“A biblioteca que inventei”



Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça. 

Trecho de “O Homem É o Rio, o Rio É o Mundo”  –  Jose Carlos Capinan

O meu bairro ainda era bacana. As ruas mesclavam o já antigo paralelepípedo com o moderno asfalto. Mas não eram ainda ruas de verdade. No sentido de ruas onde só se passam carros, realmente, elas não eram de verdade. Minguavam os carros e os jogos de rua dominavam. A meninada ficava contente. Todo mundo solto inventando sua infância. Claro, os tempos permitiam isso, o passar das horas era outro e os temores bem diferentes.

No meio do embate futebolístico era só dois carros passarem em sequência, que vinha a frase:

– Isso aqui tá parecendo rua – logo depois o jogo seguia em paz.

O bairro, a rua, a vida era toda nossa.

O meu bairro era bonito e o que não estava nele parecia distante. Sair de lá, era ir ao centro, ir à “cidade”, os outros bairros eram apenas passagem, me bastava o meu. Dois três quilômetros e já mudava a referência. O centro. Os prédios eram diferentes, as pessoas passavam bem rápido. Era outro tempo, era um tempo diferente das ruas vazias onde carros eram exceções. Tudo envolvia mistério. A cidade era a “cidade”.

Tinha a pastelaria, os armarinhos, as lojas de roupas de senhores e senhoras. As lojas de sapato, onde ficava os tênis, entre eles o Kichute para dar os (mal) tratos à bola. Ir ao centro era coisa especial. Cada rua do centro tinha sua história verdadeira, inventada, não era diferente no bairro, mas no centro tudo era maior. Cada lugar tinha sua marca.

Havia prédios que não se apresentavam tão facilmente, não se destacavam, não eram óbvios. Não tinham placas evidentes, nem produtos a mostra, quase nunca tinha gente em frente deles. Poderiam ser qualquer coisa, coloridos, sem cor, sisudos, simpáticos, abandonados. Prédios sem nome.

Um deles tinha um jardim no entorno e portas de vidro. Não sabia o que era muitas vezes passava em frente de ônibus e ele ainda não despertara qualquer curiosidade. O que se fazia o que tinha dentro desse prédio, não era facilmente identificável. De longe eu podia distinguir móveis cinza que não contrastavam com a cor cinza externa. Era uma massa só, homogênea.

Um dia cheguei perto e pude ver uma roleta, para além dela, uma senhora com um olhar atento, e lá no meio de tudo, livros. Não passei a roleta, fiquei parado, envergonhado, curioso, mas sem força para entrar.  Era a biblioteca pública. Demorei a entender o que rolava. Capítulo grande da minha história começava ali.

Na minha escola tinha algo chamado biblioteca. Era sempre fechada ou restrita. Não despertava interesse de ninguém. Lembro-me da única vez que entrei sem hesitar e não foi bom, nada bom. A pessoa que lá estava ensaiou um grunhido querendo ser palavra e instantaneamente atingiu seu objetivo. Saí dali rapidamente. Biblioteca para mim passou a ser um impedimento.

A biblioteca pública era o prédio que eu não identificava. Era algo a se entrar, mas tinha o tal nome do impedimento: biblioteca.

O ônibus que passava perto da biblioteca tinha ponto final bem perto de casa.  Com ele seria rápido chegar, quinze, vinte minutos. Tinha a opção de ir a pé. Gostava mais dessa. Passar em frente ao Corpo de Bombeiros, depois o hotel grande, subia um pouco e saía defronte ao cemitério. Perto do cemitério, moravam a avó e os tios. Mais abaixo tinha a prefeitura, logo em frente às três ruas que compunham o centro. A terceira rua mais a direita, era a mais estreita, bem no meio dela, a biblioteca.

Entrar na biblioteca foi um processo longo, nem sei dizer mais a primeira vez. Foi uma longa primeira vez. Livros de lado, números indecifráveis, assuntos demais. Pessoas quietas, pessoas olhando pros livros, pessoas que atendiam olhando para lugar nenhum. Sempre alguém olhando e dizendo não. Ao menos a partir daquele momento eu sabia que não era só o prédio cinza. Os livros tinham cor na capa, mas as pessoas ainda eram o cinza.

A primeira pessoa colorida que me atendeu perguntou sem rodeios o que eu queria. É certo que a esta altura nem lembro mais o que pedi. Mas passou a ser algo fora do cinza, colorido, a pessoa, o pedido, a situação, coloriram a biblioteca. Foi um pedido atendido.

