Mr Nice Guy – The Original Evil Return , longe dos enérgicos 27 anos que o trouxeram em 1974, é a terceira vez que se apresenta no Brasil, a segunda foi no Monsters of Rock em 1995. O veterano rocker ainda pinta o rosto e teatraliza , as platéias são outras, milhões de dolares e quilômetros de estrada já passaram. O rock se perpetua, se reinventa ou se repete em farsa?

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