A “máfia indie” e o polemista milk shake


Pensei em colocar alguma frase do Lester Bangs, mas ia parecer de plástico.

Eu mesmo.

Receita básica de jornalismo cultural agressivo, e por vezes enfant terrible: localize alguma máfia beneficiada pelo jogo, incrustada no seio da indústria cultural. Do alto de uma coluna ou artigo de um grande veículo de comunicação, solte venenos indiscriminados contra nomes que brilham naquele momento, os tais queridinhos, que seus colegas de profissão elegeram para falar bem em outros colunas e palanques. Seja o negativo da via de mão dupla. Está criada a marca. O boca do inferno.

Derrube tudo, chame de máfia do dendê, indies lulistas, apaniguados da Ana Buarque, cheirosinhos da Rouanet … poderia citar vários termos. Pronto, você será agraciado com o título de gonzo da vez. Você vai ser odiado e citado interminavelmente, a Rita Lee vai te amaldiçoar, o Ziraldo vai espernear, o Ed Motta vai jogar vinho Natal na sua coluna, Caetano escrever um artigo de doze laudas contra e como diria *Assis Valente: o mundo não vai se acabar. Tudo se acomoda. Peças do mesmo jogo.

O mundo não se acaba, mas muda…

Há poucos anos, os jornais e revistas, especialmente os cadernos culturais, davam a dois ou três iluminados a tarefa de criar e cinicamente destruir nomes na vida cultural. Muitas vezes parecia jogo combinado. Um ou dois enaltecia e um terceiro jogava na sarjeta. As polêmicas e exaltações se alimentavam mutuamente. Até a “next big thing”.

Parte da redação da extinta Revista Bizz, Ilustrada, Caderno 2, Pepe Escobar (deu guinada total no rumo), Luiz Antonio Giron, André Forastieri, até o simpático Pedro Alexandre Sanches, já confessou ter sido mordido por esta mosca. São textos bons, com até algum humor e bem informados, mas estão, quase sempre, dentro do jogo que criticam tanto.

Dizia que o mundo muda, nem para pior, nem para melhor…

Vivemos nos dias de hoje o momento mais sublime do amadorismo. Qualquer um chega às redes sociais e pode criar uma “polêmica cultural”, com bastante sorte, repercutirá entre os pares e pode até ser citado por algum famoso, e assim, ganha maior repercussão. A era dos caras que têm opinião sobre tudo (uma acusação recorrente dos velhos/novos polemistas dos veículos tradicionais). Diferentes dos polemistas do século passado, que recebiam (recebem?) salário para isso e dispunham de uma via de comunicação de uma só mão. Fim dos tempos, agora você pode revidar ou divergir em tempo real. Valei-me.

Hoje pela manhã li de soslaio um artigo do antigo Álvaro Pereira Jr (editor do Fantástico e colunista da Folha) onde trata de uma pretensa (termo de profissionais, não usado por ele) máfia de artistas indies paulistanos que, segundo ele, vivem preguiçosamente agraciados pela rede SESC, pelo Estúdio SP e por financiamentos de uma pretensa rede lulo-estatal (que ele chama de lulismo). Artistas preguiçosos agraciados por um esquema político (que ele diz ter preguiça de desbaratar). Jornalismo preguiçoso que trata de artistas preguiçosos, enfim. O texto ficou pela metade.

A fala do editor master ligado a dois grandes veículos de comunicação poderia ter um peso, não fosse a vida pregressa de polemista milk shake que o rapaz leva no currículo. De toda forma o que espanta é o jovem velho jornalista vir a público reclamar de máfia, tendo como tribuna um veículo pouco afeito à transparência (que ele reclama da máfia indie). Qual o alvo, alvaro? A era lulo-petista e sua nefasta política cultural, o SESC cabotino? Acho que poderia nos dar mais detalhes…gostaria muito que desse.

Em resumo: esta polêmica no século passado daria pano para manga. Agora não dura muito (lamento muito, pois vejo alguns pontos positivos), fica perdida na multidão…

A mudança foi sensível. Dos dois ou três iluminados, hoje temos milhares de vozes isoladas ou não que reclamam polêmicas. Avanço pela quantidade? Não. Talvez o avanço seja pela inutilização da via de mão única. Que não é completa ainda, veículos de grande circulação ainda fazem cabeças, não podemos ser ingênuos. Mas o espaço de contraponto mudou. Qualidade? Nada garante que os contrapontos sejam melhores ou piores, mas o debate avança.

