Adeus Gil Scott Heron.


“Yeah the doctors don’t know, but New York was killing me,
Bunch of doctors coming round, they don’t know
That New York is killing me
Yeah I need to go home and take it slow in Jackson, Tennessee”

                                                              Gil Scott Heron

Falei de Gil Scott Heron meses atrás, quando um show dele foi cancelado alguns dias antes da data marcada aqui em São Paulo. O link tá ai: Gil Scott Heron: um show perseguido, dessa vez não chego atrasado

Pois é, e pela última cheguei atrasado de vez. Depois de perder o show em Londres em 1997, deste cancelamento ano passado, a minha inusitada “não relação” com o cantor e poeta norte-americano vai ficar definitivamente nos registros visuais e auditivos. Sem um show ao menos. E não poderia ter sido de forma mais irônica.

Na manhã de sábado dia 28 último,  desembarquei no Aeroporto JFK em Nova York. E tava lá esperando aquela chatice adensada pelo pós 11 de setembro, a fatal fila de entrada no país de Obama,  na TV ligada, talvez na CNN (não sei ao certo) era anunciada a morte de Gil Scott Heron: ” The musician had died at St Luke’s Hospital on Friday afternoon”. Aos 62 anos e logo após chegar de uma viagem da Europa.

Desnecessárias as legitimações comparativas ou os revisionismos históricos pretensamente recompensadores. Mais que um protorapper, a maneira mais preguiçosa de enquadrar sua trajetória, Gil se dizia um falador no meio do jazz, do blues, do soul dizia emprestar das notas da música americana, um espaço para suas letras, palavras, mensagens e digressões poéticas. O dialogo com vários recortes  deixou-o livre para não se vincular definitivamente com nenhum deles. Foi suave, cáustico, sutil, contundente, incisivo, na medida em que pôde, que viu necessário.

Amarguei um pouco o fato de andar pelas ruas que um dia Heron descreveu, de luz, contou sobras, ele morto, fugiu mais uma vez dos meus passos. Talvez fosse pretensão, mas parei um pouco e pensei fundo naquela manhã longe de casa, num aeroporto frio como todos o são, atônito e não entendendo como mensagem, mas como fato inusitado.

A poesia e a força da música mais uma vez sustentaram uma ligação incrível: a de admirador distante, tão clássica esta relação. As ruas de NYC, nos seus contrastes de músicos, homeless, misturas, gente de toda tez, de toda a espécie, de vários cantos, de vastos e entrecruzados objetivos, se revelou numa perda que jamais se dá por completo. Deu pra entender um pouco mais o que ele falava em letras.

Dizem os enciclopedistas que morre o homem fica a obra. Conversa fiada, a ausência é sempre sentida, e quem esta perto ou mesmo em quem passou a vida inteira pairando, vai sentir a falta de novas letras e novas músicas. O encontro, enfim, não se deu.

Contrariando o bardo negro duas ruas e das teses controversas da América, ele que disse que “a revolução não seria televisionada”, contrariando essa que foi uma das suas principais teses, ele teve sua morte dita em um frio programa de TV numa manhã aonde eu chegava para “visitá-lo’ em sua cidade, sua morte ou anuncio dela foi dita em TV, com um apresentador com cara de vaselina explícita, registrando-a em tom de notícia comum”.

A minha viagem continuou em outras histórias musicais e não, mas começou com este adeus ao compositor de “The Bootle”, “Pieces of The Man”, “Lady Day and John Coltrane”, “Smal Talk at 125st and Lenox”, “The Prisoner”, “The Vulture”, “A Very Precious Time” , “Enough”, “Home Is Where the Hatred Is” …

Boa viagem para onde for grande poeta e quase amigo, Gil Scott Heron.

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