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Arquivo mensal: outubro 2011

Vamos viajar.
Vamos indo de carona
Na garupa leve
Do vento macio

(Paulo Cesar Pinheiro)

Quando menino morava na beira de uma avenida. Nasci por ali. Avenida era algo completamente diferente no final da década de 60. Ela havia sido ampliada naqueles anos. Eram muitos os momentos de vazio, de poucos carros. Recordo esparsamente da conversa de um vizinho que dizia, sóbrio, que aquela avenida não tinha dado certo. Hoje não concebemos alguma avenida que não “dê certo”. Todas cheias, com muitos carros, alguns até voando pelas calçadas. A cidade do automovel glorificava como nenhuma outra, os carros e suas largas avenidas. Aos poucos eles apareceram e encheram a avenida. Finalmente a teoria do vizinho caíra por terra. Ela deu certo. Kennedy é o nome. Sabia, garoto, que era um presidente americano que morrera. Ontem estive nela.  A avenida esta viva e cinquentona, a minha casa já nāo existe. Ironicamente, a avenida voltou a ser lenta. Não mais aquela lentidão da minha infância, de estar no portão, de esperar o próximo carro, advinhar a cor, a marca, muito vezes demorava. A lentidāo que se dá agora é a de um entulhamento, de ficar parado dentro de um carro de cor qualquer, de qualquer marca, mais um a encher as ruas. Parece que o mundo parou, a avenida só mudou o tempo. E hoje é avenida qualquer. Suaviza a música, e lembro de uma que tocava por ali, no tempo de estar ao portão. Música que fala de viagem, creio que sempre pensamos em uma  viagem, mesmo quando não há …

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Resolvi não citar mais o nome do indivíduo. Exposição midiática, exposição do nome, marca espalhada depende bastante de referências, e a mídia é auto-referente o tempo todo. Ela e suas criaturas. O que diferencia o cara (produto) é o nome que ele usa junto com o desempenho. Se o cara é famoso, nome é a marca que aparece. Se a marca é muito consumida e danosa, repetir o nome é reforçar o dano. Então, além de não falar um nome, vou distorcê-lo: Ranulfo Bostas.

O rapaz e seus companheiros surgiram como os redentores do humor mordaz, politizado e sem fronteiras. O líder, um dia foi Ernesto Varella, paladino da era da redemocratização pós-ditadura. Jornalista e humorista dentro do frentão pró-democratização. Com o tempo, ele perdeu o cabelo e suas idéias ficaram mais claras.

Importaram um produto argentino, nada parecido com o Messi. O formato é bater em todos sem discriminação partidária, estética, filosófica. O tempo todo dava pra sentir o nítido “olor” partidário e esquemático do programa. CQC, sigla.

As críticas ao Governo (obrigatórias num programa de humor) são fartas e isso não é grande problema. Fica tudo aparentemente apartidário. Notamos que as escolhas são cirúrgicas e determinadas. Destemor seletivo. Mas a mídia, esta cada vez mais evidente, tem partido ou é partido. Eles não fazem sozinhos.

Algumas passagens caíram nas graças do público. Canalizaram a indignação, seletiva. A despolitização joga o político (o homem, as instituições) cada vez mais contra as cordas. A despolitização é politizada (chavão abre porta grande).

Coincidentemente, alguns que lutaram para a restauração da democracia contribuem diretamente para tal. Políticos de um lado, jornalistas (humoristas) do outro? É bom que não se misturem mesmo. Como dizem os bons, opinião pode ser mudada e deve. Ainda tem o on e off como opção. Será o suficiente?

Programas de TV têm muito poder, de acumular consensos e de despertar sentimentos. O humor é arma poderosa. Poder que cria ídolos e deixa a mercê desses ídolos pessoas e instituições. Soa bastante democrático, o fato é que democracia não esta exclusivamente ligada ao consumo. E o cara (produto) ganha asas. Vira o bom do twitter. O mais popular. Um termo em desuso, mas apropriado: formador de opinião.

Um belo dia a criatura (produto) desanda, os motivos nem importam. Atacou aliados políticos? Não, neste quesito ele é disciplinado. Atacou os interesses comerciais, claro. Amigos de amigos e rede de patrocínios. Exorbitou.

Agora o língua solta virou alvo, tudo e todos que ele desrespeitou são objeto de um revisionismo. Homofobia, chauvinismo, machismo, racismo, sempre existiram no discurso dele e na banca que ele compunha (ou ainda compõe?). Agora que ele ataca seus parceiros, parece bicho acuado, atravessou a fronteira, virou mexicano em terras ianques. Antes fosse uma piada autolimpante.

A mídia se auto-regula. Ela e seus produtos.

Os veículos que o venderam, agora são os seus algozes?. Irônico, contraditório? Nada disso, procedimento básico. E agora Folha, Estadão e a própria Band são aliados das pessoas e instituições que o produto criado por eles próprios feriu? Enterraram o Ranulfo. São os palanques da auto-regulação. Cínico, repugnante?

Alguém compra essa?

Pensei em colocar alguma frase do Lester Bangs, mas ia parecer de plástico.

Eu mesmo.

Receita básica de jornalismo cultural agressivo, e por vezes enfant terrible: localize alguma máfia beneficiada pelo jogo, incrustada no seio da indústria cultural. Do alto de uma coluna ou artigo de um grande veículo de comunicação, solte venenos indiscriminados contra nomes que brilham naquele momento, os tais queridinhos, que seus colegas de profissão elegeram para falar bem em outros colunas e palanques. Seja o negativo da via de mão dupla. Está criada a marca. O boca do inferno.

