Inveja da canção


Fui ver  “As Canções” novo documentário do Eduardo Coutinho. Saí da sala com inveja, se existe inveja boa, foi inveja boa. No estilo Coutinho, focado na pessoa e nos seus interesses, derramado nos interesses e na vida das pessoas. A canção é o mote, mas o centro é a pessoa. A história das canções na vida das pessoas.

Como de costume nos filmes de Coutinho os “personagens” são pessoas comuns (conceito esquisito) e trazem aspectos comuns da vida. A música entrelaçada nas suas vidas. O amor e sua trilha sonora. Quase todas as histórias relatadas são de dores de amores, romances partidos ao meio, abandonos, amores unilaterais.

O clima todo do documentário nos prepara para chorar, tal como as canções citadas, engendradas para comover, para despertar sentimentos “fáceis”. Gostaria de saber quem inventou esta conversa de sentimentos fáceis. Hierarquia de sentimentos preparada para culpar os comuns. Esta necessidade de assepsia, de distanciamento, faz com que busquemos a frieza onde ela não cabe. As histórias são comoventes e ponto, como uma melopéia estrategicamente colocada.

Vou falar da inveja. A inveja de não ter roteirizado estas histórias. As canções populares cabem em momentos da vida das pessoas e se tornam importantes. Coutinho colocou isso levemente, sem querer ser analítico, ele deixa a historia vir. As pessoas choram, riem do patético e do próprio escárnio, enxergam as lacunas. Os elementos fictícios aparecem no relato das “verdades” de cada um, o direito de omitir, de distorcer, como  forma de alívio. Nada demais, além da vida.

Simpático e ao mesmo tempo perigoso colocar canções no meio dessa teia. A música pode trair um compromisso, pode gerar uma expectativa inglória, pode armar um cenário constrangedor, pode gerar distorções, olhares incertos e amores que nunca existiram. Se retirarmos a música disso tudo, só restaria a tristeza, a nostalgia, a amargura, mesmo as alegrias, sentimentos espalhados, sem liga.

As falas dos personagens confirmam o exito de uma formula repetida por Coutinho. Ele de fato a repete, procura nos lugares comuns da vida a saída pra falar da gente (brasileira). Não concordo que tenha cansado, quando muito vai entediar um olhar em busca de digressões e avanços da linguagem. O foco no humano sempre interessa.

Sendo o centro do filme canções, sejam elas do Roberto Carlos, Orlando Silva, Orlando Dias, Silvinho, Noel Rosa, Jorge Ben, Armando Louzada … Coletânea de canções e gente cantando, pessoas que fizeram as próprias canções,como o menino que compôs e dedicou uma música para o pai que perdeu aos 12 anos. Não há como sair da sala culpado por se emocionar com histórias de perda ou busca de alguém por afeto.

A inveja dita é boa e as canções de resto cobrem lacunas. Repito demais isso aqui no blog, como são repetidas há décadas estas canções “lugar-comum”. Vale a pena ver o filme do Eduardo Coutinho, olhar de um jeito simples para a vida. Sair das esquinas da vida de leve, “smoother”,  como disse de maneira malandra, um senhor que estrela uma das histórias. Inveja como presente de final do ano.

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2 comentários
  1. marinildac disse:

    Ah, que bonito, que bom gosto e tão gentil…

  2. Ricardo,

    Quando ontem conversamos e você falou do filme, já deu vontade de ir, mas o post ilustra mais ainda do que é. As pessoas “comuns” têm mais a nos dizer, que somos “comuns”, do que uma certa inteligência que nos rodeia.

    Arnobio

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