Ao Álvaro docemente reclamo: melhore o Fantástico ou acabe com ele. E sobre a máfia indie: traga provas. A era do jornalismo prepotente, monolítico e de via única pode estar acabando. Sem ressentimentos.

* Confundi “Quando o Samba Acabou” de Noel Rosa com “E o Mundo Não se Acabou” de Assis Valente , corrigido graças à lembrança do Diego de Moraes, valeu!

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18 comentários
  1. Ricardo,

    É Fantástico!!!ostracismo acaba levando o cara a melhorar sua relação com…o dono do jornal, jamais com seus leitores,

    Arnobio

  2. “A era do jornalismo prepotente, monolítico e de via única pode estar acabando. Sem ressentimentos.” Essa a grande novidade trazida pela internet. Para o bem ou para o mal. Quem não entender pode acabar dando bom dia a cavalo.

    cid cancer
    mogi das cruzes/sp

  3. “E o mundo não se acabou” é do Assis Valente… e não do Noel Rosa…

  4. luzete disse:

    bela análise, ricardo.
    e sempre vejo vc lá no LNO. fico feliz. importante que cada vez mais gente acesse as coisas que você tem prá contar.

    e, olha, esta música do roberto carlos é daquelas (são poucas, viu!) que guardo com muita delicadeza. bom você lembrar dela. te devo um obrigada.

  5. SILVANA VIANA TORRES disse:

    Ricardo, alguns jornais daqui também não perceberam que esse tipo de jornalismo está com os dias contados. Em um deles, o Jornal do Commércio, os jornalistas estão proibidos de utilizarem as redes sociais… Esse, deixei de assinar em outubro/2008.

  6. O Álvaro trabalha para o Fantástico, não é o programa dele. Quando vc é funcionário, tem que seguir diretrizes. É a mesma coisa que musicos que tocam com visual esquisito, e durante a semana se vestem normalmente para trabalhar em escritórios ou bancos.
    Quanto ao texto do Álvaro, já gerou bastante reclamação das partes envolvidas, o que só prova que ele está certo. Alias, bandas boas raramente tocam no Sesc, e no Studio SP, eu nunca vi nenhuma anunciada…

    • Hansen,

      nao fiz a crítica ao editor do fantastico (foi apenas um chiste), o que me intriga são declarações generalistas. Não comungo com conluios do Sesc ou de qualquer rede independente mal explicada. O que faltam sao maiores detalhes. Falta espaço ,de fato, para bandas e artistas que estão fora de “qualquer eixo”. A propósito onde posso conseguir aquela cx do Harry? Abços

    • Nao há defesa incondicional de “lado” nenhum. O seu post avança mais em detalhes do que as acusações genéricas. Nao pense que acredito em carochinas, fora ou dentro do eixo.

      • Nao apaguei a resposta, problemas do WP. Muitas vezes ele duplica repostas ou faz desaparecer. Você chama de desculpas esfarrapadas exatamente o quê? Não faço defesa incondicional de balcão nenhum, seja de dirceu , do sesc ou de lei de incentivo, pelo contrário tem q explodir todos os balcões e dar transparência. Tenho a mesma opinião que vc sobre esta organizações alternativas mal explicadas. O que critiquei no texto do Alvaro foram as afirmações genéricas. Gostaria de saber mais, seu post avança, mas ainda é pouco.

    • R. disse:

      Ue? Apagou a resposta? Estranho…

      • Ok. Vi agora, foi um mal entendido. Eh que nessa historia, como disse no post, o que nao falta eh tropa de choque pra defender. Abs

  7. Luiz disse:

    Eu sou muito suspeito pra falar visto que vibrei com o texto do Arnaldo. Mas posições políticas à parte, só o fato do seu texto ser chato, um mimimi gigante, cheio daquela linguagem pseudo digna de DCE da USP, tentando mais provocar e desqualificar o adversário do que defender posições políticas, já prova que você tem uma chance gigante de estar errado.

    Ps: eu voto no Lula

  8. Essa história, Ricardo, é feita de espertalhões e inocentes úteis.

  9. Renato,

    eu imagino (não sou do meio musical, mas gosto muito de música) e é essa a minha maior preocupação. Você não muda políticas culturais (mesmo as “não existentes) com discurso. Tem bastante gente sincera (sem entrar em meandros estéticos) fazendo música e lutando por espaço. É por este motivo que independente da cor ideológica do balcão de interesses, ele tem que ser derrubado.

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