Joe Strummer poderia estar aqui…


Joe Strummer morreu em dezembro de 2002.

O Clash surgiu colado na ida dos Ramones a Londres em 1976 e na esteira dos Sex Pistols.

O nascer do punk.

Diferente dos rapazes do Brooklin novaiorquino, Strummer saiu dos pubs ingleses com claras idéias políticas na cabeça. A Inglaterra enfrentava uma dolorosa recessão que desembocaria na “Era Thatcher”, a caretice imperava, era preciso incendiar Londres com idéias e ações.

Strummer atravessou uma década com o Clash.

Em 1986 Joe Strummer partiu para a carreira solo. Nunca deixou de escrever canções contra as perversas lógicas políticas e econômicas. O mundo dele não era o de consensos.

Strummer fez história, resisto a aceitar a analogia da Londres “incendiada” pensada por ele em 1976 com a de fato incendiada desde o último final de semana. Parece saída fácil, mas Strummer enxergou bem.

“All across the town, all across the night

Everybody’s driving with full headlights

Black or white turn it on, face the new religion

Everybody’s sitting ‘round watching television!”

London is Burning

The Clash

Na noite de sábado, policiais abordaram e balearam em Tottenham no norte de Londres, Mark Duggan, um rapaz negro de 29 anos.  A alegação foi que houve resistência e troca de tiros, o que resultou na morte de Duggan. A área é de afros-caribenhos, ponta do iceberg, desemprego, múltiplos problemas sociais. A família de Duggan recebeu informações desencontradas e contraditórias da polícia. A revolta seguiu como rastilho da delegacia para os arredores do bairro e ganhou a noite.

Não, não é coincidência. Há 30 anos em Brixton, local com o perfil similar, estouraram várias revoltas contra o desemprego e recessão econômica. Os motivos eram os mesmos, os de fundo e os alegados oficiamente. O Clash assistiu e registrou tudo isso. Paul Simonon, baixista do Clash, que cresceu nas ruas de Brixton, compôs e cantou algum tempo antes das tais revoltas um desfecho óbvio:

“When they kick at your front door, how you gonna come?

With your hands on your head or on the trigger of your gun

You can crush us, you can bruise us But you’ll have to answer to, oh, the guns of Brixton”

The Guns Of Brixton

The Clash

A revolta iniciada no sábado se espalhou por várias áreas de Londres, zona leste, sudoeste, centro e toma outras cidades da Inglaterra. Carros e ônibus depredados e incendiados, lojas invadidas e saqueadas, agressões. A desordem cria leituras, algumas de pronto, oportunistas.

A BBC destaca o “protagonismo” das redes sociais na “organização” da revolta. A primeira vítima são as redes sociais? Travem o twitter e esqueçam os motivos da revolta. As pessoas saem queimando carros e saqueando lojas por que são ruins e as gangues controlam tudo?

A versão virtuosa da polícia é que as revoltas são produto da repressão ao crime organizado como um efeito colateral. A ação da polícia por mágica criou uma digressão na “convivência” com o crime organizado e num sangrento sábado eclodiu a reação? A recessão e crise são panos de fundo irrelevantes e a população composta por baderneiros teleguiados prontos para agir?

Ler a fundo não é justificar e glorificar, mas tentar entender sem soluções diluídas.

“London calling to the faraway towns Now that war is declared and battle come down London calling to the underworld”

London Calling

The Clash

O vice prefeito de Londres, ilustrado pelas fotos da imprensa, deu relevo aos roubos de tênis em lojas. De fato os tênis desapareceram das lojas saqueadas, e não só eles. A estagnação e os cortes de gastos públicos são meros detalhes, são cumulativos e não fere a lógica, a falta de tênis nos pés de pobres baderneiros e invejosos, sim. O vice alcaide determina a lógica. Quem for prudente que espere a farra especulativa se acomodar. Eles estão mesmo preparados para vandalizar a qualquer momento. Bárbaros!

A revolta deve seguir então o seu caminho de entropia? Negros matam negros, disputam o tráfico (a ponta dele), a marginalidade e se não morrem são presos, não há explosão, pois houve. E não foi por tênis, de longe se sabe. Apenas ande ao seu redor, não é necessário ir à zona norte de Londres.

“There ain’t no need for ya

Go straight to hell boys”

Straight to Hell

The Clash

Cameron, o primeiro ministro, assistiu da Toscana, sua capital em polvorosa, com vagareza reagiu. São apenas baderneiros à solta, dando motivos de sobra para fechar o cerco. O discurso ta pronto, lembra a música de outros punks, contemporâneos e expiradores do Clash, Sex Pistos em ” Holydays in The Sun”:

“A Cheap holiday in other peoples misery!”

