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Arquivo mensal: novembro 2011

Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade

Heróis da Liberdade (Silas de Oliveira / Mano Décio/ Manoel Ferreira)

Dias atrás conversava com um amigo e ele me contou, entusiasmado, que havia assistido uma apresentação do cantor Jorginho do Império na Lapa carioca. Jorginho sacara do repertório sambas enredos antigos e contagiou toda a platéia com as belezas. Forcei a barra para que ele lembrasse alguns, no esforço, a memória não veio. Deu pra entender no brilho do olhar que eram mesmo sambas bonitos. Letras e melodias ficaram ali de alguma maneira. Usei da imaginação (quando não se presencia algo, o recurso que temos é usá-la) e passei a cantarolar os versos:

“Já raiou a liberdade A liberdade já raiou

Essa brisa que a juventude afaga

Essa chama Que o ódio não apaga pelo universo

É a (r)evolução em sua legítima razão”

A ousadia de cantarolar me humilhava à luz da memória de Roberto Ribeiro, um dos maiores interprétes da música brasileira, que gravou este samba. O samba de coragem, samba enredo do Império Serrano, composto e lançado no carnaval de 1969, às portas do AI-5, em plena ditadura militar, reinvidicando liberdade no asfalto da Presidente Vargas. Talvez, Jorginho tenha cantado esse, não importava mais, a lembrança já fez valer o papo.

A cultura popular tem mesmo coragem e pode ser tanta coisa. Por mais que seja vista de forma paternalista e maniqueísta pela elite (às vezes pela esquerda, outras pela direita) a cultura popular não passa pela história para ser interpretada com as cores determinadas pelo “outro”. Nem sempre é ingênua, nem sempre é espontaneísta.

Mas ao falar de cultura popular, samba e elite, corremos o risco de desafinar o samba. Melhor deixa o samba correr, a melodia bonita e a pegada da letra. A beleza.

Homenagem ao baiano Mano Décio da Viola e aos cariocas Silas de Oliveira e Manoel Ferreira que fizeram história e história não se apaga.

No vídeo, imagens do belo desfile em 1969.

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“At last I am free
I can hardly see in front of me
I can hardly see in front of me”

Robert Wyatt

Há alguns anos conversando com um camarada, no meio de um discurso pesado,ele soltou essa: “a música suaviza tudo que quer me enfraquecer, as quedas…”.

Eu rebati a fala dizendo que aquilo daria letra de bolero e mudamos o rumo da conversa. Ironia fraternal.

As palavras mudam de lugar e algumas coisas passam a fazer sentido. Não é o caso de transformar a vida em ópera, mas a música diz as coisas mais cruéis de uma maneira, por vezes, suave, confortante.

Um música pode mudar o tom de um dia. Uma canção se desdobra para escrever em ironia, em lamento, em dança, em ode, em prece ( e lá vem a ópera de novo), em sussurro, as reviravoltas da vida.

O fim, o recomeço ou apenas a busca simples de algum alento. Em três tempos, a liberdade de dizer “já era” e sempre poder mudar.


Este post é uma homenagem ao velho comuna e mestre, Robert Wyatt.

“O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.”

A cena é forte. A mistura do aniversário da morte do Torquato Neto, um cara que abriu caminhos, que juntou partes quase excludentes, e do outro lado, milicos na universidade. E não vou entrar aqui no mérito de estratégia do núcleo de estudantes. De perto a gente sabe que esta intriga das esquerdas trotskistas é de lascar. Tese sobre tese, divisão, ações que morrem em si. Mas há principios a defender, a ditadura não é ferida que se fechou e há quem a defenda de forma sistemática até o presente, também há forças políticas que a traduzem neste momento. Sem dúvida é algo a entender, combater.

Escrevendo junto com Torquato:

“Por onde passa a memória
Lembrando histórias de um tempo
Que não acaba”

Usar o poeta é fácil, menos por ele ser da tropicália, alias ele negou a acomodação da tropicália, e no curto tempo que viveu, buscou outros caminhos. Citá-lo, porque ele viveu o tempo cinza da excessão, das armas e dos limites impostos pela força, e foi vivo, enquanto bem respirou, para achar suas saídas. Desafiar a acomodação de quem acha normal que armas podem estar na cara de um jovem (ainda que equivocado), e por não causar risco algum, é tripudiado por quem esta aparentemente perto e por quem esteve sempre longe.

“Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim”

No meio da guerra fria de palavras, de tweets palanques, de facebooks falantes, que de resto são novas tribunas que expressam de forma mais visível os mesmos embates, os mesmos dilemas, travestidos de hipermídias e truques aglutinadores, no fundo são as idéias que se contrastam, daquele que fecha a porta para o presente falando do devir e do outro que enterra o pé no passado com discurso consciente. Nada é novo o bastante para brilhar.

“Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho”

E parece que fujo, não falo da USP,  e dos meninos que acamparam na reitoria, que escreveram o roteiro desenhado por um reitor segundo colocado, colocado pelo Governador que não cumpre mandato.  O segundo colocado e o renunciando juntos. O que mudou da autoridade? Homens da democracia, carrancas velhas novas do autoritarismo, contraponto perfeito para os açodados trotskistas, tão sem caminho, quanto os primeiros.

Se o Torquato soubesse, talvez não abriria o gás tão cedo. Ele que nasceu em 9 e nos deixou em 10 de novembro.

“Quer saber? A poesia salva.

”Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos.

É o risco.

Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa.”

Tudo começou com o baseado aceso, tantas antes vezes aceso no mesmo local. E se a lei é lei, só muda se alguem contestar. De onde vem as mudanças? O Torquato tava nessa e mudou as leis das palavras, brincou com a palavra. Fez o mundo a seu jeito, abriu o gás e se foi…o mundo ficou, se repetiu e jogaram de novo fardas e moleques. Os moleques de 68 são mais charmosos por que estão distantes ou o mundo era mais fácil de enquadrar e dividir naquele momento?

Será que Torquato responderia essa?

“não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta”

E a sede de negar é grande, tira os espaços da crítica.  Não há dúvida que avançamos, mas não como parar. Hoje tudo vem no instântaneo, as revoltas, as reações, o contraponto. Embates rápidos, on line, textos inspirados, frases soltas, idéias que não ficam represadas num pensamento e que não demoram pra serem expostas. Mas…a sede de negar é grande, de quem brigou para mudar e de quem faz tudo pra tudo ficar como antes. Como eu ouvi agora a pouco na boca de uma figura bizarra “a negação da negação”.

As frases correm. De novo o poeta (re) visionário que sabia ser a palavra parada, palavra morta e a fazia circular;

“eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes”

Esta de desafinar é óbvia, desafina de várias maneiras e de todo lado. Mas, não tem fuzil pra ser defendido, não tem estudante pior que o outro, algumas coisas não tem outra cor, mesmo que queiramos desafinar. Defender um lado não é parar de vez, mas ajeitar as armas (as palavras, os atos) para o próximo embate. E muitos vêm. Torquato cantou os momentos do seu fim, mas não tem fim para algumas coisas.

“Nada igual ao bem e o mal
Dois (experimente, é legal)
Eu creio que existe o bem e o mal
Mas não há nada igual
E tudo tem mel e tem sal”

A cena é forte, o dia, a mistura dos 67 anos que Torquato faria, com as frases fascistas de um bando de boca aberta vociferando contra maconheiros. E estes caras diriam que falar de Torquato é coisa de maconheiro, demodê. Pois é, mal entenderam que Torquato não cheira a mofo da tropicália, que ele interrompeu sua vida, mas não parou no tempo de idéias velhas de quem defende o horror mais velho que há. O atraso tem faces e sorrisos “novos”. É fácil ser integro com o controle remoto na mão;

“todo dia é dia D
há urubus no telhado
e a carne seca é servida
um escorpião enterrado
na sua própria ferida”

Qual será a nova pauta, quem fica do lado de lá e do lado de cá. Quantos ódios serão trocados e quantas “conquistas” serão, enfim, relativizadas? A história roda e tem coisa que não muda (já disse isso de outro jeito). O roteiro será aquele que escolhermos. Mas os lados sempre ficam claros. Escolher é fácil, difícil é manter o prumo, e não será qualquer argumento que vai me conduzir ao fuzil, mesmo não concordando com aquele que carrega os livros.

Misturei o dia ruim da invasão da USP com Torquato Neto pra dizer que a palavra jamais morre.  Algumas idéias também não, nem devem.

“Atenção, atenção
Repare se estou errado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado”

Torquato Pereira de Araújo Neto (1944-1972)

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