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Arquivo mensal: junho 2011

Outro dia fiquei matutando o que levou um cara como o Ed Motta a destilar asneiras e preconceitos na internet. Logo ele que se arvora de ser tão “deep” e esperto e gosta de espalhar sua erudição sobre vinhos, quadrinhos, estilos musicais variados e do seu inegável talento como músico. Mas creio que falar asneira não é um privilégio do Ed Motta. Ele, por exemplo, alegou que pensava estar fechado no seu ciclo de amigos no facebook, e depois de algumas garrafas de vinho, grifo dele, desandou a falar sandices sobre músicos (especialmente os paulistas), mulheres “feias” e gente “feia” em geral e de sua (dele) suposta superioridade.

Engasgou com a mistura de vinho, soberba e malandragem de mané …

Ed Motta foi vítima da própria língua, e deve ter falado o que falaria normalmente numa mesa de restaurante com um grupo íntimo. Esqueceu-se, ou como ele mesmo afirmou, não sabia que estava no aberto do facebook. Todos que passaram por ali leram. Um artista, que precisa teoricamente do público que o acompanha tem que ficar atento sobre o que diz. E nem vou entrar na seara dos danieis gentilis e outros “entusiasmados da língua latrínica que saem falando tudo como se controlassem a acidez da própria língua, pagam o preço a curto, a médio ou a longo prazo. Estes são o ruído pútrido da industria cultural de ocasião.

Não to aqui para fazer o julgamento do Ed Motta, a retrospectiva de suas falas serve como material farto de ataque e defesa, mas para lembrar que vivemos o ocaso da privacidade, em vários níveis. Na verdade isso vem acabando já há tempos. Cadastro de compras em loja, cadastro em banco, em concessionárias públicas, em casa de shows, companhias aéreas, CPC, Serasa, lista de casamento, abaixo assinados, posts de orkut, de blog, comentários em portais e uma longa lista que não vou dar conta. Literalmente o nosso nome ta na roda. Então não há controle, sobre o que somos, comemos, vestimos, ouvimos, lemos, pensamos, negamos, afirmamos. Esta tudo cadastrado, sendo você um ser “on line” ou não.

Não adianta chorarmos o saudosismo romântico da “era do anonimato” (se é que em algum dia ela houve), não há volta. Uma forma ineficiente de minimizar a exposição são os tais orkutcídio, facebookcídio, emailcídio, etc, onde as pessoas “suicidam” seus próprios ícones e avatares para supostamente desaparecer da rede e virar um ser normal. Em vão. Quando a nossa história e/ou informações for negativamente ou positivamente relevante para alguém, reaparecemos, não tenhamos dúvidas disso. Esta decisão foi tomada há tempos, mercado, governo, interesses públicos e privados se beneficiam com esta graúda fonte de informações.

O jornalismo já perdeu a aura de fala única, segundo os ressentidos de plantão: “Todos agora querem ter opinião”. E dá-lhe orkut, facebook, twitter e redes variadas, onde fatos nascem, morrem, são afirmados e negados em questão de minutos. É o suposto fim da fonte única e oculta, os fatos vêm e vão, não em vão, como diria o mestre Oswald. Há que se ter o dobro de cuidado e responsa sobre o que se fala e o que se nega.

Ed Motta, falou demais e se arrependeu, há quem diga que há tempos fala demais nas rodas privadas. Como saber? Resta-nos confiar em seu arrependimento. Se ao menos ele tivesse ficado quieto e deixado a música rolar … assim como fez junto com a maravilhosa Tania Maria.

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“Mais um OXO sem graça, de amargar”.

