Jeneci na Cracôlandia


“Quantas são
As dores e alegrias de uma vida
Jogadas na explosão de tantas vidas
Vezes tudo que não cabe no querer

Marcelo Jeneci veio de Guaianazes. O pai Manoel, migrante nordestino, cantou e cantou Roberto Carlos até conquistar a mãe. Veio daí o Jeneci, e honrou de onde veio. O filho Marcelo pegou tudo que pôde da música popular. A popular música brasileira que um dia se complicou e virou MPB. Separaram bolero de bossa, separaram o samba de sofisticação do samba de baixo calão. Que música popular?

Mas caras como Jeneci não ligam. Caras como ele tocam ao lado de outros e não ficam na inveja, acompanham e aprendem. Não têm tempo para alimentar preconceitos. Dialogam com os contrários e não acham problema em gostar de algo. E sem pudor misturam tudo.

Jeneci se moldou tocando acordeon, piano e coisas no fundo do palco. Quando se sentiu pronto, voou sozinho. Soube enxergar o legado que recebeu e recombinou. E a música popular nestes casos não se complica, se confunde entre o urbano e o que vem de longe dele e deixa pegadas. Marcelo achou o caminho.

Caras como Jeneci assumem o brilho pop do Roberto Carlos que quase nunca errou, o estrategista. Mas também recebem cores (e ele assume nominalmente) do errante Tremendão, o Erasmo, que experimentou mais que o parceiro e completou a frase. E ouve-se com ele Guilherme Arantes (melodista), e ouve-se com ele aqueles cantores de melodias fáceis e nomes esquecidos das rádios Am e vários outros.

Jeneci veio daí. Não reclama pureza.

Marcelo Jeneci esta muito a vontade com tudo que tem. Nos shows, ergue os braços desajeitado, pede para ligar as luzes do celular e que o publico os agite para coreografia da baladinha romântica. Fala de beijos, de amores, de desejos simples e esta muito a vontade. Jeneci se cerca de músicos bons para tocar música simples e acontece. Marcelo gosta do que faz e não precisa construir uma imagem, naturalmente constrói, toca pra quem quiser ouvir.

Na sexta ele tocou no Sesc Bom Retiro, que fica entre Santa Cecília e Campos Elíseos, não no Bom Retiro. No início da apresentação ele riu e disse: “tô aqui, ao vivo na Cracôlandia”. Minutos antes ao chegar para vê-lo, tava atrasado e olhei de canto d’olho ao cruzar a Guaianazes ao lado, dezenas de nóias cruzando a rua para lá e para cá, zumbis. Cracôlandia.

Os caras da Cracolândia nem sabem quem é o tal Jeneci e estavam ali perto, quem sabe, quase o ouvindo. Quinhentos metros podem ser léguas. Os espaços culturais não “contaminam naturalmente” o entorno. Os rapazes e moças do crack como o Marcelo, talvez com mais propiedade, sabem que a ” gente é feito para acabar”. Jeneci toca pra todos, mas nem todos podem ouvir o Jeneci.

Se a vida fosse simples como fazer música com sinceridade, talvez, talvez…

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2 comentários
  1. marinildac disse:

    Queria ter conhecido a Cracolândia. Acho que está mais no noticiário do que a Paulista… Mas queria ter conhecido o Jeneci também!

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