Samba, presta esta homenagem…


Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade

Heróis da Liberdade (Silas de Oliveira / Mano Décio/ Manoel Ferreira)

Dias atrás conversava com um amigo e ele me contou, entusiasmado, que havia assistido uma apresentação do cantor Jorginho do Império na Lapa carioca. Jorginho sacara do repertório sambas enredos antigos e contagiou toda a platéia com as belezas. Forcei a barra para que ele lembrasse alguns, no esforço, a memória não veio. Deu pra entender no brilho do olhar que eram mesmo sambas bonitos. Letras e melodias ficaram ali de alguma maneira. Usei da imaginação (quando não se presencia algo, o recurso que temos é usá-la) e passei a cantarolar os versos:

“Já raiou a liberdade A liberdade já raiou

Essa brisa que a juventude afaga

Essa chama Que o ódio não apaga pelo universo

É a (r)evolução em sua legítima razão”

A ousadia de cantarolar me humilhava à luz da memória de Roberto Ribeiro, um dos maiores interprétes da música brasileira, que gravou este samba. O samba de coragem, samba enredo do Império Serrano, composto e lançado no carnaval de 1969, às portas do AI-5, em plena ditadura militar, reinvidicando liberdade no asfalto da Presidente Vargas. Talvez, Jorginho tenha cantado esse, não importava mais, a lembrança já fez valer o papo.

A cultura popular tem mesmo coragem e pode ser tanta coisa. Por mais que seja vista de forma paternalista e maniqueísta pela elite (às vezes pela esquerda, outras pela direita) a cultura popular não passa pela história para ser interpretada com as cores determinadas pelo “outro”. Nem sempre é ingênua, nem sempre é espontaneísta.

Mas ao falar de cultura popular, samba e elite, corremos o risco de desafinar o samba. Melhor deixa o samba correr, a melodia bonita e a pegada da letra. A beleza.

Homenagem ao baiano Mano Décio da Viola e aos cariocas Silas de Oliveira e Manoel Ferreira que fizeram história e história não se apaga.

No vídeo, imagens do belo desfile em 1969.

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8 comentários
  1. Carlos Henrique Machado Freitas disse:

    Linda homenagem!
    o Samba é isto mesmo, mais que musica é filosofia.
    parabens!

  2. Quando de repente me diz no FB que estava afim de “dá um fim o blog” aí ele vem e saca um puta post deste, o que falar deste compas de lutas, de debates, de concordâncias e discordância, mas sempre companheiro e solidário?
    Valeu Ricardo,

    Arnobio

  3. agoraquando disse:

    O samba é a música da brasilidade. Ainda que os brasis sejam tantos, da milonga ao baião, do maracatu ao rasqueado, da bossa nova à tropicália, o samba está sempre lá, mais brasileiro que todos embora tenha nascido baiano e se criado no rio. Música africada, antiga e moderna, já se anunciava pelo telefone antes mesmo da chamada de longa distância do primo do norte. Valeu o post, não só pela lembrança, mas pela qualidade indiscutível da cultura popular brasileira e também pela memória.

    Grande, Ricardo!

    Sergio

  4. marinildac disse:

    Emocionante. Então e agora. Dizem que tricolor tem que torcer pra Beija-Flor, imagine, a escola que em 2000 cantou os “feitos” da ditadura! A Beija-Flor passa pela história com as cores determinadas pelo outro, no caso, o regime fascista. Sim, há muitos olhares na cultura popular. Fico com Mano Décio e Silas. E com você, genial companheiro que faz esses posts poéticos que me botam pra chorar.

  5. Katia Peruca disse:

    M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!!!!!!!!!!!!!!!!!

  6. Lufeba disse:

    Lindo post! Grande homenagem aos guerreiros do samba.

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