Sorvete de Nata


“Mais um OXO sem graça, de amargar”.

Sobre o último termo não tenho certeza, mas OXO, era a marca indissociável do locutor Walter Abraão da TV Tupi. Narrava engraçado e marcou fala e época. Naquele momento onde ver futebol ao vivo na TV era raridade. Havia uma lei imposta pela Federação Paulista que proibia a transmissão dos jogos e não só, colocava o compacto ou videotape completo no mínimo duas horas após o último apito do juiz. Abraão era um dos sons.  A casa toda tinha sons, como esse do locutor que tempos depois viraria (se já não era) um grande aliado do Paulo Maluf. Mas é dos sons que quero me lembrar. Vários misturados, sons da TV, das rádios, sons da casa, sons da rua, vizinhos barulhentos e os silenciosos tinham os sons imaginados, tudo se misturava na sinfonia anárquica de descobertas.

Cada dia um som diferente. Um rapaz amigo que morava perto e simulava sons de guerra, imitando uma metralhadora estridente, brincadeira imaginária. Engraçado. O vendedor com uma geringonça de madeira e uma argola na mão fazendo barulho e anunciando a chegada do biju, o cara do quebra queixo que moderno, já usava alto falante. Só de lembrar vem o gosto vago dos doces. Gosto de biju na boca, aquele gosto que desaparece. Os sons vinham inteiros, abafados, melódicos, tortos.

Vozes dos domingos de amanhã, cabeça imersa na coberta, visitas de difícil identificação, tirante os assovios melodiosos do Tio Maneco, que tamborilava no vidro da sala o ritmo que acompanhava o assovio, dava samba. As melodias algumas conhecidas, outras de sambas que mais tarde eu iria conhecer.

A trilha sonora incidental da vida toda vamos montando e montando. Tudo fora do intencional, longe da escolha, sons que vêm ao léu.

E um dia que não localizo, não sei quando e onde, ouvi um vendedor de sorvete, cantava em fala melancólica e anunciava o seu produto. Não posso reproduzir aquele canto, aquela fala, anunciava os sabores, as frutas e terminava com a nata. Era triste aquilo, ficou. Para aquele menino, provável que as coisas tristes fixavam mais, era bonito ouvir nas ruas vazias aquele eco. Não há como reproduzir. Como pode alguém soar triste para vender algo?  Nunca provei o sorvete, sequer vi o rosto do sorveteiro. Era o som, eram os sons. Mas a melodia marcou e começando linear dizia: ”Sorveeeeteiro… olha o sorvete, sorveteeee, morango, goiaba, groselha… e tem também nata… olha o sorveteeeeee”

Não há catalogo, nem index na memória, ela é provocada, vai e volta. Os sons ficam aqui e ali, esperando uma lembrança por satisfação ou tristeza. Sorvete de sabores diversos

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1 comentário
  1. Selma disse:

    Eu não me recordo qual era o local.. Mas diz a lenda que a música “Watermelon Man” foi inspirada em um vendedor de melância que passava pelas ruas e gritava; “eeee!!! Watermelon Man”… http://www.youtube.com/watch?v=jo5GcYeh7XA

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