Perder o rumo no meio das estantes e descobrir coisas tornou-se um grande barato. Não queria orientação. Desorientava-me diante da organização dos livros perfilados, das mesas alinhadas, dos pedidos de ordem e do silêncio. A mente passava a olhar aquela confusão de informação de uma maneira simpática.

Obviamente, para mim era só confusão, mas hoje consigo emprestar esta poesia. Eram tardes longas onde eu perdia o futebol das ruas protegidas da minha vila. Perdia a bola do jogo e ganhava um espiral de curiosidades.

Intuía sempre que as minhas idas à biblioteca pública eram inúteis, ficava sambando nas estantes, insistia em não pedir ajuda (teimosia) e pegava livros incompreensíveis, mesclados com livros “fáceis” que fizeram minha cabeça.

Não vou citar livros, nomes de autor, isso tudo não importam agora. O que marcou foi esta confusão, parte intencional, parte desavisada, em que eu caía nas minhas tardes de biblioteca. Foi assim que o prédio deixou de ser cinza, que ele foi inventado por mim.

Passado anos, entrei em várias bibliotecas, todas com gostos diversos, de cinzas e coloridos diferentes. Até me tornei bibliotecário. Tantas vezes cinza, outras vezes com cor. Trabalhei em várias delas, cinzentas e com cor.

Vejo biblioteca ainda hoje dessa maneira. Como algo a desorganizar um mundo paginado, como algo a derrubar uma certeza, limpar a área e construir novos caminhos. A biblioteca é o principio de nossas dúvidas.

Como posso imaginar o passado, como posso ver hoje e construir com o peso da minha vida dentro de bibliotecas, como leitor, como profissional, posso então inventar uma tarde que caberia em qualquer selva de estantes recheadas por livros e meninos perdidos. Posso imaginar que mandava naquela biblioteca, como mandava nas ruas em que jogava o futebol. Posso fazer e falar o que quiser. A fala a seguir cabe em qualquer uma dessas tardes, dessas vidas, desses prédios:

O bibliotecário pede silêncio na biblioteca e o menino rebelde responde:

“Não posso, as palavras fazem barulho na minha cabeça”

Talvez este menino tenha sido eu.

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13 comentários
  1. marinildac disse:

    A frase desse garoto coroa o seu trabalho, hein? Caraca, que poeta, que resumo perfeito, preciso, nossa! Emocionante, como a “sua” rua. A minha também era assim…

  2. marinildac disse:

    Ah, e que texto, PQP!

  3. agoraquando disse:

    Ali em Porto Alegre ela está na esquina da Riachuelo [em memória da batalha] com a Gen. Câmara [muito mais conhecida como rua da ladeira]. Fica na esquina oposta aos fundos do luxuoso Theatro São Pedro, onde ficam ou ficavam as bilheterias fora da hora de espetáculos e a entrada das grandes divas das artes cênicas e das óperas. Ainda lembro dos seus pisos de pedra fria, que não ajudavam muito nos dias mais setentrionais da capital gaúcha.

    Muitas vezes lá entrei para descobrir tesouros. O meu lugar privilegiado de encontro com Jorge Luís Borges [que minha esquerda não lia por conta de uma bizarra ideia de que o argentino apoiava a ditadura do seu país], meu lugar de peregrinar por páginas raras escritas em sânscrito.

    Tinha uma sala com poltronas inspiradas em mobília Luís XV, de almofada baixa e espaldar alto, para não dar muito conforto e obrigar por atenção nas impressas letras. Apesar da inspiração arquitetônica de fin du siecle [XIX], pesadona, maciça era até bastante generosa em permitir a entrada da luz do sol do paralelo 30.

    Sempre sinto fascínio dentro de uma biblioteca. Imediatamente me transporto para os labirintos, para os jogos de espelho, para as manchas que cobrem o pelo do tigre borgiano. Ao mesmo tempo que me parece um exílio, ali, na biblioteca me sinto em casa.

  4. Ricardo,

    A biblioteca da escola municipal que minha mãe era diretora foi minha perdição, aprendi ler com menos de 5 anos, apenas olhando os livros, decorando as estorias que os irmãos mais velhos liam, aí eu achava que lia também, mas tinha que ser os mesmo livros,senão errava as estórias. A felicidade quando aparecia vendedor de coleções e que minha mãe, “autoridade” da escola ganhava livros ou descontos, que ia pra nossa casa. Mas a biblioteca era especial, tinha mais sedução.

