Entre sopros e jabs


Sugar Walker Smith Jr nasceu em Ailey, Georgia em 03 de maio de 1921. Entrou no universo do boxe na década de 40 e passou a usar a alcunha de Sugar Ray Robinson, tido como o maior desse esporte, um virtuose.

Sugar  lutou cerca de 200 lutas em sua carreira, ganhou 173, das quais, 109, por nocaute. Mas o que o diferenciou é que o seu refinamento não coube em estatísticas. O seu jogo de boxe não se espelhou em vitórias, nocautes, mas sim na maestria que levava as lutas a uma esfera de arte, de surpresa. Seu maior adversário, Jake LaMotta, o maior aliado, a autoconfiança.

O boxer da Georgia foi protagonista da denominada “era de ouro do boxe”. Na atualidade o boxe é muito amaldiçoado e visto como puro negócio. Entra no pacote de lutas suicidas que infestam o esporte. Há quem defenda não ser um esporte. O boxe teve que se brutalizar, perdeu a dança, ganhou a truculência.

Onde estaria Sugar Ray hoje? No chão socado por um brutamonte com pinta de bad boy do UFC e eventualmente joga boxe? Não existe o supor, Ray foi e será um grande. Mas ver boxe mudou, o olhar mudou, a arte saiu do lugar.

Miles Davis era um músico promissor saído de Alton, Illinois.  Em meados da década de 50, líder de bandas, sideman, já gravara discos e participara de sessões memoráveis.  O futuro piscava em ouro e glorias e o seu trompete dava-lhe destaque, só tinha um empecilho, a heroína.

Miles amealhara má fama entre os músicos, era um junkie, e como tal, irresponsável. Em 1954 deixa New York e volta para a casa do pai, onde se trancaria 12 dias num quarto, dor, cold turkey, tratamento forçado, vai embora o vício.

Miles colocou luvas e foi treinar boxe.

O trompetista atravessaria décadas tocando e produzindo muito. Em depoimento disse que o principal inspirador da sua virada nos anos 50 foi o boxer Sugar Ray. Além de admirar aquele cara boa pinta, famoso, vencedor, disciplinado e dotado, antes de qualquer coisa, de estilo.

O boxe era coisa de estilista, e assim, o jovem Miles talhou seu estilo de ataque e pegada, sabia que não era um virtuose como Gillespie, Satchmo, mas seu trompete tinha um caminho a percorrer.

Como o jogo de cintura de Sugar.

Esta virada deu pulso novo ao jazz e nos proporcionou discos importantes como Milestones, A Kind of Blue, Miles in the Sky, In The Silent Way, Bitches Brew. Miles seguiu seu rumo inovador e abriu caminho para erros e acertos, o jazz, música vital, teve seu embate conhecido entre os desejos impeditivos da indústria e as saídas redentoras de seus criadores.

Miles brigou contra heroína, venceu,  brigou também contra a indústria (muitas vezes veladamente) vencendo quase sempre.

Miles e Sugar foram considerados como construtores e modernizadores do jazz e do boxe.  Claro que não foram unanimidade. Miles era tido como irascível, ególatra e intransigente. Sugar como extravagante e narcisista. Imperfeitos imprescindíveis.

As despedidas de Miles e Sugar  foram muito próximas. Sugar Ray em 1989, Miles Davis em 1991. Hoje são lendas que alimentam a indústria. Vencedores. O olhar distante minimiza as brigas, muitas vezes sem regras. Os sopros e jabs parecem fáceis e leves no mundo da imagem e do fetichismo.

Os tapes das lutas históricas de Sugar Ray, assim como as músicas inovadoras de Miles Davis no Itunes são patrimônio adquirido de todos.

O custo disso passa ao largo e representam bem mais do que direito autoral e de imagem.

Falar de forma romântica das agruras que um músico de jazz e um boxer, ambos negros, passaram na América moralista dos anos 50, já basta? Chamá-los de gênios já basta?

As verdadeiras causas e consequências, o recorte de classe, o racismo, as imposições da indústria são capítulos superados pela genialidade do indivíduo? Aprofundar-se nas contradições pode custar a pecha de discurso ressentido, masturbação sociológica, como diria um observador das sutilezas, da poesia. Vale o desvelo.

Não nascem Miles e Sugar aos montes, nem todos têm a argúcia de se desvencilhar e o suingue de procurar o espaço certo. O triunfo do self made man quase sempre bate na trave. Há que se recuperar a história sem fantasias, entre sopros e jabs. Jamais negá-la, tampouco suas tensões e contradições.

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1 comentário
  1. Nelba disse:

    Brilhante, Ricardo! Parabéns! andei passando adiante, atravessando fronteiras para adubar conversas coincidentes com um lutador que ainda em estado bruto, amalgamado de sensibilidade mas que a ela resiste, se deixe tocar e germine.

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