Derrube tudo, chame de máfia do dendê, indies lulistas, apaniguados da Ana Buarque, cheirosinhos da Rouanet … poderia citar vários termos. Pronto, você será agraciado com o título de gonzo da vez. Você vai ser odiado e citado interminavelmente, a Rita Lee vai te amaldiçoar, o Ziraldo vai espernear, o Ed Motta vai jogar vinho Natal na sua coluna, Caetano escrever um artigo de doze laudas contra e como diria *Assis Valente: o mundo não vai se acabar. Tudo se acomoda. Peças do mesmo jogo.

O mundo não se acaba, mas muda…

Há poucos anos, os jornais e revistas, especialmente os cadernos culturais, davam a dois ou três iluminados a tarefa de criar e cinicamente destruir nomes na vida cultural. Muitas vezes parecia jogo combinado. Um ou dois enaltecia e um terceiro jogava na sarjeta. As polêmicas e exaltações se alimentavam mutuamente. Até a “next big thing”.

Parte da redação da extinta Revista Bizz, Ilustrada, Caderno 2, Pepe Escobar (deu guinada total no rumo), Luiz Antonio Giron, André Forastieri, até o simpático Pedro Alexandre Sanches, já confessou ter sido mordido por esta mosca. São textos bons, com até algum humor e bem informados, mas estão, quase sempre, dentro do jogo que criticam tanto.

Dizia que o mundo muda, nem para pior, nem para melhor…

Vivemos nos dias de hoje o momento mais sublime do amadorismo. Qualquer um chega às redes sociais e pode criar uma “polêmica cultural”, com bastante sorte, repercutirá entre os pares e pode até ser citado por algum famoso, e assim, ganha maior repercussão. A era dos caras que têm opinião sobre tudo (uma acusação recorrente dos velhos/novos polemistas dos veículos tradicionais). Diferentes dos polemistas do século passado, que recebiam (recebem?) salário para isso e dispunham de uma via de comunicação de uma só mão. Fim dos tempos, agora você pode revidar ou divergir em tempo real. Valei-me.

Hoje pela manhã li de soslaio um artigo do antigo Álvaro Pereira Jr (editor do Fantástico e colunista da Folha) onde trata de uma pretensa (termo de profissionais, não usado por ele) máfia de artistas indies paulistanos que, segundo ele, vivem preguiçosamente agraciados pela rede SESC, pelo Estúdio SP e por financiamentos de uma pretensa rede lulo-estatal (que ele chama de lulismo). Artistas preguiçosos agraciados por um esquema político (que ele diz ter preguiça de desbaratar). Jornalismo preguiçoso que trata de artistas preguiçosos, enfim. O texto ficou pela metade.

A fala do editor master ligado a dois grandes veículos de comunicação poderia ter um peso, não fosse a vida pregressa de polemista milk shake que o rapaz leva no currículo. De toda forma o que espanta é o jovem velho jornalista vir a público reclamar de máfia, tendo como tribuna um veículo pouco afeito à transparência (que ele reclama da máfia indie). Qual o alvo, alvaro? A era lulo-petista e sua nefasta política cultural, o SESC cabotino? Acho que poderia nos dar mais detalhes…gostaria muito que desse.

Em resumo: esta polêmica no século passado daria pano para manga. Agora não dura muito (lamento muito, pois vejo alguns pontos positivos), fica perdida na multidão…

A mudança foi sensível. Dos dois ou três iluminados, hoje temos milhares de vozes isoladas ou não que reclamam polêmicas. Avanço pela quantidade? Não. Talvez o avanço seja pela inutilização da via de mão única. Que não é completa ainda, veículos de grande circulação ainda fazem cabeças, não podemos ser ingênuos. Mas o espaço de contraponto mudou. Qualidade? Nada garante que os contrapontos sejam melhores ou piores, mas o debate avança.

Ao Álvaro docemente reclamo: melhore o Fantástico ou acabe com ele. E sobre a máfia indie: traga provas. A era do jornalismo prepotente, monolítico e de via única pode estar acabando. Sem ressentimentos.

* Confundi “Quando o Samba Acabou” de Noel Rosa com “E o Mundo Não se Acabou” de Assis Valente , corrigido graças à lembrança do Diego de Moraes, valeu!

E existiu um tempo em que você tinha só cinco, seis anos de idade, e as pessoas escolhiam o que você ia ouvir. Se houve proximidade, esta escolhas sempre funcionarão. São os sons da casa onde nasceu, cresceu e das pessoas com quem você conviveu. Voce não percebia preocupação e nenhum compromisso com a escolha. Leve. As músicas ficavam zanzando em tudo, provavelmente como você ficava. E davam o tom para a casa. Passa muito tempo e muitas dessas escolhas ainda te tocam e fazem lembrar quem deu carinho e, também, quem não esta mais do seu lado. Funcionou. A música.

Speak low
Darling speak low
Love is a spark
Lost in the dark
Too soon, too soon

Recentemente falei de Kurt Weil para lembrar a entrada de setembro e aquelas mudanças anunciadas, mesmo que não confirmadas, prometidas numa nova estação. É, não temos como criar novidades o tempo todo. Nem nós, nem as estações. E por que não repetir? A frase, a rotina do dia, os sabores, o compositor. E vem novamente, Kurt Weil com letra de Ogden Nash. Promessa de amor nem precisa ser novidade, pode ser tranquilamente repetida. Sem novo lustre, mas com beleza. Em cinco tempos e várias estações.

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