Um música no Parque da Luz


Não perguntei o nome deles, nem sei de onde são. O senhor do violão base já tinha visto  tocando no parque há alguns anos. Troquei algumas palavras com o saxofonista após a música. E havia outros músicos em outros bancos, duas duplas sertanejas, uma mais lírica e outra (que de dupla, em certo momento virou quarteto) tocava uns rasqueados. São músicos que ficam  no Parque da Luz aos domingos, misturados aos vários tipos humanos que circulam por ali.

Moças novas e veteranas procurando um programa, homens e mulheres solitários, solitárias, em grupo, no footing. O parque com seu paisagismo à francesa, tem mais de duzentos anos, o jardim público da luz, as vidas entrecruzadas, muitos vindos do subúrbio ou do entorno. Nordestinos, coreanos, bolivianos, africanos, um ou outro raro judeu renitente do Bom Retiro ao lado. Olhares absortos, reclusos em si, outros dormindo na coberta do sol.

Vários tipos, vários rostos. Gente, muita gente. Roupas pouco vistas no dia a dia, ir e vir de gente, muitos buscando um papo, um sexo, qualquer coisa que quebre a rotina no sol de domingo. Não precisam de piedade, precisam do parque. Rapaziada que frequenta a Pinacoteca no meio de tudo, olhar “antropológico”, o meu também,  já olhei muito aquele lugar.

Música, sempre junta gente, música sempre desperta saudade de amor, de alguma dor, de alguém, de lugar, de situação. Luz da tarde, sol, música no fundo. Foi só um pedacinho da Casinha de Varanda, do compositor paulista Gilson, sumido. Letra bucólica, que destoa do que envolta o parque, mas o parque emula nas pessoas, no meio das arvores, uma sensação de paz. Eu nem gostava dela até hoje à tarde. Música perfeita. A cidade engana os seus.  Em alguns cantos se vira, autônoma, preservando seus respiros de vida.

Homenagem a todos os veteranos e jovens músicos de rua, dos parques, sejam de onde for, que nos emprestam sua lírica.

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4 comentários
  1. arnobiorocha disse:

    Esta é a pegada urbana quase morta de uma crônica perdida no tempo e no espaço. Desperta a dor de um mundo morto, a melancolia de projetos não realizados, a nossa utopia nunca concretizada.Abraços camarada

  2. luzete disse:

    que coisa mais apaixonante, ricardo.
    quanta delicadeza, meu deus.
    e este seu olhar pela cidade também está muito, mas muito interessante.

  3. Lindo demais, guardei como prometi para ouvir agora pouco antes de desconectar.

    me faz bem teus textos, assim como os de Arnobio.

    parabéns a amobos, aos músicos, e a música que por ai encanta, nos fazendo
    parar um pouco para apreciar a vida!
    bjs

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