Qual é o nome da música brasileira?


“E para acabar todos fizeram a festa juntos comendo bom presunto e dançando um samba de arromba em que todas essas gentes
se alegraram com muitas pândegas liberdosas.”

(trecho do romance “Macunaíma”  de Mário de Andrade)


O papo é música popular e falar de música, ainda por cima popular, gera polêmica e fere suscetibilidades. E começamos a dizer que o termo popular é um RG, marca a individualidade, cada um quer carregar o seu “popular” e moldá-lo de acordo com a sua conveniência. Há um popular inventado para cada tese. Os historiadores adoram correr dessas delimitações. Nada de mal nisso, até que entramos numa discussão objetiva. Musica Popular Brasileira ou MPB, a aparência é de um termo inequívoco que representa a musica que o povo brasileiro faz ou gosta ou a música que se faz no território do Brasil. É? Não é.

Sabido é que o termo MPB foi criado  no meio da década de 60 do século passado. A bossa nova entrava na segunda fase, o engajamento e o protesto contra a ditadura militar nascente deram forma a MPB. Letras engajadas, música urbana, intelectualizada, pós-samba ,  as influências do nordeste, as contradições da industrialização e os laivos da guerra fria. Seu palco privilegiado eram os grandes festivais transmitidos pelas redes de televisão.  A MPB era a música dos engajados, dos universitários, dos pensantes. A MPB nasceu como um segmento em separado, dividido, apartado do “restante”.

O termo, a sigla MPB, marcou determinada época, serviu como trincheira de resistência política e estética, contra a ditadura, contra a invasão da música estrangeira. Foi o início. A caminhada a favor do violão, contra a guitarra, em 1967, tinha em suas fileiras, Gilberto Gil e Elis Regina, que eram já grandes nome da MPB recém-nascida. Logo depois, ambos voltaram atrás, se eletrizaram, mas este momento ficou marcado, um emblema da MPB.

Com o passar dos anos a MPB foi se “dourando” e atingindo o status de tudo que era sofisticado e “não popularesco”. Era (é) preciso ralar para ganhar a insígnia “MPB”, não esta(va) na mão de qualquer um. Esta distinção, esta diferença marcada, serviu bem a indústria cultural, que “sem maldade”, criou compartimentos, estilos, subgêneros, públicos segmentados e vendeu grandes tiragens de discos.

Diria o apocalíptico Theodor Adorno que nem a MPB não é boa, não é integral, que ela é vítima da “padronização de suas estruturas formais”, música menor, e se nem ela é, imagine o que esta fora do rótulo? Vem de longe este pensamento. Antes de tudo eram o erudito e o popular, as grandes marcações da diferença. O bom, o adequado, complexo e o ruim, o estabelecido, marcado pelo conforto, pelo estereótipo, ligeiro. E a MPB marcou o seu ligeiro, seu oposto, definitivamente ela não era o popularesco.

Se para os mais apurados de outrora nem a MPB seria adequada (a velha separação entre o erudito e o popular), o fato é que ela também nasce marcada pelo mesmo desejo/necessidade de distinção: “Tenho que ser diferente da música do outro”. Mas quem será o outro? O caos?  A música chula e sem ousadia. A música popularesca que se criou às margens de tudo isso. Enquadrada, parceira e, claro, outro produto da indústria cultural, que se baseava na música romântica “superada” pela bossa, na guarânia, nos tons mexicanos, na jovem guarda, nos ritmos nordestinos não “sofisticados”, nas letras de amor apelativo. Um grande mercado.

Tropicalistas bagunçaram esta lógica, a jogaram dentro de uma caixa dourada. Era tropicalista, não era brega, usava o brega ou a “não MPB” para fazer a MPB, o fuleiro, o fácil, o customizado, o confortável ficavam de fora ou serviam como alegoria. Quando eu era menino se falava música de empregada doméstica e de pedreiro.  Isso não era MPB. Depois derivou para o sambão jóia, pagode, guitarreiros, axé, breganejo, forró de teclado, funk… música do “outro”. Nomes, nomes.  A questão de classes presente e marcada.