Sobre o último termo não tenho certeza, mas OXO, era a marca indissociável do locutor Walter Abraão da TV Tupi. Narrava engraçado e marcou fala e época. Naquele momento onde ver futebol ao vivo na TV era raridade. Havia uma lei imposta pela Federação Paulista que proibia a transmissão dos jogos e não só, colocava o compacto ou videotape completo no mínimo duas horas após o último apito do juiz. Abraão era um dos sons.  A casa toda tinha sons, como esse do locutor que tempos depois viraria (se já não era) um grande aliado do Paulo Maluf. Mas é dos sons que quero me lembrar. Vários misturados, sons da TV, das rádios, sons da casa, sons da rua, vizinhos barulhentos e os silenciosos tinham os sons imaginados, tudo se misturava na sinfonia anárquica de descobertas.

Cada dia um som diferente. Um rapaz amigo que morava perto e simulava sons de guerra, imitando uma metralhadora estridente, brincadeira imaginária. Engraçado. O vendedor com uma geringonça de madeira e uma argola na mão fazendo barulho e anunciando a chegada do biju, o cara do quebra queixo que moderno, já usava alto falante. Só de lembrar vem o gosto vago dos doces. Gosto de biju na boca, aquele gosto que desaparece. Os sons vinham inteiros, abafados, melódicos, tortos.

Vozes dos domingos de amanhã, cabeça imersa na coberta, visitas de difícil identificação, tirante os assovios melodiosos do Tio Maneco, que tamborilava no vidro da sala o ritmo que acompanhava o assovio, dava samba. As melodias algumas conhecidas, outras de sambas que mais tarde eu iria conhecer.

A trilha sonora incidental da vida toda vamos montando e montando. Tudo fora do intencional, longe da escolha, sons que vêm ao léu.

E um dia que não localizo, não sei quando e onde, ouvi um vendedor de sorvete, cantava em fala melancólica e anunciava o seu produto. Não posso reproduzir aquele canto, aquela fala, anunciava os sabores, as frutas e terminava com a nata. Era triste aquilo, ficou. Para aquele menino, provável que as coisas tristes fixavam mais, era bonito ouvir nas ruas vazias aquele eco. Não há como reproduzir. Como pode alguém soar triste para vender algo?  Nunca provei o sorvete, sequer vi o rosto do sorveteiro. Era o som, eram os sons. Mas a melodia marcou e começando linear dizia: ”Sorveeeeteiro… olha o sorvete, sorveteeee, morango, goiaba, groselha… e tem também nata… olha o sorveteeeeee”

Não há catalogo, nem index na memória, ela é provocada, vai e volta. Os sons ficam aqui e ali, esperando uma lembrança por satisfação ou tristeza. Sorvete de sabores diversos

João Gilberto faz 80 anos, foi de Juazeiro na Bahia para outras terras. Andou pelo Rio e pelo mundo, bolinou ou inventou a bossa nova. Diziam que gostava de marofa, mais uma lenda? Construiu a fama de difícil, fez do samba o que o samba lhe deu. Criou, recriou, muito se disse da sua genialidade. Dúvida? Encheu o saco de vários, amaldiçoado por interromper um show no meio, reclamava do som, demorou, foi pauta de segundo caderno que gosta dos seus barulhos silenciosos de despejos e pizzas debaixo da porta. Defesa e ataque, binários. Mas foi no samba que bolina e que faz bossa onde ele faz a diferença. Dizem ser o cantor da música do pato, bando de patos, que enchem a boca e o bucho de bobagem. João Gilberto faz da voz e violão, vez em quando com auxílio de cordas, o luxo da música e dos sambas de ourives. João Gilberto não precisa de uma prosa poética. Violão Amigo que vai atrasando e adiantando, voz que parece beirar ao desafino, desafia. E o samba não se faz mais digno por João, porque João, esperto, sabe dizer e dar voz a quem fez digno o samba de onde bebe. Ary, Batista, Pereira, Marçal, Bide, Herivelto, Brean, Barbosa, Jonas, Jobim, Lyra, Adoniran, Moraes, Caymmi,Lecuona, Dolores…e muitos que esqueci… João faz 80 anos e não precisa dessa homenagem, mas como João bebe nos sambas e bolina a bossa do samba novo com o mais antigo, eu vou no vácuo e faço homenagem, quero (queremos?) que o Brasil cante mais e seja menos sombrio.

