“Redson (1962-2011)”


“Assim é que vive, como um animal
nas ruas escuras, matando a pau
a noite é deles, do ébrio vagal
da mulher do muro, do homossexual
subúrbio geral, subúrbio geral”

Subúrbio Geral – Cólera

Moleque ainda descobri o punk rock. As informações difusas na virada dos anos 70 para os 80, chegavam no Brasil muito misturadas. Imaginem na suburbana São Bernardo do Campo. Intuia o punk rock com discos emprestados, fitas cassete e poucos programas de rádio, como o do Kid Vinil na extinta Rádio Excelsior. As ruas ensinavam o que era o punk. As histórias colhidas nas lojas, nos pontos de encontros da rockeirada (misturados punks e rockers), amadorismo, improviso e descobertas, várias. Discos minguados que rodavam em várias mãos e vitrolas, voltavam riscados ao dono, quando voltavam, junto com as desculpas esfarrapadas.

Um das lendas, para alguns nem tanto lenda , eram a  tretas ABC x City (Sampa). As conversas sobre brigas nos trens e nas estações de metrô (especialmente a São Bento), Madame Satã (isso mais tarde) e outros cantos alternativos da cidade. Quem não tava ao vivo ouvia os fatos e  exageros, curtia e duvidava, quem tava ficava com ônus dos perigos e com o bônus da história. As brigas eram reais e nem sempre românticas. Os entreveros recheiam imaginário de muitos saudosos até o presente. Usos e efeitos colaterais da industria cultural.

Neste começo de madrugada (28/09/2011) chega a notícia da morte de um dos ativos artíficies da historia do punk rock no Brasil, Edson Lopes Pozzi, o Redson, vocalista e fundador do Cólera, saído do Capão Redondo, fundos da zona sul. Ele era um “punk da City”, longe do ABC. Claro, subúrbio é subúrbio, geral, ABC ou City, hoje enxergamos isso com mais clareza, na época era barreira. Então, o Cólera (Redson, Pierre e Val) nos chegou em disco – os shows já eram falados –  com o Grito Suburbano em 1982.  Muitos caras do ABC curtiam o Cólera (alguns marrentos, escondidos). O bairrismo sucumbia à música.

Depois de 1982, foram anos de estrada, 10 discos, e neste momento (2011), eles rodavam outras estradas com o show “30 Anos Sem Parar!”. O punk rock eclodiu na metade da década de 70 para negar os heróis , os Stranglers (banda inglesa de Guilford) cantava “No more heroes, anymore” , mas os heróis não são solapados da história com canções e intenções. Este mesmo punk, por mais que uma histeria negue, faz parte da história da música brasileira. Redson é parte expressiva desse capítulo. Herói ou não, ele meteu a voz e a guitarra no cancioneiro popular, mesmo que não tenha sido convidado, e deixa lacuna…foi ele mesmo quem fez!

Dedico este post ao velho camarada Betão, grande fã do Cólera.

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7 comentários
  1. Ricardo,

    Meu camarada, lá do Ceará ouvia o Punk/Rock daqui sem saber direito destas divisões, que post espetacular, diante de uma notícia triste você celebrou uma época gloriosa, da resistência do “anônimos”, dos sem jornais, mídia,mas que construíram uma linda história, parabéns,

    Arnobio Rocha

  2. admsblog2011 disse:

    Pode crer cara, eu sou do ABC, Santo André e esse é o tempo que ainda se brigava ao invés de se matar. De vez enquando morria um a facadas numa treta de Punk vs Careca ou Skinhead ou Metaleiro. Nessa época, que eu vejo como uma época dura, mas não perdida como muitos dizem, várias bandas surgiram e cresceram no ABC, como Golpe de Estado, IRA, Inocentes, Cólera, Garotos Podres (o Mão dava ou ainda dá aula na ETI Lauro Gomes, de química), Corzus, Sepultura, etc O que contribuiu muito para a cena efervescente da época, de mudanças, de pós fracasso das diretas, etc. Assim como na Inglaterra, onde os filhos raspavam a cabeça e usava suspensório e calça jeans com coturno, pois seus pais não podiam fazer greve e eles faziam no lugar deles (não tinha nada a ver com nazistas no começo), no ABC foi igual, erámos filhos dos operários, sem dinheiro, quase todos filhos de nordestinos (inclusive eu), e que lutavam de dia contra o desemprego, fazendo SENAI ou ETI e a noite iam para o centro ouvir rock, beber e arrumar confusão. Tudo com muita inocência, apenas pra curtir. O Redson foi cedo e vai deixar saudade, com certeza! Vai em paz!