Aparentemente os preconceitos se diluíram, e isso já ficou marcado lá nos anos 70, quando Caetano chamou Odair José para duetar. Diluir não é quebrar. O truque é atrair, fazer tributos, tornar “cult”, o fuleiro e fetichizar canções “fracas” na sua origem. E o que é “sofisticado se junta ao “outro” criando mais um produto.  A tropicalia e seu legado não é tão “chiclete com banana” como aparenta. A distinção entre popular e popularesco se aprofunda, pois depende do “Midas” que quebre a barreira entre um e o outro.

O salto dos anos 70 aos 80, fim da ditadura, rock brasil (que nunca foi admitido como MPB), os medalhões, outrora rebeldes, se tornaram o mainstream e se acomodam. Como disse um gaiato: MPB vira música de motel chique. A MPB esta confortável. Ela dilui o ritmos todos, contorcendo virando outras coisas, mas permanece MPB e distinta. O auge, porém, tem data longínqua. A MPB se torna uma segmento especifico , uma escaninho distinto nas lojas.

Vamos seguindo: MPB não é forró, não é samba, não é baião, não é rock, não é reggae, não é choro, nem rap… mas o tempo a misturou com tudo isso. Então, o que ela não é? Ela não pode insistir a ser o contrário do “ie ie ie”, eternamentecerto?

A revelia de qualquer rótulo a tecnologia mudou a relação das pessoas com a música, e a própria música. Ela ocupa agora espaços variados com as formas rápidas de acesso e as facilidades de produção. Facilita-se a escolha, mas aprofunda o efêmero. O tempo da música se acelera. O baile, o rádio e a tv são apenas parte dos referenciais, o acesso se ampliou. Podemos ouvir tudo que não ouvimos antes e bem rápido, as possibilidades de se informar aumentaram muito. O tempo encurta suas mangas e seu alcance. A música sempre retorna no tempo, por saudosismo ou necessidade de reconstrução, é redescoberta.

A música segmentada (em gênero e gênese) vai ser superada pela tecnologia? Os rótulos vão ficando mais confusos  e a tal MPB se mimetiza com vários outros (isso não é novidade), mais ainda com a crise dos formatos: LP, cd, mp3, streaming e a perda de identidade (e lugar) da industria fonográfica. Posso ser brega, sofisticado, fuleiro, erudito, alienado, engajado, sútil, ogro com apenas alguns cliques e minutos após deixar de ser tudo isso. Sem entrar em loja, sem comprar vitrola ou quaisquer suporte, sem exposição. Você pode se sentir confortável e ouvir só a sofisticação ou ser cult arejado, também uma brega empedernido.

Pra terminar: e se nesta altura do jogo jogássemos o rótulo fora, a quem serviria? Todo significado que a sigla carrega(va) se esvaiu? MPB, Música Popular Brasileiro, Música pra Pular Brasileira, Musica do Povo Brasileiro. Questiono se MPB (rótulo, sigla) sirva para distinguir algo hoje. Já me falaram que não importa o nome, que é apenas um rótulo. Será verdade? Arrepia-me o relativismo.  Podemos falar que hoje existe tão somente uma música brasileira dentro de várias? Tá liberado pra ser “brega” ou “sofisticado”  sem culpas? MPB pura ou misturada?

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2 comentários
  1. marinildac disse:

    Super-hiper-mega-blaster instigante, perdão pela expressão batida. Sempre, sempre penso nisso, nos mistérios disso. Ontem mesmo, no carro, o rádio tocando uma balada detestável pensava, quem pode gostar disso? Aí passei por uma oficina chamada “Descargão, o rei do escapamento”. Meu preconceito – que tento muito domar, espanco o safado frequentemente, procuro enterrar fundo – deu o ar da graça: ah, o dono dessa oficina deve gostar. E assim caminha a humanidade, popular, brega, MPB, fazer o quê? Eu não sei.

  2. Ricardo,

    Imagino o dilema dos “chefes” da MPB, ou dos herdeiros, depois de se acharem superiores ao Brasil/Brasileiros, quase americanos, este eterno sonho, são moídos pelos movimentos subsequentes, os mesmo tropicalistas, se adequaram e viram novos donos da MPB, tornam-se tão reaças quanto os antigos. Mas no desejo de permanecer em cena, elegem os “bons” no meio dos “ruins” que renegam, viram cult.

    Uma contradição estranha, pois o Brasil, depois dos EUA é o país que mais consume sua própria música, mas nunca nos acertamos conosco, como se criar estantes, gavetas separadas, filtros, para um padrão que não existe, pois não é determinado por ninguém.

    Arnobio

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