Cameron voltará e vai fomentar os discursos que já conhecemos.

A polícia heróica será saudada e os homens e mulheres negros e brancos que quebraram a próxima cidade olímpica, pagarão em dobro o preço do acinte? Não se trata de sorrir sob os destroços e brandir em delírio os efeitos de uma lógica excludente. O resultado não cabe em explicações oficiais, tampouco em táticas revisionistas.

Qual o próximo ato? Como não associar as revoltas do Oriente a uma Londres imperial em chamas? Isolar as partes e traduzí-las ao sabor da conveniência?

Vamos esperar as palavras de Cameron?

“are ya takin over

or are ya takin orders?

are you goin backwards,

or are you goin forwards?”

White Riot 

The Clash

Não há beleza em destruição, na morte, no caos. Por mais que saibamos que tudo isso tem uma origem bem evidente, não podemos aplaudir como vitória. A conta vem. É bem provável que seu desfecho em meio à supressão e ao acobertamento, será frustrante e doloroso. Mas o mundo se transforma e esta revolta que responde a novos tempos, não pode ser resumida e comparada ao que passou. Os punks, incluso Strummer, de alguma forma disseram isso. Pena, foram vistos apenas como subproduto da indústria cultural.

Strummer morreu, não pode ir às ruas fazer suas leituras e nos dar em canção sua crônica sobre esta Londres incendiada.

As ruas têm outros cronistas esperando para narrá-las no calor dos acontecimentos. Em Londres, Paris, Madrid, Damasco, Oslo, São Paulo …

“So won’t you help to sing
These songs of freedom
Cause all i ever had These songs of freedom
Cause all i ever had Redemption songs
These songs of freedom
These songs of freedom
Redemption Song”
Redemption Song
Joe Strummer and Mescaleros
Bob Marley


Anúncios
6 comentários
  1. Belíssima lembrança, Ricardo. Joe Strummer e o Clash foram sensacionais. Quando vi o caos em Brixton eu imediatamente pensei em Guns of Brixton. Aliás passei o dia alternando entre a versão do Clash e a versão do Nouvelle Vague…

  2. marinildac disse:

    Muito emocionante, chorei. Enquanto houver generosidade como a sua há alguma esperança neste unwritten future. Ele não parece nada bonito, mas quem sabe…? Quanto à canalha de dedo em riste, ah, pode esperar, you’ll have to answer to!!!

  3. Via twitter: RT @klaxonsbc: @SerBrasileira “Joe Strummer poderia estar aqui…” no Klaxonsbc: http://wp.me/pkHsj-Yg / Cara, adorei teu texto, realmente o mundo não sabe qual é a real, e onde eles tentam bloquear as informações: nas redes sociais. Depois que li o Independent entre outros, a mídia é golpista em qualquer país, pois favorece a direita e as empresas. Joe, The Clash, entre outros que não estão mais aqui, estariam nas ruas com esta galera. Acredito que haverá uma grande mobilização dos artistas a favor do social. abraços.

    Conheci bem o punk aqui no Brasil, convivi com os anarco sindicalistas. Pude entender a contra-cultura, dos anos 80 e 90, tanto aqui, quanto em Londres. Século 21, momento de nova ruptura, os jovens revolucionam e mostram que o poder não os pode dominar, e o colapso do sistema financeiro desencadeado por uma muralha fascista, tende a romper, se os jovens se fortalecerem. Eu acredito que esta tendência se expandirá em todos os continentes.

  4. Guarracy Araújo disse:

    redemption Song é do Bob marley, que bem merece ser lembrado em um momento desses – e na tua crônica, aliás. E que tal Burning and Looting?

    Burnin’ And Lootin’
    This morning I woke up in a curfew;
    O God, I was a prisoner, too – yeah!
    Could not recognize the faces standing over me;
    They were all dressed in uniforms of brutality. Eh!

    How many rivers do we have to cross,
    Before we can talk to the boss? Eh!
    All that we got, it seems we have lost;
    We must have really paid the cost.

    (That’s why we gonna be)
    Burnin’ and a-lootin’ tonight;
    (Say we gonna burn and loot)
    Burnin’ and a-lootin’ tonight;
    (One more thing)
    Burnin’ all pollution tonight;
    (Oh, yeah, yeah)
    Burnin’ all illusion tonight.

  5. “Não há beleza em destruição, na morte, no caos”.
    Morreu mais gente hoje 10/0811.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: