“Ascensão e queda de Ranulfo Bostas”


Resolvi não citar mais o nome do indivíduo. Exposição midiática, exposição do nome, marca espalhada depende bastante de referências, e a mídia é auto-referente o tempo todo. Ela e suas criaturas. O que diferencia o cara (produto) é o nome que ele usa junto com o desempenho. Se o cara é famoso, nome é a marca que aparece. Se a marca é muito consumida e danosa, repetir o nome é reforçar o dano. Então, além de não falar um nome, vou distorcê-lo: Ranulfo Bostas.

O rapaz e seus companheiros surgiram como os redentores do humor mordaz, politizado e sem fronteiras. O líder, um dia foi Ernesto Varella, paladino da era da redemocratização pós-ditadura. Jornalista e humorista dentro do frentão pró-democratização. Com o tempo, ele perdeu o cabelo e suas idéias ficaram mais claras.

Importaram um produto argentino, nada parecido com o Messi. O formato é bater em todos sem discriminação partidária, estética, filosófica. O tempo todo dava pra sentir o nítido “olor” partidário e esquemático do programa. CQC, sigla.

As críticas ao Governo (obrigatórias num programa de humor) são fartas e isso não é grande problema. Fica tudo aparentemente apartidário. Notamos que as escolhas são cirúrgicas e determinadas. Destemor seletivo. Mas a mídia, esta cada vez mais evidente, tem partido ou é partido. Eles não fazem sozinhos.

Algumas passagens caíram nas graças do público. Canalizaram a indignação, seletiva. A despolitização joga o político (o homem, as instituições) cada vez mais contra as cordas. A despolitização é politizada (chavão abre porta grande).

Coincidentemente, alguns que lutaram para a restauração da democracia contribuem diretamente para tal. Políticos de um lado, jornalistas (humoristas) do outro? É bom que não se misturem mesmo. Como dizem os bons, opinião pode ser mudada e deve. Ainda tem o on e off como opção. Será o suficiente?

Programas de TV têm muito poder, de acumular consensos e de despertar sentimentos. O humor é arma poderosa. Poder que cria ídolos e deixa a mercê desses ídolos pessoas e instituições. Soa bastante democrático, o fato é que democracia não esta exclusivamente ligada ao consumo. E o cara (produto) ganha asas. Vira o bom do twitter. O mais popular. Um termo em desuso, mas apropriado: formador de opinião.

Um belo dia a criatura (produto) desanda, os motivos nem importam. Atacou aliados políticos? Não, neste quesito ele é disciplinado. Atacou os interesses comerciais, claro. Amigos de amigos e rede de patrocínios. Exorbitou.

Agora o língua solta virou alvo, tudo e todos que ele desrespeitou são objeto de um revisionismo. Homofobia, chauvinismo, machismo, racismo, sempre existiram no discurso dele e na banca que ele compunha (ou ainda compõe?). Agora que ele ataca seus parceiros, parece bicho acuado, atravessou a fronteira, virou mexicano em terras ianques. Antes fosse uma piada autolimpante.

A mídia se auto-regula. Ela e seus produtos.

Os veículos que o venderam, agora são os seus algozes?. Irônico, contraditório? Nada disso, procedimento básico. E agora Folha, Estadão e a própria Band são aliados das pessoas e instituições que o produto criado por eles próprios feriu? Enterraram o Ranulfo. São os palanques da auto-regulação. Cínico, repugnante?

Alguém compra essa?

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4 comentários
  1. Ricardo,

    Os caras são ungidos pela mídia tendo apenas como critério que fosse escatológicos contra o Governo, a tática não resultou em nada, mas eles se empolgaram tanto que achavam que estavam acima do bem e do mal, esqueceram apenas de um detalhe: os anunciantes viram o tamanho do rombo diante de tanta “irreverência”. Agora que dói no bolso e 2014 ainda tá longe, vão mandá-los pra geladeira.

    arnobio

  2. luzete disse:

    é interessante a coincidência, né? censores e censurado, desta vez, são farinha do mesmo saco. o resultado? este cinismo que você identificou tão bem. e espaço para mais uma cruzada moralista que esquece do detalhe siamês das criaturas.

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