    Voltei a ser criança lendo o seu texto e imaginando o quanto temos de igual, as vidas de locais distantes, realidades, mas a descoberta dos livros nos humaniza, nos torna parecidos,

    Arnobio Rocha

  5. A minha biblioteca sempre esteve em casa, mas a confusão dessas palavras barulhentas na cabeça com certeza marcou também minhas idas e vindas nos ônibus do bairro quase rural no interior do sul da Ilha aonde me criei livre e cheia de curiosidade. Belo texto, amigo!

  6. Amanda disse:

    Oi Ricardo! Adoro seus textos! A primeira biblioteca que frequentei foi de uma escola do bairro do limão, mantida por freiras. Era uma sala enorme, com uma bibliotecária que deixava a gente sentar no chão e espalhar os livros pra ver qual que a gente ia de fato pegar pra ler inteiro. Eu era uma frequentadora assídua da biblioteca, era muito gostoso. Mesmo com as crianças pegando os livros da prateleira pra ver a capa, a orelha e tirar tudo do lugar, era um lugar incrivelmente organizado. A segunda biblioteca foi um choque para mim – colégio marista arquidiocesano de sao paulo – havia uma porta que impedia o acesso aos livros. Primeira vez que fui lá o bibliotecário me apontou uma estante de ferro que eu vim conhecer como “fichário” – era a partir dali que eu poderia solicitar livros. Um horror. Fiquei chocada de uma escola tida como excelente coisa e tal ter uma biblioteca tão fria,restrita e pouco convidativa. Hoje posso ver o quanto reduzi minhas leituras por conta daquele ambiente escuro. Fico feliz de ler um texto assim como o seu e ver que outras pessoas também têm memórias igualmente instigantes sobre bibliotecas na infância… Abraços Amanda

  7. Fatima Pereira disse:

    Amei.
    Agora, fácil e simples conhecer você.
    Parabéns.
    Bj

  8. Lufeba disse:

    Que lindo texto, Ricardo! As bibliotecas me são tão caras, e ao mesmo tempo me soam tristes. A casa de meus pais sempre foi a minha grande biblioteca, tinha de tudo. Foi lá que tive contato com os grandes clássicos das literaturas infantil, juvenil e adulta – sem contar com os Asterix e Tin-Tin, além de todos os gibis que meu pai trazia e não deixava ninguém ler antes dele. Mas a época em que mais frequentei biblioteca foi quando fazia vestibular: com mais três irmãos em casa ficava difícil estudar. Ia então para a Biblioteca Popular de Copacabana, carregado de fichários, cadernos e textos que nunca olhei: passava as tardes devorando tudo o que tinha ali (mesmo assim – ou por isso – passei em todas as provas que fiz). Mas biblioteca mesmo, das grandes, poucas vezes fui. Sempre quis frequentar a Biblioteca Nacional, imponente, completa, em plena Cinelândia. Mas não consigo: para mim ela é o local onde meu pai, numa época sofrida de sua vida, em que ficou um bom tempo desempregado, se refugiava passando os dias lendo, como se cumprindo horário de expediente, tentando fazer crer para a família (e para ele mesmo) que estava trabalhando. Mas eu sabia que não: preocupado com ele, segui-o algumas vezes até lá. Assim, ficou para mim esta imagem, de um local escuro, triste. Passo por ela todos os dias, fica pertinho do meu trabalho, mas nunca entro. Mas lendo seu texto hoje, Ricardo, a BN ficou com outra cara, alegre, clara. Vou tomar coragem e entrar. Obrigado!

  9. sigmar montemor disse:

    parabéns meu velho ! texto gostoso de ler, que nos remete calmamente a um período especial e a um sentimento que não volta….mas não morre…

  10. Dalva disse:

    Adorei o texto….o cinza, o colorido. Como me esforço para ser colorida! E o bom é que apesar de tudo, vale a pena! Bjs

  11. Lucineide Guimarães disse:

    Belo texto, parabéns!
    Acredito que o sabor, a cor, o cheiro, o tato, o som… podem ser experimentados através da leitura e, tudo fica mais fácil quando a biblioteca conta com profissionais capazes de despertar esses sentidos no leitor.

  12. Cidinha disse:

    Ricardo….que fantástico enxergar palavrinhas rodopiando. Deliciosas. O momento torna-se mágico.

  13. Marina Macambyra disse:

    Ótimo texto, Ricardo. Lembrei-me da minha primeira experiência com bibliotecas, na escola onde eu estudava. Havia bons livros (selecionados por uma professora intelectual) e a moça que tomava conta era gentil, mas a gente não tinha acesso direto aos livros e não havia catálogo. Fiquei encantada quando conheci bibliotecas onde eu podia passear entre as estantes e procurar os livros num catálogo. Veja como a gente se contentava com pouco naquela época …

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