  3. O ADEUS DA ÁGUIA FILHOTE

    “Às vezes tenho medo, às vezes sinto minhas mãos presas pelo ar…”

    Hoje não é um simples dia, hoje é um dia amargamente triste para todos aqueles que tiveram o prazer de conhecer o Edson Lopes Pozzi, seja por suas poesias, suas canções ou simplesmente por conhecê-lo.
    Conheci o Edson ainda nos anos 80, para ser mais preciso em 1987, graças ao álbum lançado um ano antes “PELA PAZ EM TODO MUNDO”. O conheci pelo nome em que a maioria das pessoas o conheceu e que o chamam (E eu ainda o chamo assim) REDSON.
    Em 1987 eu conhecia o REDSON músico, punk, agitador cultural, mas nunca tinha o visto pessoalmente, só podendo ver uma apresentação da banda Cólera em 1989, após 10 anos de exílio eu voltava para Barueri e vi que existiam mais pessoas que eram punks como eu era.
    Nos anos 90 tive o grande prazer de conhecer o Redson pessoalmente. O cara incrível que estava sempre de bom humor, sempre com mensagens positivas e com uma criatividade incrível, me lembro de que eu costumava dizer que ele era o Coelho Branco da Alice, com a cabeça a mim por hora e parindo ideias como se fosse um coelho de verdade.
    Com o passar dos anos, a amizade ficou mais forte e graças ao Marcos Vicente, a aproximação foi mais contínua e cada vez mais eu fui aprendendo. Quem foi seu professor? Como você faz tudo? Simples, meu professor cultural foi o Redson. Ele quem me mostrou que se eu gosto de um tipo de musica e não tem ninguém para tocar, eu poderia tocá-la. Não sei tocar um instrumento, eu posso aprender sozinho. Não tenho quem lance minhas obras, eu descubro o caminho e lanço por mim mesmo. A total essência do Do It Yourself estava em Redson Pozzi.
    Num dos períodos mais tristes de minha vida, ele me disse: “Quando eu digo que Forte e grande é você, serve para você também nesse momento. Tudo vai dar certo”. Me lembro que eu sempre o saudava dizendo: “A-há, Redson daquela banda lá… Como é o nome? Ira!? Raiva? Nervosismo? Ah não, é Cólera mesmo”. Redson sempre foi uma escola.
    Costumo dizer que toda banda punk tem um pouco de Cólera em seu DNA, afinal, qual banda é a maior expressão do punk nacional?
    Hoje em dia é tudo mais fácil, mas se voltarmos 30 anos no tempo, vemos que o primeiro álbum de bandas punks tinha Redson na organização, tinha Redson na participação. Vemos o primeiro festival punk do Brasil e mais uma vez tínhamos Redson na organização, Cólera participando. E a primeira banda a excursionar fora do país, fechar diversas datas e se aventurar por uma Europa em plenos anos 80? Redson e sua banda Cólera, lá estava ele, sempre acompanhado de seu irmão Pierre, um dos maiores baruerienses que conheci e com orgulho o chamo de conterrâneo.
    Hoje se fala muito em ecologia, paz, direitos humanos, sustentabilidade. Assuntos do momento, mas voltando no tempo, vemos o Redson já falar sobre isso, já educar sobre isso ainda nos anos 80.
    Dos momentos mais marcantes em minha vida, posso assegurar que entrevistar o Redson em 2008 para o Vinagre & Fel e produzir um álbum em 2004/2005 que continha a banda Cólera e era beneficente ao Projeto Esperança Animal foram as melhores coisas que consegui produzir em minha carreira.
    Hoje acordo com a triste notícia de que esse meu grande amigo, professor, ídolo, herói, inspirador e tantos adjetivos que passaria o dia escrevendo se foi. É triste e com imenso pesar que digo isso. Acabou uma grande parte da história da musica nacional, um capítulo se encerra e mesmo na minha tristeza e em minhas lágrimas, posso dizer que Redson deixou um grande legado. Quando ninguém sabia como fazer, ele foi lá e fez. Disse não a indústria musical, produziu seus discos, ensinou o Know-How e sempre foi humilde, a ponto de sair de casa de shorts e chinelo para comprar pão na padaria e conversar com todos os vizinhos. Tratar as pessoas como iguais e sempre estar disposto a ouvir qualquer que seja a pessoa.
    Então eu me pergunto, como o próprio Rogério se questionou: “Uma pessoa que não come carne vermelha, não bebe, não fuma e leva uma vida saudável, deveria morrer com 80 anos e não com 49”. Que vida é essa?
    Vá em paz, menino vermelho, águia filhote, pois como você dizia: “Se você quer estar, você já está lá” e nada mais justo para uma pessoa que lutou pela paz, gritou pela paz, pediu para que salvassem e deixassem a terra em paz, tenha o seu merecido descanse em paz.
    Aqui continuamos com seu legado e ainda acreditamos em sua frase “QUERO UM MUNDO MELHOR, SERÁ QUE ISSO GRITO É EM VÃO?” Claro que não é em vão.

    Renato Sirqueira (Jay Rocker) – Banda Agnósia

    • Bacana Renato,

      depoimentos como o seu, verdadeiramente faz com quem tenha sentido em escrever num blog. Aqui contamos os fatos, mas antes de tudo, os fatos no contexto de nossas vidas. Belo depoimento e inequívoca prova de admiração e amizade.

  4. Pois é Ricardon, quem foi punk nos anos 80 não pode esquecer o Cólera, o primeiro vinil que ouvi eles foi o “Ataque Sonoro” e “SUB”, coletânea de bandas junto com Ratos do Porão, Psykoze e Fogo Cruzado.
    Lembro bem da treta punks e carecas pois andei um tempo com o Cebola, lider dos carecas que morava no Baeta.
    Era uma época muito loka, vai ficar na lembrança, Redson é mais um punk histórico a ir embora cedo, como Joe Strummer, Joey Ramone, Johnny Ramone.
    X.O.T Redson! Pela Paz em todo o Mundo.

  5. É isso, abcXsp época do caralho, redson, colera…….
    valeu por lembrar ricardão

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