Canta Brasil!

“Yeah the doctors don’t know, but New York was killing me,
Bunch of doctors coming round, they don’t know
That New York is killing me
Yeah I need to go home and take it slow in Jackson, Tennessee”

                                                              Gil Scott Heron

Falei de Gil Scott Heron meses atrás, quando um show dele foi cancelado alguns dias antes da data marcada aqui em São Paulo. O link tá ai: Gil Scott Heron: um show perseguido, dessa vez não chego atrasado

Pois é, e pela última cheguei atrasado de vez. Depois de perder o show em Londres em 1997, deste cancelamento ano passado, a minha inusitada “não relação” com o cantor e poeta norte-americano vai ficar definitivamente nos registros visuais e auditivos. Sem um show ao menos. E não poderia ter sido de forma mais irônica.

Na manhã de sábado dia 28 último,  desembarquei no Aeroporto JFK em Nova York. E tava lá esperando aquela chatice adensada pelo pós 11 de setembro, a fatal fila de entrada no país de Obama,  na TV ligada, talvez na CNN (não sei ao certo) era anunciada a morte de Gil Scott Heron: ” The musician had died at St Luke’s Hospital on Friday afternoon”. Aos 62 anos e logo após chegar de uma viagem da Europa.

Desnecessárias as legitimações comparativas ou os revisionismos históricos pretensamente recompensadores. Mais que um protorapper, a maneira mais preguiçosa de enquadrar sua trajetória, Gil se dizia um falador no meio do jazz, do blues, do soul dizia emprestar das notas da música americana, um espaço para suas letras, palavras, mensagens e digressões poéticas. O dialogo com vários recortes  deixou-o livre para não se vincular definitivamente com nenhum deles. Foi suave, cáustico, sutil, contundente, incisivo, na medida em que pôde, que viu necessário.

Amarguei um pouco o fato de andar pelas ruas que um dia Heron descreveu, de luz, contou sobras, ele morto, fugiu mais uma vez dos meus passos. Talvez fosse pretensão, mas parei um pouco e pensei fundo naquela manhã longe de casa, num aeroporto frio como todos o são, atônito e não entendendo como mensagem, mas como fato inusitado.

A poesia e a força da música mais uma vez sustentaram uma ligação incrível: a de admirador distante, tão clássica esta relação. As ruas de NYC, nos seus contrastes de músicos, homeless, misturas, gente de toda tez, de toda a espécie, de vários cantos, de vastos e entrecruzados objetivos, se revelou numa perda que jamais se dá por completo. Deu pra entender um pouco mais o que ele falava em letras.

Dizem os enciclopedistas que morre o homem fica a obra. Conversa fiada, a ausência é sempre sentida, e quem esta perto ou mesmo em quem passou a vida inteira pairando, vai sentir a falta de novas letras e novas músicas. O encontro, enfim, não se deu.

Contrariando o bardo negro duas ruas e das teses controversas da América, ele que disse que “a revolução não seria televisionada”, contrariando essa que foi uma das suas principais teses, ele teve sua morte dita em um frio programa de TV numa manhã aonde eu chegava para “visitá-lo’ em sua cidade, sua morte ou anuncio dela foi dita em TV, com um apresentador com cara de vaselina explícita, registrando-a em tom de notícia comum”.

A minha viagem continuou em outras histórias musicais e não, mas começou com este adeus ao compositor de “The Bootle”, “Pieces of The Man”, “Lady Day and John Coltrane”, “Smal Talk at 125st and Lenox”, “The Prisoner”, “The Vulture”, “A Very Precious Time” , “Enough”, “Home Is Where the Hatred Is” …

Boa viagem para onde for grande poeta e quase amigo, Gil Scott Heron.

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