45, lá vou eu…


E então cheguei aos 45. A gente não conta os dias distraído para chegar aos 45, vem tudo devagar, um após o outro, tudo bem sentido e faturado. Frase preguiçosa de dizer: ” tô ficando velho”, preguiçosa e mentirosa pois quem diz, olha ao redor e espera por outra frase, esta piedosa: “mas você esta super bem”.

Tempo, tempo, quando eu era menino os caras que tinham 45 eram já avôs, e claro, tem muito avô por aí com menos de 45. O fato é que passou, passou, e hoje aos 45 não sou nem pai, nem avô. Não é culpa de ninguem, senão minha.

Nasci no inverno, segundo a mãe numa madrugada de garoa, e foram 45 invernos. Alguns foram marcantes, outros passaram despercebidos, menos para mim, claro, descontando a pose blasé do “não ligo pra isso”, sempre marca. O afago de quem ja passou a jato pelos 45 e te chamo de menino, o desdém de quem vive a jato bem antes dos 45 e te passa a comenda de tiozinho, fácil, fácil. Resta o consolo da idade redondinha, metade de 90, faltam 5 para o 50, passam 5 do 40 e ainda 15 para o 60.

Nas contas frias são omitidas as vitórias e derrotas, estas complicariam o coeficiente e o redondo tomaria formas diversas, se complicaria em trapézios, octógonos, losângulos, triangulos, angulos, agudos e obtusos, pois é, até geometria (não dominada) para dar lírica aos 45.

São 16425 manhãs, tardes e noites.

Dentro de casa, longe de casa, em fuga de casa. De ressaca, de dor de corno, de autopiedade, de triunfo, de gozo, de arrependimento, de sono profundo, de sonho profundo, de atrasos, de comida boa, de espera, de furo, de desencontros, de descobertas,de gols, de bolas na traves, de escanteios …de 45 duzias de coisas que serão esquecidas para “sempre” e logo lembradas quando houver espaço de novo para elas.

Usar o bom humor para falar de aniversário é o clichê universal para os que acham 45, pouco, muito ou insuficiente. Mas vá lá, nascer no dia em que Debbie Harry nasceu, não no ano, já leva “state of art” ao nascimento…”Call Me” …

Tudo bem há 45 anos o Brasil dava vexame na Copa da Inglaterra, mas na própria, os Beatles lançavam a bolacha “Revolver” e brilham “For no One”, “Eleanor Rigby”, “Good Day Sunshine”, “Here, There and Everywhere”, “Tomorrow Never Knows”, que poderiam muito bem acompanhar as 45 velinhas do bolo em canção. E que homenagem, no dia 01 de julho de 1966, o Fab Four tocava ao vivo em Tokio, alucinando os japas.

Falando em 1966 e discos antológicos: Beach Boys (Pet Sound), Rolling Stones (Aftermath),  Cream (Fresh Cream), Kinks (Face to Face) , Small Faces (Small Faces), Phil Ochs (In Concert), Yardbirds (Roger, The Engineer), Buffalo Springfield (Buffalo Springfield),  Otis Redding (Soul Album), Tony Bennet (Movie Songs), Vinícius e Baden (AfroSambas), Bob Dylan (Blonde on Blonde), Frank Zappa (Freak Out),  13th Elevators (The Psychedelic Sounds of) e não vou parar nunca, pois o anos foi fecundo.

Como pano de fundo no ano que nasci brotavam hits no Brasil:  A “Banda” e “A Rita” (Chico Buarque), “Pede Passagem” (Sidney Miller), “Upa Neguinho” (Edu Lobo e Guarnieri), “Procissão” e “Roda” (Gilberto Gil e João Augusto), “Louvação (Gil e Torquato) “Canto de Ossanha” e “Tempo Feliz” (Baden e Vinicius), “Papo Firme” (Roberto e Erasmo), Negro Gato” (Getulio Cortês) …

Listas, listas, quem faz 45 pode enumerar uma infinidade delas: de regojizos, de redenções, de mancadas, de alívios,  de retornos, de idas, de ausências,  de dias memoráveis e de outros “esquecíveis”,  de quase amores, de amores, de nomes e lugares com quem conviveu e em que viveu. Decibéis ouvidos, páginas lidas e abandonadas, lugares, cidades, passagens inesquecíveis que viraram fumaça, carta, recados, memos, telex, fax, email, sms, bytes e átomos espalhados pela vida, palavras, tempo demais para atos e arrependimentos, considerações a respeito, reincidências… sem culpa.

Tempo insuficiente ainda e já o bastante para esquecer o que não interessa e forçar a lembrança do que não aconteceu (virá?). E claro, muito aconteceu. De evaporar no trabalho nesse dia, de querer inventar um divisor de água e descobrir, enfim, que foi mais um dia somado aos outros tantos. Mas que faz diferença, faz. Blefar para dobrar, abandonar o monte e  brigar pela vitória, sempre. Regojizo de ver a mãe e o pai, quase no dobro, 80, 84, irmã bacana de 54 ,e ter saudade do irmão que foi embora,cedo, aos 37.

Inventar um discurso para se orgulhar da calvície, depois de notar que cada fio caiu sem a menor consideração, de emagrecer e engordar ciclicamente e depois de anos e ainda ter de brigar. Tempo o bastante para reler livros já esquecidos e para dizer que ouviu aquela canção “moderna” há mais de 30 anos.

Tempo o bastante para dizer que ouvia “rock pauleira” e desprezava a “disco”, que quase foi ao Rock”n Rio 1, que se nutriu do punk  e da new wave, pós punk, gothic, new romantic, tecnopop, grebo, post rock, grunge, stone rock … todos os subprodutos inventados pelos “think tanks” da cultura pop.

Lembrar ao longe de que cantou em fila no pátio da escola, forçado, Hino Nacional, da Bandeira, do Soldado e eram tempos carrancudos. Menino, você brincava nas tardes dos anos 70 e via Vila Sésamo, Sitio do Pica Pau Amarelo, Shazam e Xerife. Você vê tudo em retrospectiva e tenta não suspirar e dizer frases de boas lembranças ou saudosismo embotado.

Tempo de conviver com a distensão, abertura, de ver e lutar por diretas já, de ficar alegre por poder votar com 18. E não esquecer que são 45 e que você já se frustrou tantas vezes com a política para depois voltar e começar tudo de novo.

Não dá para ignorar este dia, 01 de julho de 1966, há 45 anos, tanta gente que foi, que esta e que ainda virá que viram pedaços e poucos a completude desse trajeto. A canção, sempre a canção, Elvis Costello escreveu para marcar os seus 45 anos, peço emprestado ao rapaz, uso nos meus, tenho agora os meus quarenta e cinco.

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